domingo, 30 de junho de 2019

Divorciada aos 10 anos, Nojoud Ali e Delphine Minoui



Este livro vale sobretudo pelo testemunho, recolhido pela jornalista francesa Delphine Minoui. A história de Nojoud Ali é infelizmente comum, pois são muitas as raparigas obrigadas a casar ainda crianças com homens três ou quatro vezes mais velhos. Pior ainda, muitos destes homens decidem consumar o casamento com as suas noivas-crianças, abusando sexualmente delas, violentando-as, causando-lhes lesões físicas e psicológicas e a própria morte.

Nojoud é uma das várias filhas de um casal de camponeses. Parte da infância é passada numa aldeia do Iémen. Pobre, mas feliz. Quando a família vai viver para a cidade, Nojoud continua a ser pobre. Mas passa a ser também infeliz. Não vai à escola e passa os dias a mendigar nas ruas, uma vez que o pai não arranja trabalho. As coisas estão neste ponto quando o progenitor a decide casar com um homem com o triplo da idade dela. O casamento realiza-se e Nojoud volta à aldeia com o seu marido, sofrendo as violências dele e as da sogra. É deste estado de coisas que procura libertar-se. E fá-lo de uma forma que é extraordinária: decide ir ao tribunal e pedir para falar com um juiz, a quem diz que quer divorciar-se. O testemunho recolhido honra os juízes do Iémen que intervieram no caso (todos identificados no livro), bem como a advogada que defendeu a posição desta criança, a quem foi concedido o divórcio quando teria cerca de 10 anos (não está registada, desconhecendo a data do seu nascimento).
Nojoud queria ir à escola e um dia ser advogada. Mas não foi isso que aconteceu. Apesar da sua imensa coragem, as dificuldades do seu país e os limites da sua família, traçaram-lhe um destino bem mais limitado. Tornou a casar e tem dois filhos. Abandonou a escola apesar do apoio internacional. A sua história mostra que a coragem e as boas intenções não resolvem tudo quando está em causa a defesa dos direitos das crianças. 

   (Este artigo foi actualizado depois de publicado, na parte relativa à situação actual de Nojoud Ali).



segunda-feira, 24 de junho de 2019

João Pinto Coelho, Perguntem a Sarah Gross

Comprei este livro poucas horas antes de iniciar mais uma viagem de avião. Não sou daquelas pessoas que se entusiasma com a perspectiva de um voo e, pondo de lado os calmantes ou o recurso ao álcool, conclui que a melhor forma de enfrentar a ansiedade é com um bom livro nas mãos. Este Perguntem a Sarah Gross cumpriu totalmente esse desiderato.
A história corre em três planos distintos. Uma parte da acção decorre num colégio no Connecticut no final da década de 60. A outra centra-se sobretudo na Polónia, acompanhando a história de uma família judia. Capítulos mais curtos levam-nos ao encontro de uma personagem misteriosa que desde o primeiro momento se antevê como assustadora. No final, os três eixos unem-se e dão um sentido à narrativa, trazendo à tona a terrível realidade dos campos de concentração, como Auswitzch, o que foi a vida antes e o que restou para os que sobreviveram. É uma história de sobrevivência e não, na minha perspectiva, de superação. Mas a verdade é que ultrapassar realmente o que se passou naqueles campos de concentração deve ser impossível. A narrativa do dia-a-dia naquele local não é a única tragédia que afecta as personagens que se cruzam no colégio americana. Lutas interiores, feridas do passado e desafios de um mundo em mudança são descritos de modo vigoroso pelo autor.
Sem querer revelar demasiado para não estragar a leitura posso dizer que este é um livro de leitura compulsiva. É detalhado e minucioso na reconstituição histórica e a aura de mistério que envolve as personagens desde a primeira página nunca desilude. Faz-nos pensar num passado que não queremos que se repita neste mundo tão ameaçado pelo preconceito, o egoísmo e a injustiça. E leva-nos também a reflectir sobre os mistérios e dramas tantas vezes insuspeitos daqueles com quem nos cruzamos na vida.
Escolhido num impulso este livro foi uma boa aposta e deixou-me a vontade de ler Os loucos da Rua Mazur, do mesmo autor.

quarta-feira, 19 de junho de 2019

The cook, Maylis de Kerangal



Maylis de Kerangal é um dos novos nomes da literatura francesa. Na versão original este romance chama-se “Um chemin de tables”, qualquer coisa, como um caminho entre mesas. E, na verdade, é absolutamente exacto. Trata-se de um romance de formação de um jovem cozinheiro, Mauro. As suas escolhas, os sacrifícios e os prazeres da carreira a que se dedica são descritos com imenso realismo. Mas também a exploração, a violência e a solidão. O aspecto mais marcante do livro é precisamente a oscilação entre as descrições sensoriais das experiências gastronómicas (porque a comida há muito deixou de ser apenas o acto de comer) e a solidão e cansaço de Mauro nos poucos momentos em que não está na cozinha. Um livro pequeno em tamanho, mas grande naquilo que nos pode trazer em matéria de reflexão sobre o que se esconde para lá do aparentemente inócuo prazer de comer (podem ver aqui a minha perspectiva sobre o assunto).

terça-feira, 11 de junho de 2019

Anne das Empenas Verdes, L.M. Montgomery

Resisti muito a este livro. Tinha uma recordação maravilhosa de Ana dos Cabelo Ruivos, em versão banda desenhada dos meus tempos de menina. Havia, pois, algum receio de perder essa boa memória. Por outro lado, não só propriamente uma apreciadora de literatura infanto-juvenil. Com alguma pena, diga-se. Harry Potter passou-me ao lado, o mesmo sucedendo com a saga de Amanhecer. Mas, para além das óbvias mais valias lúdicas, ler livros juvenis tem outras vantagens para os leitores adultos. Um olhar fantasioso num mundo que disso anda precisado. A oportunidade de ler mais longe e fundo, pois é sabido que todos os textos (ou quase todos) têm diversos níveis de leitura.
Li, assim, este Ana das Empenas Verdes. E ainda bem que o decidi fazer. Porque esta heroína é ainda mais encantadora do que a recordava. Orfã de pai e mãe, esteve entregue a duas famílias que pouco a estimaram, antes de dar entrada no orfanato. É dela que vai para Avonlea, viver com os irmãos Mathew e Marília. Esta última fica algo contrariada pelo facto de Ana não ser um rapaz. Mas em breve se esquece dessa preferência para passar a ter o espírito ocupado com a tagarelice, vivacidade e imaginação de Ana. As descrições do local são belíssimas, a sua amizade com Diana e rivalidade com Gilberth criam situações divertidas. Mas é o modo como vê a vida (seja na descrição do bosque ou no sonho de um vestido com mangas de balão) que conquista quem lê. A “margem para a imaginação”, para usar a sua expressão que vai surgindo ao longo do livro. A fantasia e a capacidade de criar e recriar cenários serve aos adultos e às crianças. No final, quando fechei o livro tive pena de não poder acompanhar mais aventuras de Ana, que termina a história no limiar da vida adulta, com sonhos, limitações e a perspectiva sempre salutar de que há curvas no caminho. Sempre um motivo para ter esperança por mais escuro que seja o presente. 
E já decidi que vou tentar ler mais livros infanto-juvenis no futuro.


sábado, 18 de maio de 2019

Anne Dufourmantelle, La femme et le sacrifice- D'Antigone à la femme d'à côté



Antígona, Ifigénia, Joana d’Arc ou Julieta. Apenas alguns exemplos de mulheres que, na tradição ocidental, ofereceram as suas vidas ao sacrifício. Para salvar um país, um familiar, um amado.
A tradição cultural ocidental atribui às mulheres essa vocação para a abnegação e o sacrifício. Ao mesmo tempo faz corresponder a essa vocação o sentido de uma vida plena e digna. Sempre me interroguei sobre esta ligação das mulheres ao sacrifício, parecendo-me que tem subjacentes expectativas sociais e culturais e não tanta a real existência de tal vocação. Por isso, quando vi este livro pareceu-me um bom caminho para testar as minhas interrogações.  
Filósofa e psicanalista, Anne Dufourmantelle oferece-nos este trabalho extraordinário. É uma obra bem estruturada, onde é evidente a sólida formação académica da autora e a sua capacidade de exposição. 
      O livro pode ser lido com proveito e gosto quer por quem está familiarizado com a cultura clássica, quer por quem ainda não teve oportunidade de explorar esse campo. Isto porque, graças às suas capacidades pedagógicas, Dufourmantelle apresenta de forma clara as várias obras que utiliza para ilustrar as suas teses. Tem depois a capacidade de nos mostrar que estas figuras, como arquétipos ou pelo menos elementos culturais de referência, se projectam directa ou indirectamente nas nossas construções e respostas sociais. Mergulhamos em referências clássicas analisadas com profundidade numa aventura intelectual que qualquer leitor ou leitora não consegue recusar. Seguimos a escritora que vai dialogando connosco e que tem uma raciocínio límpido e um discurso depurado. Mostra-nos como figuras sacrificiais são privilegiadas na narrativa em detrimento de outras que escolheram o seu caminho pessoal (como Heloísa), recusando o sacrifício e conquistando a sua liberdade (pelo menos dentro das possibilidades oferecidas). E leva-nos a perceber como os mitos e construções clássicas estão presentes anos nossos dias.
 Com este livro compreendemos melhor o mundo e adquirimos instrumentos para nos entendermos também melhor.