quinta-feira, 21 de junho de 2018

Matsuo Bashô, O caminho estreito para o longínquo norte



         Publicado pela Fenda esta é o relato de uma viagem feita pelo seu Japão natal por Matsuo Bashô, poeta do período Edo (século XVII). Uma escrita límpida e a atenção ao detalhe fazem da leitura deste pequeno texto um encanto. As notas (que foram adoptadas da tradução castelhana feita por Octavio Paz) contextualizam as referências. Quando seguimos Bashô sentimo-nos transportados para longe, ao lado dele, parando em cada pousada, seguindo as subtis mudanças de paisagens, habitadas por natureza e espíritos, numa fusão entre passado e presente que só os grandes autores nos podem oferecer. Conheço pouco da literatura japonesa mas depois de ler este texto fiquei com vontade de prosseguir o encontro e até de regressar ao Japão, onde estive há alguns anos. 

segunda-feira, 18 de junho de 2018

Os enigmas do amor, Virgílio Saúl Serra de Carvalho



Há quem diga que o amor não existe, que é uma ilusão, um erro ou um artifício da biologia. Mas isso é-nos desmentido pela experiência da vida. Todos sentimos já a alma inundada de ternura ou o espírito e corpo em ebulição por encontros que a vida nos traz. O amor existe, sem dúvida. E melhor do que defini-lo e procurar dissecá-lo em abstracto é encontrá-lo no nosso quotidiano. É essa oportunidade que estes poemas de Virgílio Saúl Serra de Carvalho nos oferecem. Leio-os e descubro em cada um deles um instantâneo fotográfico, testemunho do amor que alguém encontrou ou pensava ter encontrado. Ou quis acreditar que tinha encontrado, como na vida, às vezes, também ansiamos por nos deixar enganar.
É no amor que se encontram tantas vezes emoções que nos assustam, como o ciúme, o despeito ou o medo de o ver substituído pela indiferença. São esses retratos que encontramos pintados nos versos de poemas como A amante intriguista, A covardia do amor ou O dia em que o amor disse adeus. Mas é também é do amor que emergem as emoções que nos fazem viver, o carinho, o desejo e a saudade. São elas que visitam poemas como O amor incondicional, Pai, porque te foste embora ou Amor de mãe.
Os Enigmas do Amor recordam-nos a complexidade da alma humana, os encontros e desencontros da vida, bem como os sentimentos que vão e vêm. E também aqueles que se revelam, afinal, perenes, indiferentes à passagem do tempo ou às mudanças de paisagem. Por isso, ao lado do amor romântico vivido ou sonhado, estes poemas conduzem-nos a outros amores, não só por pessoas (progenitores, filhos), mas também por ideais, por um país, por uma religião. São tantos e tão diferentes os amores que dão sentido a uma vida ... 
Em dado passo deste livro Virgílio Saúl Serra de Carvalho escreve “Amar é uma palavra fácil/ Mas difícil de viver”. É dessas dificuldades, mas também das bem-aventuranças que as acompanham, que este livro nos fala, numa linguagem simples e clara, onde todos nos podemos rever.

terça-feira, 5 de junho de 2018

O Buda e o Budismo no Ocidente e na Cultura Portuguesa, Paulo Borges e Duarte Braga


Nos nossos dias há um interesse renovado pela espiritualidade oriental, em particular pelo budismo. Muitos factores podem contribuir para o apelo do oriente. O desencanto pelos modelos religiosos tradicionais do ocidente ou a possibilidade de procurar, num ambiente de liberdade e de mais fácil acesso ao conhecimento, aquilo de que efectivamente nos sentimos mais próximos. Cada um terá os seus motivos, uns mais profundos e outros porventura mais superficiais. Este livro, organizado por Paulo Borges e Duarte Braga, responde ao interesse dos primeiros. Os autores juntaram textos de vários investigadores portugueses, percorrendo um conjunto de temas com especial enfoque nos reflexos do budismo na vida cultural portuguesa. Através deles explicam como surgiu o budismo no nosso pais e a influência que teve em criadores como Eça de Queirós, Antero de Quental ou Vergílio Ferreira. Qualquer pessoa com curiosidade intelectual retira prazer desta leitura. Eu, por exemplo, gostei particularmente das páginas dedicadas António Andrade, padre jesuíta que no séc. XVII foi o primeiro ocidental a entrar no reino do Tibete. Gostei de ler a forma como procurou ligações entre a realidade que se lhe apresentava pela primeira vez e a cultura portuguesa, arriscando pontes de contacto entre as religiões algo audaciosas. Ou talvez não, se nos recordarmos do que Nicolas Notovitch escreveu no seu relato (não sei se há versão portuguesa em inglês o título é The Unknown life of Jesus). Notovitch fez uma longa viagem ao Tibete tendo afirmado no regresso ter visto provas de que Jesus Cristo ali teria estado durante cerca de 15 anos (entre o fim da adolescência e a entrada da idade adulta). Claro que foi recebido com desconfiança (para dizer o mínimo), mas isso não o impediu de defender com veemência a sua tese, até explicando que foi em contacto com os monges tibetanos que Jesus aprendeu técnicas meditativas que lhe permitiram suportar a crucificação. Voltando ao trabalho dos autores portugueses outro estudo interessante é o dedicado ao livro A cidade e as serras lido à luz da doutrina budista.
Por mim, gosto sempre de livros que me dão novas perspectivas pelo que este achado é um daqueles que guardo para continuar a explorar, lendo e relendo os vários textos que o compõem.

segunda-feira, 4 de junho de 2018

Manifesto, Mary Beard




   
Mary Beard é uma das mais reputadas classicistas da actualidade. Para além disso, é uma observadora atenta da realidade, com obra publicada também nessa área. Confesso que fiquei surpreendida ao ver este seu mais recente livro editado em Portugal. Mas foi uma boa surpresa para contrabalançar os dias em que entro em livrarias em me parece que está a ser editado vezes sem conta o mesmo livro, pela pena de autores diversos e com capas diferentes. Um Manifesto conduz-nos desde a Antiguidade Clássica até à actualidade e nele se pensa sobre o modo como as mulheres no poder se vêem e são vistas. Apesar de me parecer mais pensado para o espaço público anglo-saxónico (o que não surpreende, claro) do que ao português é uma leitura altamente recomendável. Pelas ligações à antiguidade e também pelo modo como mostra que os reflexos da mesma nos acompanham até aos dias de hoje.

terça-feira, 29 de maio de 2018

Sim, é ele, o E.T.



       Não é que me vá tornar numa leitora compulsiva de livros infantis (acho). Mas este livro é irresistível. Afinal, como tantas pessoas da minha geração, chorei com a despedida dos dois amigos quando o ET finalmente iniciou a viagem de regresso para a sua casa. À distância de tantos anos acho o filme maravilhoso - o poder da amizade, a aceitação da diferença e o altruísmo de ultrapassarmos a nossa tristeza para ajudarmos os nossos amigos a irem ao encontro do que para si é melhor. Mesmo que isso nos custe, no caso, por nunca mais se irem ver. Uma história de Hollywood que vale sempre a pena recordar. O livro é fiel à história original e tem ilustrações que recordam todos os personagens que fizeram parte do filme. Mais uma vez, para miúdos e graúdos... 

segunda-feira, 28 de maio de 2018

Contos de encantar, e.e. cummings


     Nobody, not even the rain as such small hands. Este foi o primeiro verso de Cummings que conheci pela mão de Woody Allen no filme Ana e as suas irmãs, então e sempre um dos meus favoritos. Apenas um dos muitos poemas maravilhosos deste autor, de que I carry your heart with me é outro exemplo. Só isso já chegava, mas cummings foi muito mais do que poeta. Ensaísta, pintor e escritor de prosa. Não foi, segundo li agora, grande pai. Mas para se redimir e cativar os netos escreveu estes quatro contos de encantar que agora nos chegam. Pode dizer-se muita coisa sobre estes exercícios de imaginação, onde casas e pássaros são amigos, elefantes e borboletas se visitam e crianças vêm ao mundo para os adultos não se esquecerem de perguntar porquê (uma coisa importante de que os automatismos técnico-tácticos da vida às vezes nos fazem esquecer). Para os especialistas em literatura ficarão as incumbências interpretativas. Para mim, fica o encanto de ler histórias cheias de imaginação sobre o bonito que é quebrar a solidão, própria e alheia. A tradução é de Hélia Correia (que escreveu, por exemplo, Lillias Fraser) e os desenhos de Rachel Caiana. Este livro tão bonito é perfeito para leitores miúdos e graúdos, talvez especialmente para os últimos, a quem um bocadinho mais de sonho pode vir a calhar para criar um mundo melhor. 

sexta-feira, 18 de maio de 2018

Slave to Fashion, Safia Minney





     É fácil pensar que nenhum de nós pode fazer nada de relevante pela vida dos nossos semelhantes, sobretudo daqueles que estão longe. Mas isso é mentira. Este livro incide sobre um ponto essencial para todos nós cidadãos e cidadãs da sociedade da abundância: o consumo ético. O que é isso? É, por exemplo, perceber que se compramos um t-shirt por um preço módico, alguém está a pagar o seu preço real por nós. Esse alguém é muitas vezes um trabalhador ou trabalhadora do Terceiro Mundo que não tem direito a salário mínimo, subsídio de férias ou subsídio de Natal, que não tem horário de trabalho e exerce a sua actividade profissional em condições desumanas. Este livro foca esse fenómeno de que todos temos mais ou menos consciência. Não se fica pelo diagnóstico da situação, indicando formas como todos nós podemos agir. Desde logo, procurando resposta para a pergunta “quem fez as nossas roupas?”, não embarcando no consumo desenfreado, mas antes perguntando-nos como podem determinadas marcas ter produtos tão baratos. Também há uma lista de aplicações que podem ser colocadas no telemóvel e sites para explorar. Há sempre alguma coisa que podemos fazer, desde que estejamos realmente disponíveis para sofrermos o leve incómodo a que toda a acção obriga.
    O livro em si mesmo está bem escrito e com edição cuidada, mostrando a diferença que a introdução de preocupações de justiça na economia pode trazer na vida de cada um.