domingo, 12 de agosto de 2018

Sayaka Murata, Convenience Store Woman



     Leio poucos autores japoneses, com grande pena minha. Este livro de Sayaka Murata veio adensar a vontade de aprofundar a leitura dos autores nipónicos. Sayaka Murata é uma das mais destacadas vozes da literatura asiática contemporânea. Neste livro, que li na versão inglesa, conta a história de Keiko, uma mulher japonesa de trinta e seis anos que não consegue integrar-se na sociedade nipónica actual. Por um lado, não é casada e não lhe são conhecidos relacionamentos amorosos. Por outro, tem uma actividade profissional tida por irrelevante, uma vez que é empregada de uma loja de conveniência há 18 anos. Para este fracasso não há explicação aparente. A protagonista cresceu com junto de uma família que sempre a amou e procurou proteger e educar. Keiko suprimiu a sua personalidade desde muito pequena, por ter percebido que a mesma não lhe permitia ter as reacções tidas por "normais" para aqueles que a rodeavam. Como forma de se proteger absorve as reacções "normalizadas" e procura passar o mais despercebida possível. É uma personagem sem sonhos e sem desejos de espécie alguma que encontra  a sua plenitude na loja de conveniência onde trabalha. Porém, esta vida pouco impressionante, mas que a satisfaz, vai ser posta em causa pelos poucos convívios sociais em que Keiko participa, impondo-lhe a necessidade de introduzir mudanças. Este é um dos primeiros pontos interessantes do  livro. As mudanças são procuradas, não por Keiko sentir qualquer vontade de mudar, mas antes por entender que a máscara de normalidade que enverga já não satisfaz quem a rodeia, precisa de encontrar um novo disfarce. Outro aspecto muito curioso do livro é o relato minucioso que a autora faz do quotidiano de uma loja de conveniência, mostrando as complexidades insuspeitas do seu funcionamento. O terceiro ponto que atrai no livro é o modo como são ilustradas as formas de pressão social, imunes à fragilidade de Keiko e à reserva natural que a apreciação da situação de terceiros deve merecer. Nessa descrição de crueldade mascarada de preocupação social está uma das chaves mestres da obra.
   Keiko conhece Shiraha, um homem que se sente excluído da sociedade. Ao contrário de Keiko, Shiraha sente-se ultrajado por não conseguir integrar a "normalidade", atribuindo essa injustiça aos mecanismos sociais que entende serem os mesmos que vigoraram na Idade da Pedra. Os dois entram numa relação estranha que, a meu ver, não pode ser entendida como uma relação amorosa ou sequer de amizade. Apesar de viverem juntos, a ligação que estabelecem é essencialmente uma espécie de contrato informal. Para Keiko é a oportunidade de forjar uma certa normalidade, criando nos que a rodeiam a ilusão de que tem um relacionamento amoroso. Para sua surpresa, compreende que não é relevante ter uma relação boa ou feliz. A sociedade (ou os que a representam na sua vida) dá-se por satisfeita com a existência de um homem na sua vida, qualquer que seja a qualidade deste. Ou seja, mesmo uma relação infeliz é melhor do que nenhuma relação. Para Shiraha é uma forma de se esconder e ter alguém que o alimenta, ainda que parcamente.
    Escrito de uma forma simples e directa este livro coloca várias questões. O que é a normalidade? Será que a sociedade contemporânea, apesar da sua aparente modernidade e respeito pelas opções de cada um, efectivamente dá aos seus membros a liberdade de viverem a sua vida do modo que desejam? Ou pelo contrário estamos constrangidos por modelos sociais? Pode a solidão ser de facto uma escolha ou um talento inato de um ser humano?
   Perguntas que o livro nos coloca apesar da grande distância que separa a realidade portuguesa da japonesa.  O final do livro não me surpreendeu em absoluto. Na escolha de Keiko podemos, de algum modo, encontrar uma metáfora das decisões que muitos de nós tomamos de forma mais ou menos consciente. E nisso não há mal algum: a decisão de Keiko, podendo parecer estranha para muitos de nós, é a que ela faz em liberdade. E a que a faz feliz.
    Pelo que sei o livro não está traduzido em português, mas quem sabe se não fará parte das novidades editoriais de Setembro? 
   
  

sábado, 4 de agosto de 2018




                                                            in O Meu Coração é Árabe, Adalberto Alves, pág. 143

terça-feira, 31 de julho de 2018

I'd rather be reading, Guinevere de la Mare



Uma pequena colecção de ensaios sobre os prazeres da leitura ilustrada com belíssimas fotografias e desenhos sobre a mesma ocupação. O contentamento de ler, como ler mais, como escolher os livros a ler, enfim, todos os pequenos magnos assuntos que encantam quem ama a leitura. 
O relato introdutório é de Guinevere dela Mare, escritora e editora norte-americana, fundadora do Silent Book Club. Mas este livro é ainda composto por ensaios de Maura Kelly, Ann Parchett e Gretchen Rubin. Todos sobre os prazeres de ler. Gostei, em particular, do relato introdutório (por contrariar a ideia de que todos os que gostam de ler o fazem desde tenra infância) e do contributo de Maura Kelly sobre a adaptação do movimento slow também aos livros. No entanto, há que dizer que neste livro as imagens valem tanto como as palavras. Com efeito, é primorosamente ilustrado com fotografias e desenhos alusivos à leitura e seus prazeres e é isso que o transforma numa pequena obra de arte. Encontrei o exemplar por acaso numa das lojas Bertrand e já não consegui separar-me dele ... 

terça-feira, 24 de julho de 2018

sábado, 21 de julho de 2018

Uma história do desejo feminino,Carol Dyhouse



          Lembro-me de ler os policiais de Agatha Christie e não perceber o apelo amoroso da figura clássica do médico holandês, anafado e rico, mas pouco dado a impulsos afectivos para com a personagem feminina que, no final, o arrecadava como marido. A chave para este mistério encontrei-a agora ao ler este livro da historiadora inglesa Carol Dyhouse. É um trabalho de investigação e reflexão exaustivamente documentado, que nos conduz desde o século XIX até aos nosso dias. Entre xeques árabes, médicos ricos, Mr Darcy (absolutamente incontornável), almirantes e aviadores, a autora traz-nos até aos vampiros da saga Crepúsculo e ao Sr. Grey, o tal das cinquenta sombras. Este livro oferece-nos, assim, uma leitura sobre os modelos de masculinidade que a literatura, cinema e música têm oferecido às mulheres consumidoras de produção cultural popular. Os modelos são variados, mas têm linhas comuns. Por exemplo, o homem aparentemente duro e arrogante, mas que na verdade, apenas estava à procura da mulher certa para mostrar o seu interior suave e doce. Mas também sempre o homem rico, que vai permitir à mulher eleita todo um novo estilo de vida, com o qual ela, com poucos recursos económicos e nenhuma autonomia, apenas poderia sonhar. O que é tanto mais extraordinário quando pensamos nas muitas mulheres que a partir do século XIX lutavam para verem reconhecidos os seus direitos, trabalhavam e aventuravam-se pelo mundo. E nem todas eram ricas ou contavam com um protector influente, diga-se.
 A pergunta que me coloco é se esta produção cultural correspondia realmente ao que as mulheres desejavam ou antes àquilo que lhes permitiam que desejassem. Enquanto lemos as palavras lúcidas de Dyhouse, percebemos como o "modelo de fantasia" foi sempre limitado: homens brancos, claro (mesmo os árabes - os asiáticos e os africanos estavam foram de questão para heróis românticos - ou eram, na verdade, ocidentais ou morriam antes da narrativa terminar), felicidade doméstica (casa e filhos) e pouco ou nenhum espaço para a autonomia. Claro que houve sempre quem escapasse a este modelo simples (por algum motivo Jane Austen passou à história da literatura) e quem o fizesse em estilhaços sem dó, nem piedade (como uma outra inglesa, Jackie Collins, com as suas heroínas cruas e prontas a jogar de igual para igual). Mas o panorama geral da oferta cultural popular sempre foi muito conformista. Por todas as questões que coloca este livro e desafiante. E deixa-nos a pensar sobre o seu objecto de investigação: fantasias inconsequentes para enganar o cinzento do quotidiano ou logros perigosos conducentes ao conformismo feminino, indispensável à continuidade do patriarcado? A meu ver, um livro que nos deixa a fazer perguntas é o melhor tipo de livro que existe. 
          

terça-feira, 17 de julho de 2018

O Primeiro Amor, Ivan Turguénev



       Dele dizia Tolstoi que era o melhor escritor russo de romances franceses. Ironias à parte Turguénev passou à história como um dos grandes nomes da literatura russa, ao lado de Dostoiveski, Chécov e do próprio Tolstoi. Autor integrado na escola realista este seu pequeno romance narra o drama de um jovem adolescente que, aos dezasseis anos, conhece pela primeira vez o amor. Será ainda uma homenagem ao romantismo ou fruto da dramática alma russa, mas esta é uma história tão infeliz que melhor será descrita como uma narração de desamor. Turguénev leva-nos à alma deste adolescente, primeiro animada pelo fulgor da paixão, rapidamente substituída pelo desânimo, ciúme e choque ao descobrir quem é o seu rival. A escrita é objectiva, concisa e eficaz, o que é credível porque o narrador conta o episódio onde se viu envolvido anos depois do mesmo ter ocorrido. Há ainda tristeza nas suas palavras mas sobretudo a compreensão de que o mundo dos adultos e o do amor, não são sempre justos. Obra onde a objectividade se cruza com os sentimentos de um modo admirável este é um pequeno livro que vale a pena conhecer.