terça-feira, 10 de setembro de 2019

Italo Calvino, Palomar




      Um dos segredos da vida é saber respirar. Nascemos com esse conhecimento, mas à medida que nos tornamos adultos, o domínio dessa arte  natural começa a ficar eivado de mistérios, ao ponto de se concluir que a maior parte das pessoas respira mal. Durante os anos em que fiz ioga ouvi sistematicamente esta explicação antes de me iniciar mais um conjunto de exercícios de pranayama. Mesmo agora quando estou no meio de uma caminhada mais exigente dou por mim a pensar face a um esforço respiratório que sinto pouco coordenado “ainda não respiras bem”. E, todavia, devia ser fácil. Basta olharmos para um bebé a dormir ou um gato tranquilamente esticado para percebermos como se respira. Em alternativa lemos Palomar de Italo Calvino.
É surpreendente que ao fim de tantos anos de blogue nunca tenho escrito sobre este livro. Mas se calhar isso resulta do facto de o Palomar ser para mim uma espécie de respiração. Está sempre lá, por isso até me esqueço da sua presença.
       Palomar é o protagonista do romance homónimo de Italo Calvino, publicado pela primeira vez em 1983. O livro é composto por um conjunto de textos em que o protagonista nos ensina a olhar o mundo. Com tranquila perplexidade, com maravilhamento, vendo a beleza nas coisas mais simples e mesmo por vezes lado a lado com as mais feias (o capítulo sobre a presença de Palomar no talho é, para mim, disso elucidativo). E procurando o que está para lá da superfície inesgotável. O protagonista está presente, é o seu olhar que guia o nosso, mas não nos tolda a visão. Da loja de queijos ao nascimento da lua, do seio desnudo de uma veraneante à arte de aprender a calar, da onda que acompanhamos até a mesma chegar à praia à dificuldade de aprender a estar morto. Em todos os lugares e contextos aprendemos a ver. O livro está nos antípodas de um manual de auto-ajuda, mas seguramente ajuda-nos. A perceber que um dia não é só mais um dia. Há um olhar, uma fala, uma respiração mais profunda que resgata cada dia e o devolve à sua natureza verdadeira: única e irrepetível. Gosto de reler uma e outra vez o capítulo sobre as ondas e o relativo à observação da lua e das estrelas. Mas a verdade é que cada um dos textos é uma jóia para contemplarmos uma e outra vez, A obra de Italo Calvino é extensa e estou muito longe de já a conhecer toda. E isso deixa-me feliz, pois adivinho horas de boas surpresas e deslumbramento, coisas de que a vida deve ser polvilhada em quantidades generosas.
         Se tenho um livro de cabeceira é este e é seguramente o livro que mais vezes ofereci. Se não o conhecem não sabem o que estão a perder.

segunda-feira, 9 de setembro de 2019

Joana Bértholo, Ecologia


 A premissa deste livro é assustadoramente simples. Todos falam sem parar, dão opiniões, formulam hipóteses, questionam, decidem, exclamam, argumentam, dizem e desdizem. As palavras não mobilizam, não transformam, caiem em saco roto. O que hoje é verdade amanhã já não serve. E mesmo que sirva o que foi dito não tem importância nenhuma. São só palavras, não é? E como diz o povo, palavras leva-as o vento. Assim sendo, num qualquer momento de um futuro não datado, surge um plano ambicioso assente na ideia de que a palavra tem de ser valorizada. E isso, num mundo onde todo o valor se mede em dinheiro, implica que falar deixe de ser grátis. Sá pagando para falar as pessoas pensarão duas vezes antes de abrirem a boca. Só tendo um custo associado a palavra deixará de ser desbaratada. E assim se dá início ao Plano de Revalorização da Palavra (PRP). A ideia é de uma cientista com genuíno amor às palavras, Dalia Walsh, que surge no topo de uma cadeia de comando formada por portadores de avultados interesses económicos. As intenções de Dalia são boas e conduzem-na a ser a figura tutelar das duas primeiras fases do plano. Uma désposta iluminada e benevolente, figura que (já se sabe) acarreta todos os perigos.
A narrativa de Joana Bértholo conduz-nos de forma imaginativa a um mundo onde gradualmente se estrangula a imaginação. O plano tem três fases e, apesar das resistências pontuais, acaba por envolver todo o mundo, todos os países, num esforço a que nenhum cidadão fica indiferente. Ninguém consegue resistir de forma eficaz. Desde logo porque, apesar das aparências, não existe na cidadania efectivo poder. Sim, as pessoas desbaratam e reclamam, designadamente por escrito nas redes sociais, variante da tradicional conversa de café. Mas daí não surge qualquer mudança social ou reivindicação política sólida. Por outro lado, os criadores do PRP criam um sistema de contagem e monitorização das palavras utilizadas (para no fim do mês enviarem a conta do valor em dívida) que serve também para pôr no lugar os rebeldes. Quem fala e ao final do mês não salda a sua dívida é sujeito a constrangimentos de ordem variada e sempre desagradável. Nenhum sector da sociedade é poupado à nova ordem social. Aliás, a descrição da vida na prisão é dos aspectos mais impressionantes e conseguidos do livro, funcionando na perfeição como microcosmo.  
Ao longo do livro, acompanhamos a vida de meia dúzia de personagens nos seus dramas privados e é através delas que a autora nos mostra as limitações cada vez maiores que o P.R.P. vai impondo a todos e o seu desenlace. A personagem Candela, que surge ainda criança e vemos chegar à idade adulta, é um exemplo de questionamento e de gradual conformação social, pelo menos aparente.
 A escrita de Joana Bértholo surge como um exercício de ficção de leitura compulsiva por vários motivos. Pela realidade distópica que constrói, pelas semelhanças com mecanismos que conhecemos (por exemplo, os cartões pré-pagos utilizados para falar a determinadas horas ou com interlocutores privilegiados, como a família ou amigos próximos) e pela multiplicidade de linguagens que nos apresenta (exploradas como forma de encontrar alternativas ao pagamento ou antes por mostrarem a existência de falhas nas diferentes fases do plano). Mas também pela diversidade de estilo narrativo, com o afastamento dos elementos formais mais comuns, introdução de figuras de estilo e outras formas de utilização alternativa da linguagem.
Até ao momento este é o meu livro favorito de entre os lidos em 2019. Merece seguramente nova leitura e deixou-me grande vontade de mergulhar mais no universo desta autora portuguesa.


   

quarta-feira, 4 de setembro de 2019

Helsínquia, Biblioteca Central




Descobri a Biblioteca Central de Helsínquia um pouco por acaso. Já tinha reparado no edifício e quando uma pequena infiltração impediu o Museu de Arte Contemporânea(Kiasma) ali perto de abrir à hora agendada, decidi ir investigar este edifício de perto. E valeu bem a pena! Posso dizer que este edifício foi o que mais gostei de conhecer na capital finlandesa. É possível entrar apenas para uma visita e foi isso mesmo que fiz. Mas confesso que foi muito difícil decidir-me a sair. 
No primeiro andar do edifício fica um enorme espaço comum, com mesas, material necessário para os mais diversos projectos pessoais (máquinas de costura, impressoras, salas de ensaio e gravação, salas com equipamentos de vídeo, espaços para trabalhos de grupo e reuniões). 
No andar de cima revela-se o segredo de que vos deixo algumas fotografias. Uma enorme sala de leitura, livros sobre quase todos os temas à espera dos leitores e leitoras, pontos de leitura, um café e espaço para os mais pequenos, incluindo bebés. E, quando se abrem as portas de vidro para a ampla varanda, uma excelente vista sobre Helsínquia, abrangendo o Parlamento e o edifício onde está instalada a ópera da cidade. A biblioteca pareceu-me ser frequentada por pessoas de todas as idades. Reina um ambiente de respeito pelo trabalho e pelas ocupações dos outros, mas também de alegria e descontracção. O espaço é não apenas um local para desenvolver trabalhos, estudar e levantar livros, mas também um espaço de encontro. 
Sem desprimor para as bibliotecas portuguesas (e há-as bem bonitas, como a do Palácio Galveias, por exemplo), este é um modelo de espaço público que gostaria de ver também no nosso país.   







domingo, 1 de setembro de 2019

Amor Towles, Um Gentleman em Moscovo

Imagem da autora 

São mais de quinhentas páginas que narram as aventuras e as desventuras do Conde Alexandre Rostov, que em 1922 é condenado a prisão domiciliária num dos mais luxuosos hotéis de Moscovo, Metropolis. Uma prisão não perde a sua natureza por ser pintada em tons dourados. Mas as próprias condições em que Rostov vive vão se degradando ao longo das décadas que o romance abrange. Ao ponto de se tornar criado do hotel em que foi antes hóspede. O que não muda é a delicadeza de alma e força de carácter do Conde e é nisso que radica o encanto da narrativa. O modo como o protagonista vai navegando as dificuldades e desafios ao longo de trinta anos é enriquecido pelas relações que mantém com velhos e novos amigos. Uma das personagens mais curiosas é Ossip, membro de destaque do novo regime que o procura a pretexto de aprender os segredos de culturas estrangeiras (inglesa, francesa e norte-americana). Mas rapidamente percebemos que os dois criam uma relação de amizade, alicerçada na paixão pelo cinema de Hollywood. A mais importante relação do conde é, contudo, estabelecida com Sofia, filha da sua amiga Nina. 
Fui lendo este livro ao longo de vários meses, intercalando com outras leituras. Por isso, não posso dizer que tenha sentido particular entusiasmo nesta leitura. Sem dúvida a acção está bem construída, o Conde Rostov é um protagonista sólido e encantador e as personagens secundárias são apelativas. Há também a descrição do wie acontece fora do microcosmos que é o hotel, narrando as dificuldades económicas dos russos durante o tempo dos sovietes, fruto de opções políticas e também de circunstâncias externas, como a II Guerra Mundial. E ainda as dificuldades sociais e políticas, decorrentes da instalação de um sistema totalitário, onde a categoria de “inimigos do povo” é sempre vaga, crescente e tratada sem contemplações. A NKVD e a Sibéria surgem mais de uma vez na acção, bem como a espionagem entre cidadãos e a arbitrariedade por parte daqueles que deviam ter a preocupação de serem justos. A desenvoltura da narrativa é bem servida pela tradução. Embora eu não tenha percebido porque motivo o termo gentleman não foi traduzido para o seu equivalente português cavalheiro
      Apesar do que vai escrito e de ter gostado imenso da ousadia do final, este livro não me encheu as medidas. Creio que isso se deve a grandes obras que tive oportunidade de ler e que tratam temas próximos de forma magistral. Por exemplo, Os filhos da Rua Arbat, de Anatoli Ribakov (e a segunda parte O Medo) e o Doutor Jivago de Boris Pasternak. Ou A vida de sonho de Suhkanov de Olga Grushin. Bem como, n um estilo mais popular mas com reconstituição histórica primorosa, a obra de Paulinna Simmons. Ou, em matéria de resistência individual, o pequeno texto de Bruce Chatwin, Utz. Todos descrevendo as agruras das vidas dos cidadãos e cidadãs que viveram sob regimes totalitários (soviético e no caso de Utz checoslovaco) de forma inesquecível. 

sexta-feira, 30 de agosto de 2019

Livrarias do Mundo: Tronsmo, em Oslo

Fachada principal da livraria 
AllenGinsberg, membro fundador da geração beatnick, disse que esta era “a melhor livraria do mundo”. Mesmo para quem não queira ser tão peremptório, a Tronsmo é um lugar imperdível. Criada em 1973 mantém-se como uma das principais livrarias independentes de Oslo. Situa-se numa artéria próxima da universidade da capital norueguesa e tem livros para todos os gostos. Uma ampla secção de livros infantis, logo numa sala do lado direito, quando passamos a entrada. Mais lá para dentro ficção, ensaios (sobretudo de ciências sociais) e uma excelente selecção de livros de arte, estando a fotografia em particular destaque. A cave é o território da banda desenhada, com títulos e volumes para todos os gostos. A Tronsmo tem quase tantos livros em inglês, como em norueguês. Incluindo uma selecção dos principais romancistas noruegueses na língua de Shakespeare, ideal para os bibliófilos estrangeiros que por ali passam. Gostei especialmente da secção de ensaios sobre filosofia política e da parte da ficção. 
Ficam aqui algumas fotos do interior da livraria que tirei durante a minha visita e um artigo sobre outras livrarias independentes de Oslo que merecem uma visita








terça-feira, 27 de agosto de 2019

Vengeance is mine, all others pay cash, Ekia Kurniavan

Foto da Autora 
Tento variar o tipo de livros que leio, não apenas quanto ao estilo, mas também quanto à proveniência geográfica de autores e tipo de temas abordados. O mundo é tão grande e com tanta gente a escrever de forma estimulante, que procuro desafiar-me indo para além das escolhas que me são mais habituais. No fundo, procuro construir um cânone pessoal, substituindo o que a escola e a mundividência alheia me forneceu. Fui lá feliz, mas é como na casa da nossa infância: um dia temos que ir ver o que mais há no mundo.
A leitura do livro de que hoje vos falo insere-se nesse objectivo. O autor é indonésio, tendo estudado filosofia e dividindo a sua carreira entre a literatura e o design gráfico. Recebeu em 2018 o prémio Prince Claus, de grande prestígio na Holanda. Ao que sei a sua obra (que inclui o aclamado romance Beauty is a Wound) não está traduzida para português.
Vi este livro pela primeira vez no verão passado numa livraria em Kuala Lumpur. Apesar de ter ficado curiosa não o comprei. Por um lado, é apresentado na capa como sendo uma tragicomédia sobre um feroz lutador que é impotente e que se apaixona por uma mulher que lhe dá uma tareia (é guarda-costas de um homem que ele pretende bater). Esta descrição não me pareceu prometedora. Por outro lado, quando folheei o livro percebi que se tratava de uma obra narrando situações de grande violência com uma crueza gráfica que me incomodou. Apesar de tudo um ano depois, quando reencontrei o livro numa outra livraria, decidi arriscar.
O primeiro ponto a ter em atenção é que este livro em momento algum é uma comédia. A acção decorre na Indonésia num meio social rural e pobre. Travamos conhecimento com dois miúdos, Ajo Kawin (protagonista) e Gecko, seu amigo de infância. É nas aventuras adolescentes dos dois que está a chave da impotência de que sofre Ajo, fruto de um episódio de violência sexual. Não é o único no livro, diga-se. Há mais um, envolvendo uma outra personagem. A escrita de Kurniawan desenvolve-se em parágrafos curtos e crus, avançando e recuando no tempo e criando narrativas paralelas que se interligam. Surgem também alguns elementos de natureza fantástica. A atenção de quem lê é essencial para não se perder o fio à meada.
Violência física e sexual, desprezo pelos mais fracos, agressividade gratuita e arbitrariedade enchem as páginas do livro que, também por isso, não é uma leitura fácil. É o retrato de um sociedade assente na brutalidade e num modelo de masculinidade belicoso, onde os conflitos são procurados pelos mais fortes, apenas porque sim, porque sabem que os fracos não se lhes podem opor e confiam em que ninguém os defenderá. É também um peculiar romance de formação, de um miúdo que procura tornar-se um homem na adversidade. Aji Kawin, apesar dos erros e da violência, é um farol na escuridão que o rodeia. Gradualmente, encontra serenidade e afasta-se da agressividade que foi um ponto fulcral da sua vida. O vislumbre de felicidade com que termina o livro não é suficiente para terminarmos a leitura apaziguados. Valeu a pena a leitura, mas vou demorar algum tempo até mergulhar de novo nas páginas ditadas pela imaginação de Kurniawan.

quarta-feira, 21 de agosto de 2019

Djamila Ribeiro, Quem tem medo do feminismo negro?


Foto da autora



           Há alguns meses abriu em Lisboa a livraria a travessa espaço irmão de uma bem sucedida livraria brasileira. Uma das vantagens dessa ousadia é que passaram a estar acessíveis ao público português títulos de autores brasileiros, cuja aquisição era antes bem mais difícil. Um exemplo é este conjunto de ensaios de Djamila Ribeiro "Quem tem medo do feminismo negro?".
               A autora nasceu em 1980 e é mestre em Filosofia Política. Os textos reunidos neste livro foram antes publicados separadamente na imprensa e num blogue. O primeiro texto é um ensio autobiográfico, cuja leitura é uma lição de vida. Os demais versam essencialmente temas do quotidiano brasileiro analisados à luz do combate aos preconceitos racistas e sexistas. Há, ainda assim, alguns textos que versam temas mais abrangentes, como o tratamento dado na comunicação social a Serena Williams e o movimento "black lives mater".
               A preparação intelectual de Djamila Ribeiro é evidente bem como a maturidade com que foca os temas e os trabalha, com recurso a elementos de História, Filosofia e Sociologia. Gostei particularmente da forma como enfrenta o propalado direito à liberdade de expressão como argumento para veicular discursos eivados de preconceito e o modo como desmonta o "achismo", esse veneno do debate intelectual hodierno. Aprendi também onde radica o mal de expressão como "mulato" (cuja origem histórica desconhecia) e de práticas como o "blackface". Num momento como o presente em que a agenda é cada vez mais global e os temas de debate são transversais a leitura deste livro surge como uma mais valia, mesmo para quem está fora da realidade brasileira.