quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

Return to glow, Chanty Wyant

Home is where the heart is, é um conhecido provérbio inglês. Qualquer coisa como, a nossa casa é onde estão as coisas e pessoas que nos são queridas. Nem sempre a nossa casa está no sítio mais provável ou à mão. A casa de Chandi Wyant é um país, Itália, a que este livro é uma declaração de amor. Um amor que dura há muitos anos e que irá certamente prosseguir, pois neste momento a autora vive naquele país, por escolha.
      Este livro tem dois aspectos admiráveis. Por um lado, a autora é de uma grande coragem ao expor a sua vida e os seus medos numa obra que tornou pública. No rescaldo de uma doença grave e de uma separação que evoluíu para divórcio decidiu voltar aos braços do seu amor, a Itália. Elegeu a peregrinação correspondente à Via Francegina, uma antiga estrada medieval que liga Canterbury a Roma, numa caminhada de quarenta dias, sózinha. No decurso da mesma, Wyant faz uma retrospectiva do que foi a vida até ao momento, passando por recordações dolorosas do seu casamento. a sua honestidade é tanta que partilha connosco os momentos em que, estando sózinha, sentiu tristeza ao deparar-se com cenários de harmonia e felicidade familiar que eram bem diversos da sua realidade. Num mundo onde todos querem parecer muito bem todo o tempo, esta é uma atitude admirável. O outro aspecto que me tocou no livro prende-se com a importância dos gestos das pessoas que com ela se foram cruzando. A maior parte foi simpática, curiosa e amigável. É notável a capacidade da autora reconhecer o relevo que pequenos nadas (para os outros) tiveram na sua disposição, desgastada, não apenas pelo cansaço da viagem, mas também pelos problemas que trazia consigo. O que nos deve fazer pensar que tantas vezes algo que não nos custa nada pode significar a diferença para alguém com quem nos cruzamos. Para além disso, o livro está cheio de detalhes e descrições que são interessantes de ler e úteis para quem queria fazer este tipo de viagem ou algo parecido. Foi, pois, uma boa leitura de início do ano.

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Uma vida muito boa, JK Rowling



O discurso de JK Rowling aos estudantes recém-licenciados de uma das principais universidades norte-americanas foi a minha leitura de dia de Natal. É um texto pequeno, mas com duas ideias fundamentais, sobretudo para quem vai abandonar os bancos da escola para ingressar no chamado “mundo real”. A primeira é a ideia de fracasso. Pergunta essencial é a de perceber o que é o fracasso. Há respostas imediatas, mas a verdade é que todos conhecemos pessoas com uma imagem de sucesso e que, no fundo, escondem fracassos existenciais. Por não trabalharem no que sonhavam, por não realizarem sonhos de juventude ou por não terem laços afectivos consistentes, por exemplo. Sem que com isto esteja a dizer que o fracasso é sempre da responsabilidade de quem o sente, pois por vezes há condições exteriores muito adversas. Mas, ainda que assim não seja, por mais bem-sucedidos que nos sintamos há sempre um momento na vida em que o experimentamos. A outra ideia-chave que perpassa o texto é a do poder da imaginação, para a construção de uma vida melhor, para nós e para os outros. Este é um texto inspirador e que pode bem ser uma leitura não apenas para crianças e jovens, mas para pessoas já mais entradas nos anos. Afinal, como disse o nosso José Ferreira Gomes, viver sempre também cansa. Este livro dá um bocadinho de ânimo para enfrentar os dias invernais da nossa alma. 

sábado, 23 de dezembro de 2017

Feliz Natal!


Feliz Natal a todos e todas os que passam por este blogue. Obrigada pela presença, pelas partilhas e pelos comentários! Nestes tempos tão difíceis, com a multiplicação de injustiças e perpetuação de sofrimentos, escolhi esta frase de Dickens para assinalar a quadra. Todos os dias devem ser, ao menos um bocadinho, dia de Natal. Pela alegria de estar vivo, pelas possibilidades que a vida nos traz e pela capacidade que todos temos de fazer do mundo um lugar um bocadinho melhor.

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Eu matei Xerazade, Confissões de uma mulher árabe em fúria, Joumana Haddad





Joumana Haddad nasceu e cresceu no Líbano, onde ainda hoje vive. Intelectual, escritora e poetisa, é também editora da revista Jasad, publicação cultural dedicada ao corpo e ao erotismo. Este livro, que inaugura o lançamento de uma nova editora em Portugal (Sibilia Publicações) é um misto de autobiografia e manifesto. Na sua formulação original serviu de base a uma peça de teatro levada à cena nos Estados Unidos. A autora questiona o que significa ser árabe e em particular ser uma mulher árabe. Recordou a sua infância, o acesso aos livros como passaporte para uma liberdade sonhada e o modo como constrói esse mesmo sonho de criança: “Adorava ler por muitas razões: lia para respirar; lia para viver (tanto a minha vida como a dos outros); lia para viajar; lia para escapar a uma realidade brutal; lia pata abafar as explosões da guerra do Líbano; lia para ignorar os gritos dos meus pais, o seu dia-a-dia de discussões e sofrimentos; lia para alimentar a minha ambição; lia para ganhar forças; lia para afagar a minha alma; lia para esbofetear a minha alma; lia para aprender; lia para esquecer; lia para recordar; lia para compreender; lia para ter esperança; lia para planear; lia para acreditar; lia para amar; lia para desejar e pata me excitar …
E lia, especialmente, para ser capaz de honrar a promessa que tinha feito a mim mesmo de que, um dia, a minha vida seria diferente (…)”
Em alguns momentos do livro recordou-me As identidades assassinas de Amin Malouf, pela capacidade de questionar o que normalmente identificamos como as coordenadas existenciais dos outros e de nós próprios. O livro é provocador, convocando o olhar ocidental, mas também as mulheres árabes que devem reivindicar a sua liberdade. Claro que Haddad sabe distinguir as realidades. Há espaço em que tal reivindicação não é possível (como sucede com as meninas forçadas a casamentos precoces), mas há muitos outros que identifica como sendo responsabilidade de cada mulher não abdicar da liberdade que é naturalmente sua. É neste ponto que nos explica o porquê de matar Xerazade, modelo antiquado que continua a ser a mulher árabe de referência.
O livro está escrito de forma enérgica, com uma excelente edição em português, tornando a sua leitura um verdadeiro prazer. É inteligente e provocador, criando-nos a vontade de ler mais obra desta autora (creio que nada mais está, por ora, editado entre nós). 

domingo, 17 de dezembro de 2017

As lições de Miss Austen

Orgulho e Preconceito (1940)


Numa cena célebre de Orgulho e Preconceito Mr. Darcy declara-se a Elisabeth Bennet. Diz-lhe que a paixão tomou a melhor sobre todos os argumentos razoáveis que ele mesmo elencou contra ela e que não tem outra opção senão pedi-la em casamento, mesmo reconhecendo que essa união lhe é desfavorável em todos os sentidos. É recusado, mas o mais interessante são as razões invocadas para tanto. Diz-lhe Elisabeth “Por mim, poderia perguntar por que, com o intuito tão evidente de me ofender e insultar, o senhor resolveu dizer que gosta de mim, contra a sua vontade, contra a sua razão e mesmo contra o seu carácter?”
O sucesso de Jane Austen não foi fruto do acaso ou de uma feliz coincidência. Nasceu numa família com hábitos culturais e sempre foi encorajada a ler e escrever. Começou por criar e encenar peças com os irmãos e, mais tarde, escreveu romances lidos em voz alta para a família. Foi o pai quem a encorajou a publicar, o que sucedeu pela primeira vez em 1811, com Sensibilidade e Bom Senso, trazido à estampa anonimamente (By a Lady, como se lia na capa). O livro teve um enorme êxito, de tal forma que houve quem defendesse que o autor só podia ser um homem fazendo-se passar por mulher. Mas o êxito experimentado em vida não impediu que com a morte Austen acabasse por cair num esquecimento que, embora nunca tenha sido total, não faria adivinhar o sucesso universal de que hoje goza. São milhões os que lêem os seus livros ou os reconhecem em filmes, séries de televisão e sequelas e prequelas de maior ou menor qualidade.
Não me tornei uma admiradora imediata de Jane Austen mal li os seus livros. Mas, à medida que os anos passam, vou-me apercebendo da absoluta genialidade da sua escrita, não só na forma, mas também na substância dos seus romances. Os seus livros causaram e causam incómodos a muitos, creio que por romper estereótipos e tabus. Num primeiro momento, podemos querer reduzir Austen a uma escritora do chá das cinco. Mas uma leitura mais atenta da sua obra afasta essa ilusão.
O século XIX trouxe consigo o romantismo, com as suas heroínas lânguidas, dominadas pelas emoções e incapazes de se guiarem pela razão, bússola essencial da vida aparentemente de acesso reservado aos homens e às mulheres cerebrais. O mito da paixão distingue de modo absoluto as emoções da razão. Hoje, esta dicotomia está afastada pela ciência. As emoções não são forças perante as quais nada podemos fazer senão claudicar e deixarmo-nos arrastar. Ao invés, ganha campo a tese de que elas próprias são maturadas e têm um lugar no processo decisório consciente. Distinguem-se, pois, as emoções da patologia delas, esta sim, capaz de nos arrastar para más escolhas ou situações de que não conseguimos libertar-nos.
Jane Austen viu tudo isto com clareza. Nos seus livros não há personagens toldadas pelas emoções ou descontroladas ao ponto de perderem a capacidade de escolher o seu caminho. Há Marianne de Sensibilidade e Bom Senso, uma adolescente impetuosa e imaginativa. Mas o livro é um romance de formação das duas protagonistas (aquela e a irmã Eleonor). Através da dicotomia entre ambas (sendo Eleonor, por contraponto à irmã mais nova, racional ao ponto de parecer destituída de qualquer fogo interior) Austen pretende mostrar que todo o ser humano (máxime as mulheres sobre quem escreve), tem de saber encontrar o ponto de equilíbrio entre as duas forças vitais. De todas as personagens saídas da pena de Austen, creio que Elisabeth Bennet é a que melhor procede àquela síntese, sendo o diálogo com que iniciei este texto o momento máximo dessa filosofia de vida. O que Austen conseguiu, nesse e em outros livros, foi mostrar a capacidade de raciocínio e de decisão das mulheres, apesar dos constrangimentos da época. É certo que ao tempo, para muitas delas e seguramente para as heroínas daquela escritora, a grande decisão é a escolha de marido. Alguém de quem gostem, mas que lhes seja conveniente, desde logo pelo carácter demonstrado (lembre-se que não é a fortuna que permite a nenhum dos pretendentes obter a ansiado sim, mas antes o reconhecimento das suas qualidades morais). Esta capacidade afasta diametralmente as heroínas austenianas de outras construções do século XIX, sobretudo as saídas da imaginação masculina. Por exemplo, Ema Bovary (Flaubert, 1856) com a sua incapacidade de encontrar um caminho de vida, perdida entre luxos e devaneios. Ou Anna Karenina (Tólstoi, 1877) que perde a sua posição social, filho e vida devido ao encanto mais que passageiro de uma bela figura vestida de farda de gala, o conde Vrónski. Ou a heroína do romance de Balzac, A mulher de trinta anos (1842), desfeita por um casamento infeliz para cuja saída apenas encontra a morte. Se olharmos à nossa volta e para nós mesmos (e a literatura é o nosso espelho), quem é que se deixou toldar pela fantasia e não viu o mundo e os seres humanos como eles são? Seguramente não as construções de Jane Austen que não se sacrificam, nem esperam sacrifícios desmesurados de ninguém em seu benefício, n’est pas?
Austen era mais velha do que qualquer daqueles escritores, tendo além disso morrido prematuramente (aos trinta e seis anos). O que é uma pena a todos os títulos. Tenho pensado muitas vezes em como seriam os livros que poderia ter escrito se tivesse vivido mais anos. E tenho a certeza que teria tido uma palavra a dizer sobre as figuras femininas saídas da imaginação (ou será da patologia imaginativa?) dos escritores que referi acima! E o que interessa isso para os nossos dias? Interessa muito mesmo. O que Jane Austen nos ensina é que quem nos ama nos valoriza e isso é algo que na escolha de um parceiro deve ser valorizado. O amor, tal como Austen no-lo mostra, não é feito de lágrimas, suspiros, repetições de agravos e perdições. O que num país como nosso, com números assustadores no quadro da violência doméstica, é uma lição que é cada vez mais urgente recolher. 

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Silêncio na Era do Ruido, Erling Kagge






Erling Kagge é uma espécie de homem do renascimento contemporâneo. Explorador, escritor, editor, advogado, viajante e filósofo é claramente um bom exemplo da dificuldade sentida pelo ser humano de ficar sossegado no seu quarto, tão bem identificada por Blaise Pascal.

O movimento, como o silêncio, não são em si mesmos bons ou maus, dependendo do uso que lhes damos. É sobretudo sobre o último que Kagge se debruça neste pequeno ensaio filosófico agora editado entre nós. O silêncio não tem de ser estático, pois um dos momentos em que o podemos encontrar é quando caminhamos, não só nos grandes espaços da natureza mas também nos territórios urbanos por onde circulamos habitualmente. Este livro recorda-nos desde logo como o silêncio é raro, não só porque por iniciativa própria preenchemos todos os espaços com ruído (incluindo a “música de fundo”), mas porque mesmo quando o procuramos, o espaço exterior dificulta o encontro. Isso mesmo verifiquei quando depois de ter lido este livro fui no seu encalço. Os ruídos da rua, de dia e de noite, dificultam muito essa tarefa. Depois de encontrarmos o silêncio vem outra tarefa: convivermos com ele, descobri-lo, percorrer-lhe as possibilidades. É aqui que este ensaio nos dá uma ajuda preciosa. Escrito com simplicidade, mas sem abdicar de profundidade, convoca exemplos das artes (como o quadro de Munch com o seu poderoso grito silencioso, encerrando afinal um paradoxo) e da experiência pessoal do autor para nos alertar da raridade e riqueza que podemos encontrar quando conseguimos ouvir o silêncio dentro de nós e para lá das nossas fronteiras. Um livro que vale a pena ler e reler. Uma excelente prenda de Natal ou mesmo auto-prenda de Natal…

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Ética no Mundo Real, Peter Singer



Peter Singer é uma voz incontornável nos nossos dias. Nascido na Austrália a 6 de Julho de 1946 é um filósofo moral com vasta obra publicada em campos tão diversos como os direitos dos animais, a bioética e o altruísmo. Tem também uma grande capacidade de comunicar. Com ele a filosofia deixa de ser uma matéria quase esotérica reservada a uns quantos iniciados para voltar a ser a arte de pensar sobre os problemas do dia-a-dia. Essa capacidade de comunicar está na base dos oitenta e dois ensaios que começaram por ser publicados na imprensa e estão agora reunidos em livro. Neles, Singer aborda questões realmente importantes nos nossos dias, sobre as quais nem sempre é fácil pensar e assentar ideias. Estes ensaios, curtos e directos, são, por isso mesmo, uma leitura indispensável. Podemos concordar ou discordar do seu conteúdo. O essencial é ler os argumentos e pensarmos em questões que sendo da vida comum vão para além da espuma dos dias.