sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

Rupi Kaur , O sol e as suas flores



"a tua voz transforma o meu coração numa cascata". 

Ocorreu-me esta frase há uns tempos e escrevinhei-a num dos meus cadernos. Interrogo-me: será arte? Serei mais uma poeta num país de poetas? 
A dúvida, que tem o sei quê de delicioso, admito, adensou-se ao ler este O sol e as suas flores. E ocorrem-me novas perguntas: o que é a poesia? Quem pode dizer-se poeta? 
Demorei muito tempo a investigar o fenómeno Rupi Kaur. Alguém que construiu a sua carreira com recurso a redes sociais cria-me algumas reservas, porventura fruto de preconceito. Folheei os seus livros em livrarias e confesso que não me causaram grande impressão. Finalmente, não resisti e comprei este O sol e as suas flores, para leitura mais detalhada. 
O livro, confesso, deixou-me indiferente. É um conjunto de textos sobre abandono, tristeza, recuperação de desilusão amorosa, promessas de auto-estima e cuidado consigo própria e um novo amor. Não sei sequer se poderão, em rigor, ser considerados poemas e não estou sozinha nessa dúvida (por exemplo, ver aqui)
O objecto dos textos são temas com que todos nos identificamos sem necessidade de esforço. Perpassam a mente dos adolescentes e das adolescentes dos nossos dias, pelo menos nas sociedades ocidentais. A forma de expressão da autora calha bem às pessoas da faixa etária dela, que se sentem naturalmente próximas da sua forma de escrita. Leitores de outras idades terão uma posição menos encantada, sobretudo se estiverem habituados a ler poesia. Não está em causa a simplicidade das palavras usadas, pois com bem sabemos há belíssimos poemas que não recorrem a figuras de estilo complexas ou a palavras caras. Basta pensar em poetas populares como António Aleixo ou nos versos que Amália nos deixou. 
     O que me surpreendeu foi a banalidade dos textos que, por vezes, é mesmo confrangedora (por exemplo, "tens tanto/mas queres sempre mais/para de ansiar pelas coisas que não tens/e olha para aquilo que tens/ - onde vive a satisfação" ou "será bem vindo/um companheiro/que seja meu igual"). A autora não fez qualquer esforço na redacção (pelo menos, aparentemente) e não o pede também a quem a lê. Parte dos textos parece saído de um manual de auto-ajuda (como quando escreve "há alguma coisa mais forte/que o coração humano/estilhaça-se vezes sem conta/e continua vivo"ou"não acordas um belo dia e estás transformada em borboleta - o crescimento é um processo"). Os desenhos que ilustram o livro condizem com essa origem. Há alguns poemas dedicados a sua mãe e àquilo de que esta teve de abdicar na sequência do casamento e nascimento dos filhos. Mas tudo muito superficial, quer na forma, quer no conteúdo. No essencial, os textos parecem-me desabafos e manifestações de desejos pessoais análogos aos que tantas outras pessoas têm para si próprias e que reduzem a escrito em diários ou cadernos de apontamentos reservados aos seus olhos. Como a frase da minha lavra com que iniciei este texto. 

Rupi Kaur é hoje a mais famosa das instapoetas, uma categoria de autores que se celebrizou por veicular as suas obras a partir de redes sociais. Perante sucessivas recusas de publicação optou por publicar os seus poemas pagando a edição. Esta opção nada tem de errado. A arte é subjectiva e os critérios de publicação obedecem muitas vezes a objectivos comerciais e não tanto à qualidade do que é apresentado. O seu trabalho e nome tornaram-se conhecidos com rapidez e Kaur já vendeu milhões de livros (deixando as editoras que a recusaram certamente pesarosas). A sua escrita é criticada, bem como a auto-suficiência a que se arroga perante os demais criadores. Mas isso não tem beliscado a sua fama que assenta também numa colagem ao movimento feminista internacional (é uma das autoras lidas no clube de leitura fundado pela actriz Emma Watson). Mas mesmo o seu feminismo parece-me algo artificial. No livro O sol e as suas flores, a autora começa abandonada pelo seu amado, com todos os sentimentos de rejeição inerentes a uma situação dessas e vai evoluindo, abrindo-se à vida e descobrindo o amor próprio. Mas tudo isto desemboca num novo amor. Não que apaixonar-se outra vez esteja errado. O que me parece é que para o final feliz seria suficiente a descoberta de si própria e do seu valor. Com ou sem namorado novo. A mensagem para as jovens leitoras não é "recupera do desgosto e ama-te". É antes "recupera do desgosto, pois vais encontrar alguém que te amará de novo". Isso é maravilhoso, claro. Mas fica um tudo nada atrás do discurso empoderador. 
O que resta perguntar é durante quanto tempo continuará Kaur a produzir best-sellers . Uma coisa tenho por segura: nada de mal pode advir da leitura dos seus livros. Mais amor-próprio e sentido do valor de cada um (a) de nós, só pode fazer bem. Com ou sem namorado/a. E todos e todas beneficiamos do encorajamento à criatividade. Para além de ler, escrever, pintar, imaginar melodias. Enfim, não apenas consumir cultura, mas criá-la, expressarmo-nos como escolhermos, recorrendo mesmo às potencialidades técnicas dos nossos dias. Nesse aspecto, creio que o exemplo de Rupi Kaur só pode ser positivo. Há é poetas melhores, mas isso é todo um outro departamento. 



quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

Erosão, Gisela Casimiro





Uma das minhas citações favoritas é atribuída ao escritor russo Anton Tchekhov: “Qualquer idiota sobrevive a uma crise é o dia-a-dia que nos esgota.” Está aqui uma grande verdade. São as pequenas coisas, o rame-rame, o day in-day out de que falam os ingleses que nos trazem o cansaço e a erosão. Connosco próprios e com os que nos rodeiam. Para fazer face a este estado de coisas e não sermos cadáveres adiados deambulando pelos dias resta-nos encontrar as nossas poções secretas, os nossos encantamentos que nos devolvem a alegria roubadas nos momentos mais difíceis. Que mais não seja pela repetição. Cada um terá a sua terapia. Uma das minhas favoritas é a música. Depois de ouvir uma das minhas canções favoritas de sempre pelo incomparável Prince sinto-me renovada. Outra forma de me reconciliar com os dias é descobrir novos poetas. E assim cheguei a este livro de Gisela Casimiro. Poetisa portuguesa, nascida na Guiné-Bissau, escreve sobre os seus desgastes a as suas receitas para combater os seus efeitos. Este é o seu primeiro livro e nele encontramos as dificuldades do embate com o mundo exterior, com o corpo que todos os dias envelhece, com os afectos que se perdem. E os antídotos. Que vão desde o doce de tomate da mãe a chegar ao fim do dia na praia, passando por aceitar o que só pode ser aceite, para podermos continuar. Resistência e não resignação. Desdramatizar. Às vezes caímos e temos de ser nós a levantar-nos. Outras vezes há uma voz que nos ajuda a reerguer. 
São poemas simples, por vezes com um travo amargo, às vezes com doçura, aqui e ali com ironia (era tão bom conseguir transformar um desgosto amoroso em canções que valem milhões). Mas nunca com desesperança. Afinal, a história ainda agora está no início.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

Ainda sobre a Índia ...






Se as viagens são um tema apaixonante os périplos pela Índia são um daqueles assuntos que nunca se esgota. Para os ocidentais aquele país foi sempre uma terra de mistérios envolta em fantasia e nem o turismo de massas conseguiu destruir esse encantamento.
Estes dois livros falam, porém, do lado negro dessa viagem.
O primeiro (Loucos pela Índia) foi escrito pelo psiquiatra francês Régis Airault. Durante vários anos exerceu funções no consulado daquele país com a missão de auxiliar no tratamento e repatriamentos dos seus concidadãos que sofressem distúrbios psíquicos graves durante a viagem a terras indianas. O autor distingue entre viagem patológica e viagem patogénica. Na primeira categoria inserem-se as viagens determinadas por distúrbios mentais. A segunda diz respeito às situações em que o contacto com a realidade indiana (clima, experiências de vida e modos sócio-culturais) é de tal forma intensa que conduz a um desequilíbrio mental do viajante. O facto de ter sido necessário ter um psiquiatra de serviço no consulado é já prova evidente do número e gravidade de casos registados. O autor narra vários dos que lhe chegaram às mãos e ensaia algumas explicações para estes resultados infelizes e por vezes dramáticos de viagens iniciáticas.
O segundo livro que surge na foto é como que uma contra face de Loucos pela Índia. Gihta Meta é uma escritora e jornalista indiana. Em Karma Cola (ao que sei sem tradução em português) escreve sobre a quantidade de ocidentais que a partir da década de 60 chegou à Índia, muitos deles decididos a viver uma experiência espiritual encontrando um guru.
       Neste livro, também ele recheado de relatos pessoais, a autora reflecte sobre o mito da Índia espiritual e algumas das mentiras e fraudes de que os estrangeiros são vítimas por conta da sua ânsia em penetrar numa realidade que lhes é totalmente estranha.
O melhor livro que li sobre a Índia escrito por um ocidental foi o de Octavio Paz de que já escrevi aqui no blogue (Vislumbres da Índia). Nele damos conta da imensa complexidade de um mundo que para quase todos nós permanecerá incompreensível. Os livros de que hoje escrevo ajudam-nos a cimentar esta posição. A viagem a um país tão estranho mas tão presente no nosso imaginário encerra vários perigos e nem todos são de natureza material (como o medo de ser vítima de crimes). Ir, sim, mas também saber de antemão que seremos expostos a dificuldades e que devemos sempre guardar humildade em relação a um mundo que se situa nos antípodas do nosso. E ter presente a frase que Boswell atribui ao escritor inglês  Samuel Johnson: He who would bring home the wealth of the Indies must carry the wealth of the Indies with him, so it is with travelling, –a man must carry knowledge with him if he would bring home knowledge. Ou seja, a viagem espiritual é interior e interior apenas. Não vale a pena ir ao outro lado do mundo para procurar o que só pode estar dentro de nós. 




quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

A pantera, Rainer Maria Rilke

Imagem obtida aqui



   
Para mim, a melhor coisa do mundo é a liberdade (e tarte de chocolate). Por isso, este poema de Rilke sempre me angustiou. Conheci-o através de um dos meus filmes favoritos, Uma outra mulher. A acção centra-se nas escolhas de vida de uma professora de filosofia que sempre se guiou pelo pragmatismo e pela razão. Não é uma comédia mas tem um final esperançoso, o que já não é nada mau. Numa das cenas centrais ela relê um dos seus poemas mais amados, A pantera de Rilke, colocando-se no lugar do felino para concluir “you must change your life”.
 Haverá pior coisa do que não ser livre? Encerrado atrás de grades, reais ou metafóricas, olhando para o espaço que devia ser o nosso, do outro lado da jaula. Detesto jardins zoológicos por causa disso mesmo. Ontem vi as fotografias da muita rara pantera negra. Em liberdade. O seu olhar não esmoreceu, o seu vulto continua andante e flexível e as imagens que a sua pupila capta não lhe morrem no coração. Reconciliei-me com o poema. Há panteras livres, como todas deviam ser. Como todos deveríamos ser. 

De tanto olhar as grades o seu olhar
esmoreceu e nada mais aferra.
Como se houvesse só grades na terra:
grades, apenas grades para olhar.

A onda andante e flexível do seu vulto
em círculos concêntricos decresce,
dança de força em torno de um ponto oculto
no qual um grande impulso arrefece.

De vez em quando o fecho da pupila
abre-se em silêncio. Uma imagem, então,
na tensa paz dos músculos instila-se
para morrer no coração.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

Gisela Casimiro, O poema é um campo de batalha.




O dia em que se descobre um novo poeta fica sempre marcado com a etiqueta de um bom dia.  
O livro chama-se erosão. 


sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

Flâneuse, Lauren Elkin




O fascínio que os norte-americanos têm por Paris é quase um lugar-comum. Talvez isso venha da ligação estreita que criaram com França aquando da sua independência da Inglaterra (foram os franceses quem lhes ofereceu a Estátua da Liberdade, imagem icónica de Nova Iorque). Ou seja fruto da deslocação de intelectuais norte-americanos, como Gertrude Stein, Hemingway e Fitzgerald para aquela cidade. Ou da recorrência da cidade no cinema e televisão. Por exemplo, Sabrina, a protagonista do filme com o mesmo nome de Billy Wilder vai para Paris e torna-se uma mulher sofisticada. Gene Kelly é o protagonista de um dos mais famosos filmes musicais de Hollywood, Um americano em Paris. E Carrie Bradshaw, uma das personagens de O sexo e a cidade, vive dias de desencanto amoroso na capital francesa e é lá que reencontra Mr Big, o seu verdadeiro príncipe encantado.
Lauren Elkin, a autora de Flanêuse, não é excepção ao feitiço parisiense. A autora cresceu nos subúrbios de Nova Iorque e narra a vontade que tinha de viver na capital francesa. Um sonho realizado desde 1999. Primeiro na margem esquerda e agora na margem direita, Elkin é ensaísta, académica e escritora, residente em Paris. Colabora com publicações de renome mundial e tem diversos livros publicados. Este Flâneuse é, em primeiro lugar, uma carta de amor a Paris. Aos seus intelectuais e activistas. Aos seus bairros e lojas. À sua história e ao seu presente.
O livro leva-nos às ruas de Paris, sobretudo. Mas também às de outras cidades como Londres, Nova Iorque, Veneza e Tóquio. A premissa em que assenta é simples: as ruas, como o espaço público em geral, pertenceram sempre aos homens, mesmo nas sociedades ocidentais. Eles saiam para o trabalho, para o café e também simplesmente para passearem na cidade, para a viverem. Ainda é assim, como bem sabemos, em demasiadas latitudes deste mundo. Verificando que o termo flâneur apenas existe na versão masculina do vocábulo a autora inventa o correspondente feminino flâneuse. Os e as que caminham, erram, deambulam, vadiam pela cidade. E é sobre as flâneuses que Lauren Elkin constrói o seu mundo: Virginia Woolf (Londres), Sophia Calle (Veneza), Joan Didion (Nova Iorque), George Sand e Agnès Varda (Paris). O livro é uma confluência de histórias, das ruas das cidades, dos acontecimentos que ali tiveram e têm lugar (com páginas sobre a história das revoltas urbanas francesas muito bem conseguidas) e das mulheres que se notabilizaram pela sua relação com cada centro urbano. Nessa medida, é um livro de excelente leitura, tanto mais que é servido por uma escrita desenvolta e atenta aos detalhes. Esta obra é também uma memória das próprias vivências da escritora no que à vida urbana diz respeito. Recorda a sua infância e juventude num subúrbio de Nova Iorque onde toda a gente se deslocava para todo o lado só e apenas de carro (sobre isto, o pequeno ensaio de George Steiner com o título A ideia de Europa vale por muitas leituras sobre sociologia e arquitectura dos espaços urbanos) e também da sua descoberta de Paris. São igualmente interessantes e bem actuais as suas considerações sobre os protestos levados para as ruas. Lauren Elkin consegue fundir de modo muito feliz momentos do Maio de 68 em Paris com protestos em que ela própria se viu integrada, quer na capital francesa, quer em Nova Iorque (movimento Occupy Wall Street), em páginas de escrita viva e honesta. Já é mais difícil de perceber a relevância do capítulo que dedica à sua estadia em Tóquio, para onde foi tão só para acompanhar um namorado. Grande parte das páginas desse capítulo é dedicada ao esforço que fez para se adaptar à cidade e ao modo de vida do namorado bancário, para si artificial e pouco interessante. O que me parece é que o capítulo em causa surge desgarrado face à totalidade da obra. E que a escritora passou ao lado de um cidade que é das mais interessantes e completas do mundo, designadamente em termos culturais.
Apesar daquele reparo, na sua globalidade, esta é uma obra que vale a pena ler, quer pela originalidade do tema, quer pelo manancial de informação sobre cada um das cidades escolhidas. E porque põe bem em relevo a importância da vivência do espaço público na construção da liberdade.




segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

Eça na Gulbenkian



       Quantos Eças há no nosso Eça? É difícil responder a essa pergunta. Há o crítico social, o gourmet, o viajante por motivos profissionais e lúdicos, o jornalista, o cronista, o romancista. Há o homem da ironia e o homem da sensualidade. O fantasioso que sonhou um mandarim na China ou uma história de deboche entre um português em peregrinação pela Palestina em representação da titi e uma Mary que nada tinha de sagrado. O que identificava os males da Pátria e o sonhava o homem novo em A cidade e as serras ou no conto A catástrofe. Lemos Eça e passeamos pelo mundo, descobrimos sons, sabores, cores e geografias. E personagens com alma travestida das emoções mais nobres e mais vis. Desde os grandes amores condenados, passando pelo sonho de reformar a Pátria sem energia para lá chegar até darmos de caras com os aproveitadores e más línguas das cornetas do Diabo, todos têm o seu lugar no mundo delineado por Eça. Há quem diga que exagerou as cores da crítica e que Portugal nunca foi tão mau como ele o descreveu. Mas não deixa de ser curiosa a persistência da sua presença na vida nacional tantos anos passados. E como certas frases suas caem como uma luva na actualidade. Já para não falar dos prazeres culinários que perpassam as suas páginas, a riqueza das descrições de cenários e de experiências sensuais que para muitos são ainda tabu. Nunca Eça sonhou, se calhar, vir a ter tal influência. 
     Todo o seu universo, inspirado e inspirador para outros artistas, surge aos nossos olhos na exposição Tudo o que tenho no saco na Fundação Calouste Gulbenkian. Quem já conhece Eça de Queirós vai rejubilar. Quem ainda não o conhece sai da exposição com vontade de ir ao seu encontro.