sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

Élisabeth Vigée Le Brun, Memórias - volume I - os anos de exílio em Itália



Em Outubro de 2011 visitei Milão com o objectivo de ver a retrospectiva de pintura de Artemisia Gentilishi. Foi nessa altura que descobri uma outra pintora desta feita do século XVIII, Elisabeth Vigée Le Brun. Tal como sucedeu com Artemisia surpreendeu-me o seu relativo anonimato nos tempos actuais tendo presente que qualquer das duas foi uma pintora conceituada, entre os melhores da sua época. Na altura encontrei as memórias de Le Brun em italiano e comprei-as. Porém, não é fácil ler na língua de Petrarca e Dante e o livro foi ficando na estante, saindo de vez em quando para ser folheado num ou noutro capítulo. Percebi que Madame Le Brun por força da Revolução Francesa de 1789 se viu forçada a abandonar a França iniciando um périplo pela Itália, Áustria, Inglaterra e Rússia, mas nunca me inteirei dos detalhes dessas viagens. Há umas semanas atrás vi uma edição em inglês destas memórias numa livraria na Baixa lisboeta. Mas, confesso, achei–a um bocado cara. Por esse motivo, não a trouxe. E ainda bem. Porque há duas semanas fui surpreendida com a edição em português da primeira parte dessas memórias.
A primeira parte do livro é composto por um conjunto de cartas dirigidas à Princesa Karukin com quem Vigée Lebrun travou conhecimento na Rússia. Nas cartas a pintora recorda a sua infância e juventude, a vida familiar e o despertar para a pintura. A morte da princesa pôs fim à correspondência entre as duas, mas, instada por amigos a pintora continua a passar a papel as suas recordações.
Estas memórias não têm um conteúdo marcadamente intimista. Le Brun fala dos pais, do marido e também da sua filha, mas o grosso da obra debruça-se sobre a felicidade que foi para si dedicar-se à pintura, as pessoas que conheceu e, uma vez em Itália, as maravilhas da região. São claramente memórias de uma pessoa privilegiada em termos sociais. 
Le Brun casou sobretudo para fugir ao ambiente familiar, após a morte do pai e subsequente segundo casamento da mãe. As linhas que dedica ao marido, pelo menos neste primeiro volume, são poucas e sobretudo relacionadas com o facto dele se apropriar constantemente do dinheiro que ela ganhava. Em relação à filha Julie a situação é diferente. É possível perceber a ternura e dedicação que existia de parte a parte e o orgulho de Le Brun nas capacidades de escrita e imaginação da criança. Aliás, a pintora retratou-as várias vezes juntas e a pequena acompanhou sempre a mãe nas suas viagens.
Le Brun e a filha Julie
A escrita de Le Brun é detalhada, minuciosa e emocionada. É evidente que a pintora apreciou as relações que teve entre os nobres e a própria família real francesa (pintou Maria Antonieta cuja delicadeza e graça gaba), sentindo-se magoada e revoltada com o fim que grande parte deles (que descreve como pessoas amáveis e cordiais, de grande generosidade e espírito) teve após a revolução. A sua descrição da vida das classes sociais elevadas em França é feita com um efeito de cápsula, uma vez que jamais a pintora estabelece qualquer comparação com as dificuldades da generalidade da população. Aliás, esse elemento humano está igualmente presente no relato da sua viagem pela península italiana. Recordando Roma, Parma, Nápoles e Florença Lebrun fala das pessoas que aí conheceu e com grande profusão de detalhes nos encantos estéticos da paisagem e construções italianas. Mas pouco, e quase sempre pondo a tónica no pitoresco, sobre a generalidade da população. Isso não retira em nada o prazer de ler estas memórias. Para além da fluidez da escrita e da riqueza de detalhes elas são também um documento histórico de grande valor. Este primeiro volume foi uma boa leitura. Termina com o anúncio da viagem da pintora e da sua filha para a Áustria. Resta-me, pois, aguardar a publicação do II volume.



terça-feira, 11 de dezembro de 2018

Márcia Ramos Ivens Ferraz, Sózinha no mato



              Como já aqui escrevi para mim os alfarrabistas são uma espécie de caverna de Ali Babá sem risco de encontros com os quarenta ladrões. Numa das minhas excursões de book hunting encontrei este livro de Márcia Ivens Ferraz. É o relato da viagem desta portuguesa que atravessou África sozinha, ao encontro do marido e aqui registou as suas impressões e receios. Com isto ganhou um prémio no XXV Concurso de Literatura Colonial (algo de cuja existência nem sabia até pegar no seu livro). O livro lê-se de uma assentada, sendo recheado de peripécias. E, embora um pouco datado, afasta-nos daquela imagem cinzenta das mulheres portuguesas no Antigo Regime. Uma boa surpresa. 

sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

Somerset Maugham


 Hoje quero deixar uma homenagem a um dos meus escritores favoritos de sempre mas de que nunca aqui escrevi. Conheci-o através do meu professor de inglês que escolheu os seus contos para fazermos exercícios de tradução. As primeiras coisas que li dele estavam numa colectânea chamada Rain and other novels. Impressionou-me aquilo que o professor nos contou sobre Maugham em particular a sua frase quanto ao modo como desejava viver a sua vida “ser rico, viajar muito e escrever” (não sei se exactamente por esta ordem). O que é certo é que realizou o seu projecto de vida.
         Somerset Maugham era inglês e teve uma infância marcada pela infelicidade. Perdeu os pais em criança e foi viver com um tio mesquinho e sovina. Esse facto e um pequeno defeito físico marcaram-no para sempre. Mas não condicionaram os seus sonhos. Maugham estudou medicina e chegou a exercer nos bairros mais pobres de Londres. Foi aí que recolheu inspiração para o seu primeiro livro, inspirado nas duras condições de vida das mulheres que conheceu e a quem ajudou profissionalmente: Liza of Lambeth (em português, Lisa a pecadora). Este livro estava incluído na colecção que a minha mãe me encomendou no Círculo de Leitores de obras desse autor. Outros títulos: Casamento em Florença, O Véu Pintado e a Lua e Seis Vinténs (inspirado na vida do pintor francês Gauguin). Passei muitas horas a ler e reler estes livros. Mas duas outras obras de Maugham marcaram-me profundamente: Da Servidão Humana e O Fio da Navalha. A primeira narra incidentes directamente inspirados na vida do próprio autor. Maugham deixou a medicina e foi viver para Paris. Aí privou com muitos artistas (pintores, escritores, etc) e candidatos a essa condição que ficaram pelo caminho. O livro é um romance de iniciação e não pinta de cor-de-rosa as dificuldades da vida. O protagonista conhece um grande amor, a mais fria e cruel desilusão, a fome e o desalento. o seu regresso a Inglaterra e as escolhas que aí faz para a sua vida, são matéria de reflexão e ainda hoje me vêm à memória. Maugham escreveu como ninguém sobre tantosjovens que chegaram a Paris com sonhos artísticos que nunca se concretizaram. Alguns reconciliaram-se com esse facto e seguiram a sua vida. Outros pereceram, às vezes às mãos do álcool, outras vezes de frio ou de fome. 
      O Fio de Navalha acompanha a vida de um jovem aviador norte-americano traumatizado pela sua experiência na I Grande Guerra. Ao contrário do protagonista de Da servidão humana, Larry, a personagem principal de O fio da navalha escolhe afastar-se do quotidiano convencional, vivendo uma vida nómada, ditada pela sua vontade e por um sentido que só ele conhece, para frustração de muitos dos que o rodeiam. Os dois livros transcendem em muito os protagonistas, oferecendo-nos um fresco sobre a natureza humana com o qual muito se aprende. Maugham nunca se considerou um grande escritor (no que não foi contrariado por muitos críticos, diga-se). Via-se como um contador de histórias, um observador da realidade, a quem muitas pessoas revelam factos das suas vidas que a mais ninguém confiavam. Era neles que Maugham se inspirava para as muitas histórias que escreveu, muitas delas passadas para as telas de cinema em versões mais ou menos conseguidas. Viajante incansável essa sua faceta encontra-se em muitas das suas obras que nos levam aos quatro cantos do mundo. 
      Como disse, li-o sobretudo na adolescência. Mas ainda hoje de vez em quando voltou às páginas dos seus livros, sempre com proveito.
         

   

segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

A arte do silêncio, Amber Hatch



     
       Silêncio e solidão são muitas vezes vistas como uma coisa negativa. Mas nem sempre é assim. Vivemos um mundo onde recebemos estímulos em catadupa: notícias, SMS, e-mails, notificações, estreias constantes de cinema, teatro, edições de livros and so on ... Mas quanto do que experimentamos fica realmente connosco? Quanto é amadurecido e transformado em matéria prima para nos alimentar? É sobre isto que nos escreve Amber Hatch. O livro é pequeno, escrito de forma simples e com exercícios interessantes para explorarmos. Muito do que diz não é novo, mas mantém-se actual. A mensagem é clara: procurar o silêncio no mundo à nossa volta e dentro de nós. E essa é uma tarefa difícil. Passos pequenos é a estratégia proposta pela Autora. 
     Por mim, tenho feito um esforço para reduzir a velocidade que os estímulos constantes imprimem à vida. Vou a menos espectáculos, aceito menos convites, procuro distinguir as solicitações que me acrescentam algo (desde logo, prazer) daquelas a que dizia sim de forma automática, sem pensar bem no assunto. E que acabava por lamentar. Os resultados têm sido animadores. O tempo parece durar mais, as relações eleitas ganham qualidade, estou mais atenta aos detalhes e com clareza de espírito. Não se trata de cultivar a misantropia. Trata-se de eleger aquilo e aqueles que verdadeiramente importam. E de conseguirmos, finalmente (!!!), começar a ouvir-nos a nós próprios. Por isso, qualquer livro que ajude a aprofundar este caminho parece-me uma excelente leitura. 

sexta-feira, 30 de novembro de 2018

Habitar o vazio, Wang Wei





    
  Esqueçam o frio lá fora, as compras de Natal, as filas no supermercado ou as multidões no centro comercial. Este é um pequeno livro que nos leva para longe dessas coisas triviais. 
Wang Wei foi poeta na China do século XVIII. Filho de um alto funcionário da corte e de uma mãe budista a sua vida parece ter sido um confronto entre duas realidades muito distintas. Por um lado, a sua própria carreira na administração, por outro o apelo a uma forma de vida diversa  próxima da natureza como modo de atingir a sua verdadeira essência. Entre actos da vida mundana Wang Wei passou um período nas montanhas. Os poemas que agora nos chegam são por certo fruto desse tempo. Distamos séculos deste poeta e pela parte que me toca estou longe desse contacto com natureza. E, todavia, ao ler estes poemas consigo ouvir o som da água junto dos seixos brancos e sentir o silêncio a perpassar as copas das árvores. E vejo-me, ainda que por breves instantes aqui:

        Todos os dias saímos para colher lótus
        A ilhota é comprida, regressamos já ao crepúsculo
        Manejamos a vara com cuidado para não salpicar
        Os vestidos vermelhos dos lótus.

A tradução e notas desta edição da Licorne são de Manuel Silva-Terra.

quarta-feira, 28 de novembro de 2018

As Barbas do Profeta, Eduardo Mendonza



Aos que escrevem é habitual perguntar pelos livros mais marcantes das suas vidas. O escritor espanhol Eduardo Mendonza depois de matutar na pergunta concluiu que a sua primeira grande influência foram as histórias do Antigo Testamento que ouvia na escola quando era miúdo. Este livro é o produto dessa conclusão. São histórias que todos conhecemos, ou das aulas de religião e moral ou das tardes de cinema de fim-de-semana, pois muitas mereceram adaptações cinematográficas. 
Sansão e Dalila, Noé, a Torre de Babel, Salomão, Jonas, David e Golias são algumas das figuras recordadas. A escrita é simples e directa, uma revisitação do passado em que Mendonza aqui e ali nos indica de que forma essas velhas histórias estão presentes na produção cultural posterior. Alguns casos são evidentes (como sucede com as diferentes representações pictóricas da Torre de Babel), outros geradores de maior surpresa (como a ligação entre Sansão e o King Kong). Em suma, um livro rigoroso na sua escrita, ainda que sem pretensões de profundidade, que é uma bela forma de recordar algumas histórias com as quais crescemos e um pretexto para ler ou reler o Antigo Testamento.



sexta-feira, 23 de novembro de 2018

Bel Canto, Ann Patchett



Apesar da popularidade de que goza no seu país de origem (EUA) Ann Patchett é pouco conhecida entre nós. Bel Canto é uma das suas mais celebradas obras agora passada ao cinema e que está em exibição em Portugal. O livro há muito que foi editado no nosso país e surge agora numa nova edição. Livro e filme são muito próximos, ainda que este último apresente uma leitura mais simplista dos acontecimentos e desenlace.
            A acção decorre num país sul-americano marcado pela pobreza e injustiça social. Um grupo de rebeldes irrompe numa recepção particular pretendendo sequestrar o presidente do país. Mas este acabou por não comparecer, pelo que os rebeldes se vêm sem saída, presos numa casa com os seus reféns. Entre eles, uma conhecida cantora de ópera norte-americana, cuja voz encanta todos os presentes. À medida que os dias vão passando as barreiras entre os reféns e os sequestradores vão se esbatendo. A maior parte destes são jovens adolescentes pobres, que não sabem ler e que não têm qualquer preparação para o acto em que estão a participar. Pode dizer-se que o livro ilustra a síndrome de Estocolmo ou pode dizer- que a passagem dos dias faz com que os lugares comuns (refém rico e desinteressado e rebelde sanguinário) se esbatam. Mas a gradual proximidade vivida por todos, com atracções e afinidades a revelarem-se como é habitual no ser humano, não deixa o espectador esquecer que aquele episódio tem de ter um desenlace. E só o espectador irrealista pode esperar que haja espaço para um final feliz. Ainda assim, confesso que tendo lido o livro há vários anos tinha a secreta esperança de que o final pudesse ser um pouquinho diferente.
            Mas o filme, como o livro, é implacável na mensagem que deixa a quem o vê: a inutilidade de visões maniqueístas, o vazio dos media e o desespero dos que não têm voz. E a perenidade do amor.
           O filme em si mesmo não pareceu excepcional, apesar da excelente interpretação de Julianne Moore na pele de cantora de ópera. Acima de tudo parece-me que é um bom pretexto para ler ou reler o livro e conhecer ou revisitar Rusalka uma das mais belas óperas que conheço.