quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Ética no Mundo Real, Peter Singer



Peter Singer é uma voz incontornável nos nossos dias. Nascido na Austrália a 6 de Julho de 1946 é um filósofo moral com vasta obra publicada em campos tão diversos como os direitos dos animais, a bioética e o altruísmo. Tem também uma grande capacidade de comunicar. Com ele a filosofia deixa de ser uma matéria quase esotérica reservada a uns quantos iniciados para voltar a ser a arte de pensar sobre os problemas do dia-a-dia. Essa capacidade de comunicar está na base dos oitenta e dois ensaios que começaram por ser publicados na imprensa e estão agora reunidos em livro. Neles, Singer aborda questões realmente importantes nos nossos dias, sobre as quais nem sempre é fácil pensar e assentar ideias. Estes ensaios, curtos e directos, são, por isso mesmo, uma leitura indispensável. Podemos concordar ou discordar do seu conteúdo. O essencial é ler os argumentos e pensarmos em questões que sendo da vida comum vão para além da espuma dos dias.

domingo, 19 de novembro de 2017

O meu caminho para Kathmandu, Pedro Queirós



Há livros que nos tocam por nos recordarem que o ser humano é capaz de actos de generosidade e altruísmo. Este é um deles. Pedro Queirós, o autor, estava de férias no Nepal, quando o país foi sacudido por um violento terramoto. Incapaz de permanecer indiferente ao sofrimento dos nepaleses, Pedro Queirós desenvolveu um conjunto de iniciativas para os ajudar. Entre elas, uma caminhada de 1200 km com partida da Índia e chegada ao Nepal. Este é o relato dessa caminhada. Por entre estradas esquecidas, ao encontro de alguns perigos (como matilhas de cães), com o sofrimento físico decorrente de muitas horas a caminhar. Mas também com encontros felizes, estranhos que o ajudam e a alegria de cumprir um objectivo.
Suponho que ao longo de tantos dias a caminhar, para mais sozinho, muitos pensamentos e estados de espírito assolaram Pedro Queirós. Mas não é isso que ele partilha connosco. Este livro parece ser um primeiro diário de viagem, que quase pode ser utilizado como guia para quem quiser fazer uma viagem semelhante. Tem informações práticas, pequenas histórias e é ilustrado com belíssimas fotografias das gentes e lugares que foram cruzando o olhar do viajante durante o seu périplo. lê-se rapidamente mas deixa em nós a vontade de reler e folhear uma e outra vez. 
Um relato que vale a pena conhecer e uma causa mais que merecedora de apoio. 

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Madame de Stael, Francine de Plessix Gray


É um livro pequeno, cheio de informação e escrito de um modo que torna a sua leitura compulsiva. Diria que um dos aspectos mais impressionantes no modo como está redigido é a capacidade de condensar tanta informação e de a transmitir de uma forma leve e ágil. Quase que acreditamos que Madame de Stael vai entrar pela nossa casa, saída das páginas deste livro, tal a vivacidade com que a sua história nos é narrada. Não sei se Madame de Stael foi a primeira mulher moderna, como é escrito no subtítulo deste livro. Mas seguramente teve uma vida cheia em que procurou realizar-se nas diversas vertentes da existência humana. 
Nascida e criada num meio privilegiado do ponto de vista económico, social e cultural, os progenitores e, em particular, o pai, foram figuras marcantes no seu desenvolvimento. Germaine (nome de baptismo) casou cedo com um diploma sueco, a quem ficou a dever o apelido. Mas o casamento esteve longe de constituir um empecilho. Conversadora brilhante (numa época em que a arte da conversação era das mais admiradas), criou um salon de renome, antes e depois da Revolução Francesa. Mas foi muito mais do que uma anfitriã bem falante. Madame de Stael viajou, leu, pensou, escreveu romances e ensaios de história e filosofia política e relatos de viagens. Abordou os mais variados temas, por exemplo, o papel das mulheres (acusando os mentores da Revolução Francesa de terem traído os ideias do movimento, relegando aquelas para um segundo plano ou escrevendo sobre a dificuldade de uma mulher culta e livre encontrar parceiro à altura), mas também o papel das paixões ou emoções na vida dos indivíduos e das nações (tema que ganha hoje renovada actualidade). Foi, além disso, activista política. No período do Terror empreendeu várias operações destinadas a salvar concidadãos seus a quem, não fora a sua intervenção corajosa, a guilhotina esperava como destino certo. As suas tomadas de posição no plano político, mereceram-lhe o ódio de Napoleão que a condenou ao exílio, procurando ainda cortar-lhe os contactos com amigos e familiares. Sobre esse período escreveu as memórisa Dix ans d’éxile, tendo viajado por toda a Europa. 
Entre os seus amigos e amantes, contavam-se nomes como Benjamin Constant ou Talleyrand. Mas, o que este livro mostra, é que tendo a coragem de viver as suas paixões, Madame de Stael não se deixou limitar ou definir por elas. Fez e foi muito mais. Depois deste relato tão minucioso e apaixonante da sua vida e trajectória, fiquei com grande vontade de ler os seus livros. Ora, um livro que nos dá vontade de ler novos livros – como é o caso deste trabalho de Plessix Gray – só pode ser altamente recomendável, claro. 

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Eça de Queirós, Cozinha Arqueológica



          Quinhentos e sessenta jantares, duzentos e trinta e dois almoços e cento e setenta e seis ceias. São estas as cifra da contabilidade queirosiana em matéria gastronómica, conforme escreve Loy Rolim, no prefácio do livro que vos trago hoje. Tais números dizem muito e já deixam antever que pela Eça de Queirós a comida estava longe de ser um assunto secundário. Isso mesmo é visível quando lemos as descrições detalhadas, capazes de fazer crescer água na boca, de tantas refeições nas suas obras. Como esquecer a monumental ceia que Artur Corvelo pagou à "nata" da intelectualidade portuguesa em A Capital? Ou as ceias que Luísa partilhava com o seu Jorge depois de ter aprendido com o primo Basílio as alegrias do amor sensual? Ou a refeição que Vítor, Genoveva e Dâmaso Salcede partilharam com outros convivas antes deste último ser "despedido" da Rua das Flores? Ou a redescoberta dos prazeres da gastronomia (e da alegria de viver) por Jacinto em A Cidade e as Serras? São apenas alguns exemplos do génio e do gosto de Eça de Queirós que me vieram à memória quando vi este pequeno opúsculo à venda. No artigo Cozinha Arqueológica (integrado nas Notas Contemporâneas) Eça louva a antiga cozinha grego e latina, recordando os seus grandes mestres entretanto esquecidos e os pratos favoritos de alguns imperadores. É um texto pequeno, mas cheio de informação. No final, até deixa umas receitas culinárias, extraídas de um livro de cozinha Apício, lendário cozinheiro romano. Para os mais corajosos ou, simplesmente, mais curiosos da matéria! 
       

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Chimamanda Ngosi Adichie, Americanah


    Numa palestra que deu, Chimamanda Ngozi Adichie pôs em relevo os perigos de lermos apenas um certo tipo de livros, provenientes de um mesmo espaço cultural. Nascida e criada na Nigéria, a escritora salientou o modo como a leitura de livros provenientes da Europa e dos Estados Unidos moldou a sua imaginação de criança, levando-a a concluir que as pessoas que neles eram retratadas (europeias, louras e de olhos azuis) podiam ser protagonistas de histórias. Esta perspectiva mudou quando começou a ler livros de outros continentes, designadamente daquele em que nasceu, África.
Atermo-nos a uma só narrativa pode, de facto, criar em nós a convicção de que só quem é protagonista dela pode efectivamente ter uma história para contar. Não é esse também um dos riscos de ler apenas narrativas escritas por homens brancos? Como Naomi Wolff escreveu em O mito da beleza, em tais obras são os homens os habituais protagonistas. E, se tal papel é atribuído a uma mulher, é porque ela tem uma característica que a distingue das demais. Essa característica, por regra, prende-se com o seu aspecto físico, sendo vista como muito mais atraente do que as mulheres comuns (sobre as quais não se escrevem livros, pois nada há a contar). Mas, a visão masculina, deixa também a sua marca indelével na moral da história. Por exemplo, se Anna Karenina fosse escrita por uma mulher, o romance terminaria nos termos descritos por Tólstoi? Tenho dúvidas, sobretudo porque creio que o escritor russo utilizou o destino dado às suas personagens femininas como conto cautelar, submetido às suas crenças religiosas e morais.
Mas também para quem não se encontra na minoria e por isso mais facilmente se revê na produção cultural que merece destaque mais imediato, essa opção pode revelars-se emprobrecedora. Porque deixa de fora muitos e muitos mundos, que devemos procurar conhecer. 
Americanah, é bem a demonstração de que é salutar procurarmos leituras de diferentes espaços e tempos culturais, pela diversidade de perspectivas que ganhamos e elasticidade daí decorrente. Só temos a ganhar, creio. O livro conta a história de Ifemelu, uma jovem nigeriana da classe média que vai viver para os Estados Unidos da América, para aí prosseguir os seus estudos. Seguimos o seu percurso dentro e fora da universidade, as dificuldades sentidas e as alegrias do sucesso. 
A primeira surpresa deste livro é o retrato da Nigéria que nos oferece. Estamos habituados a pensar em África como um local de sofrimento e miséria. Mas as palavras de Chimamanda Ngozi Adichie mostram-nos o que há para além disso. Esta é uma Nigéria com problemas sociais e políciticos, sim. Mas também com livros, cinemas, universidades, jovens com ambições e aspirações românticas, ricos, pobres, sonhadores, corrompidos e corruptores, festas à beira da piscina e revistas femininas. Só isso, já é mudança das habituais descrições, algo monocromáticas. 
Outro aspecto essencial do livro é o modo como a protagonista reflecte sobre as questões da raça, um problema que lhe surge pela primeira vez, quando vai viver para os Estados Unidos da América, para prosseguir os estudos. O que é ser negro? Há uma diferença entre ser negro nascido nos EUA e ser proveniente de África? Como é que se sente o racismo no dia-a-dia, não aquele gritante, mas o mais subtil? E as relações inter-raciais? Podem passar à margem da questão da raça, designadamente quando confrontadas com o mundo exterior? Confesso que leio pouca literatura africana, pelo que para mim, foi uma experiência especialmente enriquecedora, acompanhar as vivências de Ifemelu durante os anos em que reside nos Estados Unidos. Vivências em que ela se descobre como negra e também como mulher, introduzindo aqui também essa perspectiva. E não apenas nas grandes questões. O que é curioso e diferente do muito que lemos é conhecer o interior de Ifemelu, as suas emoções como rapariga também perante as experiências amorosas e sexuais. Ifemelu é uma protagonista de corpo inteiro. 
Para além de um retrato sociológico e psicológico excepcional, escrito de forma que torna a leitura da obra compulsiva, este livro encerra ainda uma história de amor entre Ifemelu e Obinze. Apaixonados desde a adolescência são separados no início da idade adulta, sendo evidente logo nas primeiras páginas que, não tendo ficado cristalizados, não se esqueceram um dos outro. 

Com este livro, a autora nigeriana ganhou um lugar de destaque na literatura internacional. A meu ver, de forma inteiramente justificada. Não só pelos temas abordados, mas pela consistência narrativa, pela capacidade de nos colocar dentro da história, acompanhando e percebendo as emoções das personagens, pela capacidade de mostrar as diferentes perspectivas de uma diferente realidade. Para mim, é de leitura obrigatória e seguramente que lerei outros livros desta escritora. 

PS: O quadro é do pintor português Pedro Buisel. 

domingo, 29 de outubro de 2017

James Rhodes, Instrumental - Memória de música, medicina e loucura



“Sê gentil com aqueles que encontras, pois todos estamos a travar uma grande batalha”. Esta frase atribuída a Fílon de Alexandria veio-me à memória enquanto lia o livro de James Rhodes, Instrumental. Rhodes é hoje um pianista de sucesso, com obra publicada e a capacidade de encher salas de espectáculos por todo o mundo. Nesta obra, James Rhodes fala das suas obras favoritas na música clássica, tendo mesmo disponibilizado uma página onde podemos ouvi-las de graça. A música, como o próprio diz, foi e é a sua salvação. Aquilo que lhe dá maior prazer e satisfação e que o consegue fazer esquecer as dificuldades que povoaram e ainda povoam a sua vida.
Este não é apenas um livro de memórias musical. Como o próprio título indicia a vida de James Rhodes tem muito mais que se lhe diga. A partir dos cinco anos, Rhodes foi vítima de abusos sexuais, uma situação que se prolongou por vários anos. Mesmo depois da situação ter conhecido um fim, a memória dos abusos persistiu quer nas sequelas físicas, quer nas mentais. Rhodes fala de forma aberta sobre os abusos que sofreu, explicando o modo como ainda hoje, passados tantos anos, aqueles acontecimentos continuam a marcá-lo. Fala também sobre os seus consumos de estupefacientes e sobre os problemas de saúde mental que o afectaram e afectam. Fá-lo de forma directa, às vezes algo jocosa (defesa derradeira de alguém que sofreu tanto, creio), com um estilo directo que não esconde o sofrimento pelo qual passou. Um alerta para o modo como todos nós, enquanto sociedade, percepcionamos as vítimas de crimes desta natureza. Mas este livro não é apenas feito de trevas. Na vida de James Rhodes há também coisas boas que ele partilha com os seus leitores e ouvintes. A música, claro. Como disse, dá-nos a conhecer as suas partituras favoritas (e a história, por vezes, dramática, de compositores como Bach, Chopin e Schumann), falando também sobre a carreira que abraçou e claramente lhe traz felicidade. Mas também o filho, a esposa e os amigos que foi encontrando. Rhodes iniciou tardiamente a sua carreira como pianista. Aposta na divulgação e no contacto directo com o público. E enaltece a capacidade de cada um de nós dar largas à criatividade que trazemos guardada e que tantas vezes, por medo do julgamento alheio (e das nossas próprias palavras) deixamos de explorar.
Em suma, recomendo a leitura deste livro. E, claro, a audição das obras propostas por James Rhodes e … do próprio James Rhodes.  

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Helena Barbas, Madalena - História e Mito



Maria Madalena é desde há séculos uma figura que concita curiosidade e dúvidas. Desde saber se existiu efectivamente até dilucidar qual o seu papel na vida de Jesus Cristo, são muitos os estudos levados a cabo. Na imaginação popular sempre esteve presente, surgindo em contos, romances, peças de teatro, quadros, esculturas e filmes.
Dan Brown, com o Código Da Vinci, recuperou algumas teses que dão a Maria Madalena um papel bem distinto do que lhe foi reservado pela iconografia tradicional, que a identificou como uma prostituta que se converteu e regenerou, seguindo Jesus Cristo. Brown, atribui-lhe um papel distinto, como esposa de Cristo. E a verdade é que não está só. Antes e depois dele, são muitos os que sustentam que Maria Madalena era um mulher rica (identificando-a alguns como sendo perfumista) que seguiu Jesus Cristo (com ou sem projecto amoroso à vista) e há também quem defenda que era uma sacerdotisa de um culto antigo (pagão).
Helena Barbas, professora do Departamento de Estudos Portugueses da Universidade Nova, dá com este livro o seu contributo para o estudo da questão, no seguimento de trabalho académico já desenvolvido.
O livro está bem escrito (mesmo um leigo, como é o meu caso, consegue acompanhar a exposição com facilidade) e surge fortemente documentado (o que demonstra o rigor da investigação), iniciando-se com a análise dos textos sagrados e avançando pela história da Europa ao longo dos séculos, até chegar ao século XX. Tem também informação sobre o modo como Maria Madalena foi entendida e representada no nosso país ao longo dos séculos.
Este estudo não inflama as imaginações românticas, diga-se. Mas é uma leitura interessante, com raízes na história, várias formas de arte e psicanálise (será a figura de Maria Madalena um arquétipo junguiano?) que constitui uma leitura indispensável para quem se interessa pela matéria. Tem também uma vasta bibliografia, ponto de partida para eventuais ulteriores investigações que os leitores e leitoras queiram fazer.