sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Entre tantas coisas admiráveis que escreveu, Italo Calvino deixou-nos esta reflexão que é também um desafio:

"O Grande Khan já estava folheando no seu atlas os mapas das ameaçadoras cidades que surgem nos pesadelos e nas maldições: Enoch, Babilónia, Yahoo, Butur, Brave New World.
Disse:
- É tudo inútil, se o último porto só pode ser a cidade infernal e que nos suga num vórtice cada vez mais estreito.
E Pólo:
- O inferno dos vivos não é algo que será; se existe, é aquele que já está aqui, o inferno no qual vivemos todos os dias, os que formamos estando juntos. Existem duas maneiras de não sofrer. A primeira é fácil para a maioria das pessoas: aceitar o inferno e tornar-se parte deste até ao ponto de deixar de percebê-lo. A segunda é arriscada e exige atenção e aprendizagem: tentar saber reconhecer quem e o que, no meio do inferno não é inferno, e preservá-lo, e abrir espaço.”
Ítalo Calvino, As cidades invisíveis, pág. 166

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

A Capital, Eça de Queirós

            Tenho-me interrogado sobre o porquê do meu entusiasmo com A Capital de Eça de Queirós. O livro não é considerado uma das grandes obras deste romancista. Na verdade, foi concluído e publicado pelo seu filho, já após a morte de Eça.
          Claro que haverá muitas razões para explicar este entusiasmo. E pode sempre lançar-se mão do velho aforismo de Pascal “o coração tem razões que a razão desconhece”.
          Será assim. Mas há uns dias atrás quando, após uma conversa entre amigos, dei por mim a reler A Capital percebi que o que ressalta da obra é a humanidade de Artur Corvelo.
Artur (depois de tantos anos, sinto não ser preciso identificá-lo pelo nome completo) é um jovem da província, criado por duas velhas tias. Sonhador e romântico não tem senão um desejo – triunfar no meio intelectual e social lisboeta, que imagina culto e sofisticado, por oposição ao meio rural onde se encontra inserido concluídos os seus estudos em Coimbra.
A Capital é a narração plena de ironia das aventuras e desventuras de Artur à medida que vai tentando encontrar o seu lugar em Lisboa. Crítica feroz (e talvez excessiva) à sociedade lisboeta, bem como à educação romântica, através desta obra Eça pretendeu criticar os vícios que reconhecia àquelas. Durante a sua estadia em Lisboa, Artur vai travando conhecimento com diversas personagens.
Em comum, todos eles têm o reconhecimento da ingenuidade de Artur e a decisão, mais ou menos consciente, de dela tirar proveito. Apenas uma das personagens (Jácome Nazareno, membro do movimento republicano) se relaciona com Artur de modo sério e sem segundas intenções. Mas também esta ligação acaba por revelar-se frágil e incompatível com as pretensões de ascensão artística e social que Artur traz em si.
A narrativa queirosiana é cruel no modo como retrata a sociedade lisboeta e a forma como a mesma acolhe Artur Corvelo. Contudo, o estilo irónico a que Eça recorre conduz a que não raras vezes o leitor, ao mesmo tempo que se condói das desventuras de Artur se ria com as mesmas. Um bom exemplo disso é o episódio do “jantar literário” pago por Artur e oferecido pelos seus “amigos” lisboetas para o apresentar ao que hoje seriam aos membros do beautiful people do nosso burgo.
O estilo narrativo é aquele a que Eça nos habituou – elegante, fluente, claro. O romance respeita a forma clássica e é de leitura fácil e escorreita.
Trata-se de um clássico da literatura portuguesa cuja fluidez e plasticidade narrativas não podem deixar de cativar quem o lê. É ainda impressionante constatar como a sociedade que Eça descreve se mantém actual. Todos conhecemos, directa ou indirectamente, pessoas que se inserem nos tipos sociais descritos por Eça e sabemos da existência de muitos Artur Corvelo por aí.
Pena é que Artur não tenha percebido aquilo que quem lê o livro entende. De todas as pessoas que conheceu, ele é, apesar dos seus deslumbramentos e fraquezas, o melhor. Essencialmente porque é um homem bom. E a partir de determinado momento na acção percebemos ser a sua bondade e não tanto a ingenuidade, o que o distingue dos que rodeiam em Lisboa.
          Ed. Livros do Brasil



quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Cristina Campo foi escritora, poetisa e tradutora. E deixou-nos pérolas como esta:

 Maturidade: Aquele instante misterioso que nenhum homem alcança antes do tempo, mesmo que todos os mensageiros do céu descessem para o ajudar. Assim sucede nas antigas histórias com a série das aparições: todas igualmente eloquentes e ineficazes: a pomba, a raposa, a velha com o molho de silvas. Contudo dizem todas a mesma coisa, repetem e insistem no mesmo aviso. Seria fácil entrever por baixo das penas, do pêlo ruivo ou dos andrajos o relâmpago azul-celeste do trajo da Parca.
            Maturidade: nem fulminações, nem vozes. Só um precipitar inesperado, quero dizer, biológico: um ponto que deve ser tocado por todos os órgãos ao mesmo tempo para que a verdade se possa tornar natureza.
            É como acordar uma manhã e saber uma língua nova. E os sinais, vistos e revistos, tornam-se palavras. 
            Os Imperdoáveis, Assírio & Alvim, pág. 158

terça-feira, 20 de setembro de 2011

O resultado feliz de uma música inspirada por O Primo Basílio, de Eça de Queirós - Amor I love you, de Marisa Monte.


segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Leituras ao Luar - Como os livros salvaram uma vida, Brenda Walker

“Era isto o que eu mais desejava, desde que me foi descoberto o cancro: calma, poder estar sentada à minha mesa e, acima de tudo, ter tempo para criar o meu filho. Queria mais, é claro, em especial, livros: todos os livros que tivesse vontade de ler no futuro e os livros que imaginei que iria escrever. Tudo isto é banal e, todavia, tantas coisas tiveram de acontecer, durante tanto tempo, até que eu pudesse recomeçar a sentar-me aqui, de manhã cedo, e cumprir a minha velha e agradável rotina, com um corpo que nunca esperei ter.” (pág. 188)
            Como todos os que gostam de livros sabem, a leitura vem acompanhada de vários outros prazeres, insuspeitos para os que não se deixam prender pelo mistério das letras. Passear em livraras ou conversar sobre livros com outros “iniciados”, são dois dos mais comuns. Um outro consiste em ler livros sobre livros. Na verdade, neste género é possível distinguir várias categorias: os livros que analisam outros livros (Ler Lolita em Teerão, de Azar Nafisi, Lisboa, 2004), os livros que ficcionam histórias tendo outros livros ou a leitura como assunto principal (O nome da Rosa, de Umberto Eco) ou as memórias de leitura. Nesta última categoria são várias as formas de aproximação ao tema. Henry Miller deu-nos “Os livros da minha vida(Antígona, Março de 2006) onde, como o próprio título indica, disserta sobre as obras que mais o marcaram. Num registo diferente Susan Hill decide dar conta de uma aventura que todos os leitores prometem levar a cabo: ler os livros comprados que se vão amontoando para “um dia serem lidos”. Howards End is on the landing (Profile Books, 2009) narra um ano na vida da escritora em que a mesma decide ler os livros que foram ganhando lugar cativo na prateleira à espera do momento certo. Pelo caminho, vamos conhecendo alguns dos livros que mais a marcaram, bem como as suas opiniões sobre a leitura e os que a praticam (abordando questões clássicos como a de nunca haver tempo para ler tudo o que se pretende e a distinção entre a literatura clássica e os livros ditos “leves”).
            Leituras ao Luar é também uma memória de leituras. Atraiu-me porque sempre tive grandes dúvidas sobre a frase atribuída a Chateaubriand segundo o qual nunca tivera nenhum desgosto que não se curasse após algumas horas na sua biblioteca. Não sei se a frase é verdadeira, mas a ser, sempre me pareceu que ou Chateaubriand nunca tinha tido grandes desgostos ou tinha, efectivamente, uma grande biblioteca.
E o que tem isto a ver com Leituras ao Luar? Brenda Walker é uma escritora e professora de literatura australiana a quem foi diagnosticado um cancro na mama. O livro Leituras ao Luar relata o percurso entre o momento em que lhe foi diagnosticada a doença e a sua recuperação, bem como os livros que escolheu para a acompanharem nesses processo. Este livro recebeu o Victorian Premier’s Awards, Nettie Palmer (não ficção) e foi seleccionado para o Queensland Premier’s Literary Awards.
A obra está dividida em capítulos que obedecem à lógica da luta contra a doença (Cirurgia, Quimioterapia, Radioterapia, Reconstrução, Sobrevivência). A escrita é contida e depurada. Mas isso não obsta a que nos apercebamos da dor e fragilidade sentidas pela escritora ao longo da sua doença. Walker não se esconde atrás dos livros. Nem o poderia fazer, pois os livros, quanto muito, apenas permitem um intervalo daquela (e não são todos, claro). As múltiplas referências aos livros que foi escolhendo para a acompanharem nas várias fases da luta contra o cancro (onde se incluem escolhas curiosas como Malone está a morrer, de Becket) não obsta a que descreva a doença, o modo como lidou com ela e a forma como a sua família, amigos e colegas foram reagindo. Por todo o livro perpassa a constatação da nossa mortalidade, algo que esquecemos enquanto vivemos a rotina das nossas vidas, mas que surge penosamente evidente nos momentos de crise (como a doença ou, num paralelismo feito no livro, a guerra).
O que torna o livro particularmente interessante é o modo como a escritora enlaça o relato sobre a realidade da sua doença com as considerações sobre os livros que a vão acompanhando ao longo de todos o processo de luta contra aquela.         
           Ao mesmo tempo que nos descreve a sua rotina de consultas, as dificuldades em adaptar-se ao novo corpo e a alegria de poder voltar aos prazeres simples da existência, a autora surpreende-nos com uma nova perspectiva de Ana Karenina de Leão Tolstói ou com as suas impressões sobre a História de Gengi de Murasaki. Acima de tudo, quando terminamos a leitura ficamos com a certeza de que, não nos podendo esconder nos livros e sendo (como a autora lucidamente escreve) toda a sobrevivência provisória, Walker encontrou de facto não apenas companhia, mas também consolo e força, para ultrapassar a sua doenças, nos livros que já acompanharam ao longo da vida já vivida.    
         O que é um consolo, porque nunca podemos adivinhar as batalhas que nos esperam. E embora tenha para mim que há desgostos que nenhuma biblioteca pode curar, parece-me ainda assim animador poder contar com alguns livros para os apaziguar. 
          Estrela Polar, 2011

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Sábado, Ian Mcewan

Nas suas Histórias, Heródoto relata o episódio do rei cretense que se orgulhava da felicidade em que vivia e que por todos era reconhecida. O grego conta também como tal felicidade foi destruída com a morte do filho do rei e a queda do seu reino. E conclui que nenhum homem pode dizer ser feliz até ao dia em que morre. Até lá, apenas se pode considerar com sorte.
Durante anos Mcewan ofereceu aos leitores histórias de “digestão” difícil para os mais sensíveis. A criança no tempo (estranhamente premonitório de um dos maiores medos de qualquer progenitor contemporâneo), Jardim de Cimento, Cães Pretos ou Estranha Sedução são disso exemplo. Pela minha parte, cada vez que terminei a leitura de qualquer destes livros, perguntava-me “mas porquê ler este escritor?”. O meu sentimento estava longe de ser reacção única. Mcewan foi durante muito tempo conhecido como Ian Macabro à conta dos temas que escolhia para os seu livros.
            Anos mais tarde, retomei-o com Amesterdão e Expiação, apesar de nenhum destes títulos ser uma obra leve. Sábado também não o é. O tema subjacente ao livro é, mais uma vez, o medo. O medo perante aquilo que não controlamos na vida, em rigor tudo ou quase tudo o que é importante na vida. O medo do que nos rodeia, o receio do que está dentro de nós. E a fragilidade da condição humana. A constatação de que tudo o que se construiu uma vida inteira pode ser destruído num minuto. E que a vida não tem de ser justa.
            Não que Henry Perowne seja uma personagem atormentada ou alguém sobre quem caem todas as desgraças do mundo. Perowne é, na verdade, um homem feliz e consciente da sua felicidade. Médico neurocirurgião a residir em Londres, vive com a mulher com quem casou há mais de vinte anos (Rosalind) e por quem continua apaixonado. Têm dois filhos já na idade adulta (Theo, adolescente que se dedica aos blues e Daisy, jovem poetisa à beira de publicar o seu primeiro livro). A vivência familiar é harmoniosa, não existindo fractura geracional entre os Perowne. Não porque os pais se comportem como adolescentes, mas talvez porque cada um se comporta realmente de forma adequada para a idade que tem. Do quadro familiar mais afastado fazem ainda parte a mãe de Perowne (que ele visita, mas que já não o conhece) e o seu sogro, um poeta inglês residente em França. Com este último, Perowne vive uma relação cordial, mas distante, perfeitamente pacificada. A acção acompanha um dia (sábado) na vida de Perowne. À semelhança do que acontece com Mrs. Dalloway de Virgínia Wolf, acompanhamos Perowne no seu dia de folga, dividido entre as interacções familiares e sociais, em preparação de um jantar de reunião familiar (a filha vem de Paris e o sogro do Toulouse).
            Num primeiro momento, o que marca o livro é o contraste entre a harmonia do mundo familiar e a desarmonia exterior, bem como os efeitos que esta última pode ter no nosso pequeno jardim. Na verdade, apenas o mundo exterior ameaça a felicidade de Perowne.
O medo começa a imiscuir-se na história logo na madrugada de sábado. Perowne está no conforto (material e humano) do seu lar em Londres quando vê um avião a cruzar os céus em chamas. Este é um livro do pós-11 de Setembro. A personagem principal não pensa que o avião que se lhe atravessou à frente dos olhos é um acidente. Pensa tratar-se de um atentado e deste modo Mcewan espelha um dos medos comuns ao homem ocidental contemporâneo.
Mas o mundo exterior interpõe-se ainda na vida perfeita de Perowne na sequência de um incidente de trânsito. É deste modo que trava conhecimento com Baxter, um rufião inglês que pretende dar-lhe uma tareia. O incidente de trânsito é apenas um pretexto para que ele e os seus amigos possam descarregar a sua raiva sobre alguém que lhes surge como privilegiado pelo que, percebemos no seu entendimento, não é outro critério se não o aléa da vida. Aliás, o próprio Perowne reflecte sobre a importância do elemento da sorte quando compara as oportunidades da sua filha Daisy com as de uma outra jovem inglesa sua conhecida com a qual se cruza. Mas também Baxter sente o peso da álea da vida, pois sofre de uma doença degenerativa para a qual não há cura. E sabe-o, vivendo com essa amargura.
Todos estes incidentes vão-se amontoando no dia de Perowne, abrindo brechas na sua rotina feliz (pág. 138: A sua manhã tem sido toda uma forma de combate.”), deixando dividido entre o dever (ético, mesmo) de sobre elas reflectir e a vontade de as afastar da sua vida. Isso mesmo é patente nas páginas relativas ao jogo de squash com o colega Jay, em que Pereowne conclui “Tem o direito, tanto neste momento como durante o jogo – é um direito que assiste a toda a gente – de não ser perturbado pelos acontecimentos mundiais, nem sequer por coisas que acontecem na rua.”
            Está enganado. Perowne, como nós, não tem direito ao alheamento perante as incertezas e factores de risco do mundo. E para lhe provar isso mesmo, o “mundo” entra pela sua casa adentro.
            Nessa noite de sábado quando Perowne se reencontra com a família na sua casa para o jantar por si cozinhado reencontra Baxter. Desagradado com o desenlace do incidente que ambos viveram nessa manhã, este último invade-lhe a casa, ameaçando-o a ele e à sua família.
            O retorno à normalidade familiar algumas horas depois não liberta Perowne e a sua Rosalind do medo. Já com esta adormecida Perowne finalmente é confrontado com aquilo de que fugiu todo o dia: a fragilidade da vida. Tal fragilidade afecta, não apenas a existência biológica (com as doenças e a morte), mas também tudo aquilo que foi construído.
            O Perowne da madrugada de sábado é distinto do que termina o mesmo dia. Este último aceitou a fragilidade inerente ao ser humano, porque consciente de que o futuro traz mudança, o imprevisível e a certeza final da morte. O mundo exterior é inelutável e não pode ser combatido. Mas é nos seus intervalos e no espaço que ele deixa livre, que se constrói uma vida.
           Gradiva, 2005

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

A morte de Ivan Ilitch, Lev Tolstói


 Poucas figuras literárias suscitam tanta curiosidade como Leão Tolstói. Nascido no século XIX na Rússia, trazia em si todas as vantagens inerentes ao nascimento. Era nobre, rico e latifundiário. E tem de dizer-se que aproveitou na sua juventude todas essas vantagens, tendo vivido uma vida marcada pela sensualidade e pelo excesso. Gradualmente, porém, essa sua natureza foi sendo por si combatida, à medida que ia descobrindo, primeiro, o peso de existir e, depois, o caminho para o que lhe parecia ser o verdadeiro modo de viver. Os seus diários e as muitas biografias que sobre ele têm sido escritas, ilustram bem não ter esse caminho sido isento de dificuldades, quer interiores, quer exteriores. Com efeito, não só não era fácil a Tolstói dominar a sua natureza (que o chamava para excessos de toda a ordem), como as suas opções de vida no sentido de um despojamento material, estiveram longe de merecer consenso, quer seu seio familiar, quer no âmbito da sociedade russa. No que diz respeito à primeira, basta lermos o retrato feito por Jay Parini, em A última estação – O último ano da vida de Tolstói, Editorial Presença, 1990, para nos apercebermos das dificuldades da sua vida familiar e conjugal. Quanto à segunda é suficiente recordar a excomunhão de Leão Tolstói, pois apesar do seu cristianismo fervoroso, recusou reconhecer qualquer autoridade à Igreja. Este mal-estar não está ainda inteiramente debelado, pois em Janeiro deste ano, numa reportagem publicada na edição on-line do New York Times (datada de 03/01/2011) os seus herdeiros salientavam terem as cerimónias do centésimo aniversário da sua morte sido marcadas por uma discrição não inteiramente consentânea com a notoriedade de que o mesmo ainda hoje goza.
            Independentemente dos tormentos da vida de Tolstói é inequívoco que o sofrimento interior porque foi passando teve reflexos na sua obra. A morte de Ivan Ilitch (um exemplo de como um livro muito pequeno em volume pode ser enorme no conteúdo) foi escrito no seguimento de um período de angústia particularmente intensa de Tolstói. Subjacente à novela está a constatação da inevitabilidade da morte. E perante tal constatação, a pergunta subsequente: se não fico aqui para sempre, como hei-de viver?
            Para Ivan Ilitch a pergunta é já feita quase em retrospectiva. Acompanhamos a personagem na parte final da sua vida, após lhe ter sido diagnosticada doença grave e da qual sente não ir recuperar.
            Ivan Ilitch não é um mau homem. Em todo o livro, não encontramos um único episódio de onde resulte que prejudicou, muito menos de forma voluntária, alguém. Pelo contrário, a sua vida segue os parâmetros de normalidade, sendo as suas opções pessoais marcadas pela aderência ao que o senso comum dita.
E, no entanto, quando a morte se lhe anuncia, Ivan Ilitch compreende ter vivido mal. Cada leitor tem a sua interpretação. Mas, a meu ver, são duas as falhas essenciais de Ilitch. Por um lado, a vaidade em si próprio, conducente a uma ilusão de auto-suficiência. Por outro, o facto de ter vivido a sua vida sem nunca a enfrentar realmente. Tolstói tem a mestria de nos fazer conhecer a vida da sua personagem em poucas páginas. E percebemos que todas as vezes que lhe surgiram dificuldades nas grandes e pequenas horas da vida, Ilitch escolheu arrepiar caminho, fingir que não vi a continuar com a sua navegação perto da costa. Sem nunca se aventurar no desconhecido. Foi assim com a sua carreira, com a escolha da esposa, com o casamento, com os filhos. Nunca se comprometeu, nunca saiu de si, nunca se entregou.
            E por isso, no final da vida, três choques. O primeiro, a constatação de que tendo conduzido a sua vida de forma consentânea com as regras sociais do bom viver (e na sua essência, não apenas na aparência), não lhe conferiu um sentido próprio (pág. 96: “Talvez eu não tenha vivido como devia – ocorreu-lhe de súbito. Mas como, se fiz tudo como deve ser?,  disse para si mesmo e imediatamente afastou essa única solução de todo o mistério da vida e da como coisa completamente impossível”). O segundo, perceber que está rodeado de pessoas iguais a si próprio, montando à sua volta um teatro em que negam a gravidade da doença que o acometeu (não por compaixão para com ele, ao menos na sua perspectiva, mas para comodismo pessoal). O terceiro, compreender que tendo fugido sempre da vida, no seu momento final (que é longo, pois a sua doença não concedeu um fim instantâneo), já não se lhe pode escapar. No final, o moribundo Ivan Ilitch tem um momento de reconciliação consigo mesmo e com a morte. Mas Leão Tolstói manteve-se fiel aos seus ideais e à constatação por si feita de que a procura do que julgamos ser o verdadeiro caminho não é fácil. Por isso, não nos permite encerrar o livro com o conforto de pensarmos ter Ivan Ilitch no meio da sua agonia, encontrado um sentido para a forma que deu à sua existência. Essa foi a oportunidade que a personagem recusou sempre e o seu final é inteiramente coerente com a sua opção. Sem concessões.
      Dom Quixote, Booket, 2007

O silêncio do mar, Vercors

Há algumas noites atrás reli O silêncio do mar, livro escrito no decurso da II Guerra Mundial por Vercors (pseudónimo de Jean Bruller), ilustrador e escritor francês, que integrou a Resistência gaulesa durante aquele conflito. Trata-se de um pequeno livro onde se narra a história dos longos meses de convívio do narrador e sua neta com um oficial das SS, Werner von Ebbrenec. O oficial é músico de formação e vai ocupar uma parte da casa dos franceses. Estes, não podendo resistir de forma activa, opõem-se-lhe como podem. Com o silêncio, com o qual procuram fazer-lhe sentir o protesto pelo modo como a sua casa e o seu país estão ocupados.
Gradualmente, porém, a indiferença com que com ele lidam torna-se falsa. À medida que os dois franceses (tio e sobrinha) vão conhecendo o oficial o seu silêncio é como o do mar. Aparente, pois dentro dele convivem muitos sons, cores e emoções.
Os objectivos imediatos do livro de Vercors são conhecidos. Obra de resistência, nela enaltece-se a cultura francesa e o seu lugar no mundo, ao mesmo tempo que se apela à tradição humanista alemã. Não por acaso, von Ebbrennec é não apenas um músico, mas também um homem apaixonado pela cultura e literatura francesas. Num primeiro momento, parece também curiosamente ingénuo ao acreditar que da guerra nascerá uma aliança entre a França e a Alemanha. Mas a ingenuidade com que a figura do oficial é construída é apenas aparente. Com efeito, mesmo antes da sua licença de duas semanas em Paris, não pode deixar de reflectir-se na comparação por ele feita entre a Alemanha e a França, por um lado, e a história de A bela e o monstro, por outro (vide pág. 27 “O monstro tem-na à sua mercê, impotente e prisioneira, e, a todo o momento lhe impõe a sua implacável e pesada presença … A Bela é altiva, digna, fez-se dura. Mas o Monstro é melhor do que aparenta. Oh! Não é muito civilizado! É desajeitado, violento, e, ao pé da Bela tão requintada, parece muito grosseiro! … Mas tem um coração, sim, tem uma alma que aspira a engrandecer-se. Se a Bela quisesse! … A Bela demora muito tempo a querer. Contudo, pouco a pouco, no fundo dos olhos do carcereiro  odiado, descobre um clarão – um reflexo onde pode ler-se a súplica e o amor.”)
A delicadeza deste oficial alemão é de tal que o mesmo aceita a posição dos seus anfitriões, visitando-os noite após noite, lançando palavras que sabe não terão resposta. A atribuição desta postura a um oficial das SS é, creio, caso único na literatura e contrasta fortemente com outros retratos deles feitos (por exemplo, Um apartamento em Atenas, de Glenway Wescott, Relógio d’Água, 2008).
A visão idílica transmitida pelo jovem oficial sofre um rude golpe após ter gozado uma licença de duas semanas em Paris. É então forçado a reconhecer perante si mesmo e junto dos seus anfitriões que os planos por si traçados para o futuro franco-alemão são uma fantasia desmentida de forma evidente pela realidade. Confrontado com esta e a desilusão subsequente, Vercors reserva-lhe uma saída honrosa, ir para a frente de combate. Podemos interrogar-nos do porquê desta solução narrativa, pois outras poderiam ser equacionadas (se a deserção parece fora de causa, atendendo às características pessoais e história familiar do oficial, já o mesmo não poderá dizer-se de uma eventual aproximação à resistência alemã).
Mas, na perspectiva da leitura da história, assume-se como mais interessante analisar o que von Ebrennec espera como contrapartida da confissão do seu erro junto dos seus anfitriões. E o que von Ebrennec pretende é o reconhecimento da sua individualidade como ser humano, para além das pátrias, como alguém que pela sua cultura e sentimentos merece ser distinguido pelos seus anfitriões. Não por ser oficial das SS, mas apesar de ser oficial das SS. Esse reconhecimento apenas pode resultar da quebra do silêncio que os mesmos lhe reservaram durante meses. Esse passo não é dado pelo narrador, em relação ao qual sabemos ter-se quebrado já a resistência interior contra o jovem oficial, apenas persistindo no silêncio por solidariedade com a sua neta. É, pois, esta quem ouvimos dirigir ao militar de partida a primeira e última palavra que ouvirá naquela casa (“Adeus”). Não houve entre os dois qualquer clima amoroso (pág. 21 “Enquanto falava, olhava para a minha sobrinha. Não como um homem olha uma mulher, mas uma estátua”). Esta despedida traduz algo mais vasto dando-nos uma visão daquilo que nos redime como seres humanos. A despedida é, na verdade, um encontro. O reconhecimento de que, para além do que é acidental, permanece em nós um lado essencial que nos une, enquanto nos reconhecermos.
Editorial Presença, 5ª edição, 1999
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quarta-feira, 14 de setembro de 2011

A Boa Vida, Jay McInermey

“Como é que havemos de conseguir confiar no nosso julgamento quando o nosso sentido de proporção e equilíbrio foi abalado, que o corpo dominador que normalmente controla as nossas emoções foi deposto, e a anarquia ameaça rebentar a qualquer momento? Numa altura em que podemos estar arrebatados pelas lágrimas por nenhuma razão aparente, o que significaria se a visão de um determinado rosto pudesse animar-nos e fazer-nos acreditar que o que nos resta vale a pena preservar? Ou que podia ir tudo para o Inferno, tudo menos nós e ela?”     (pág. 192)
            “A Boa Vida” é uma história de amor entre um homem e uma mulher nova-iorquinos no rescaldo dos atentados de 11/09/2001.É também uma história sobre as perdas que vamos sofrendo todos os dias sem dar conta e as que nos atingem de uma só vez. E sobre o momento em que deixamos de ter em nós a coragem para reverter o que a vida nos traz.
A história tem início pouco antes de 11 de Setembro de 2011. Acompanhamos a vida de duas personagens, Corrine Calloway e Luke McGavock. Cada um deles tem a sua própria família, sendo casados e tendo filhos. São personagens de meia-idade. Desde o início percebe-se que não sendo infelizes, também não são felizes.
As duas personagens conhecem-se depois dos atentados de 11 de Setembro. A história de amor que vivem constitui o tema central do livro, tendo como elemento contextualizador os efeitos daqueles atentados nos nova-iorquinos.
O livro começa por pôr em relevo o medo sentido pelos nova-iorquinos após o 11 de Setembro, tendo compreendido que o mundo seguro até então conhecidos estava a desaparecer. Cria-se então um estado de excepção, quer do ponto de vista da organização social, quer no plano interior das personagens. Este espaço poderia ser entendido de duas formas: a) como uma moratória, um tempo em que tudo é possível; b) a constatação de que não somos eternos, sendo a “campainha” para procurar realizar-se.
Do ponto de vista social, a reorganização sente-se quer numa abertura aos demais nova-iorquinos, quer numa alteração da escala social. Quanto a este último aspecto, os membros das forças de segurança passam a ser mais valorizados, em particular os que estão envolvidos nas operações de resgate e limpeza na sequência dos atentados. Também à luz do 11/09, as personagens principais ganham uma renovada percepção das falhas e insuficiências das suas vidas. Inevitavelmente, são as falhas relacionais que assumem importância, em particular a escolha amorosa, um dos grandes temas da experiência humana.
Assistimos à constatação da crise matrimonial. No entanto, da mesma forma que os efeitos do 11 de Setembro na cidade apenas de modo colateral surgem no livro (só temos consciência deles pelo envolvimento de Luke e Corrine nas operações de alimentação dos trabalhadores e pela reminiscência de um ou outro amigo desaparecido nos atentados), o desgaste dos relacionamentos amorosos de cada um dos casais também não é aprofundado. No fundo, o Autor parece imputá-los ao decurso do tempo, afastamento dos cônjuges e natureza humana, lugares comuns nesta situação.
A paixão, a busca do amor, o reencontro com a família e os valores de juventude (no fundo opondo a cosmopolita NY, onde nada é o que parece, à América real) são temas desenvolvidos no livro, à medida que a acção avança. Nessa medida a leitura é apelativa. A singularidade do contexto em que Jay McIrnerney escreve não obsta a que o leitor se sinta próximo da narrativa, não sendo difícil imaginar a história descrita como podendo ocorrer entre pessoas suas conhecidas.
A parte final do romance não é, todavia, a meu ver, totalmente convincente. Quando as duas personagens principais se encontram com as respectivas famílias, na récita do Quebra-Nozes, não são colocadas perante um facto novo. Ambos sabiam serem casados e terem filhos. E sabiam também que apesar das aparências não eram felizes com os respectivos casamentos. Fica, então, por explicar, a decisão tomada por Luke de abdicar do amor que sente por Corrine. É certo que já antes a personagem havia concluído que amar não se confunde com querer ou desejar, podendo ser, em certos momentos, abdicar. Mas a cena com que encerra o livro não traduz uma abdicação por amor. Luke vê no rosto de Corrine a desilusão. E a própria Corrine não é facilmente explicável – como compreender a persistência ao lado de um homem que a traiu e, na prática, se impôs fisicamente a ela? Aliás, há uma passagem do livro na sequência desse último episódio em que ela pensa como é fácil ser simpática para Russell agora que o odeia.
Nesta perspectiva, não posso deixar de pensar que existe uma certa precipitação no modo como o livro termina. Quando um autor coloca duas personagens a viver uma história de amor plena (“ela era a sua alma gema”), não pode depois inflectir o rumo dos acontecimentos de modo abrupto e inesperado. Poderá pensar-se ter McInermey pretendido retratar a superficialidade da sociedade nova-iorquina. Contudo, tendo em atenção a evolução e características das personagens, penso que existe nelas uma falta de densidade interior, tornando o final pouco coerente com o que vinha sendo o fio da história.
De qualquer modo, pretendesse o autor demonstrar a superficialidade da sociedade nova-iorquina ou resulte o fim do livro de alguma precipitação, certo é que terminamos a leitura com o amargo de boca. Mas, claro, esse é também a tarefa de qualquer obra literária.
Editora Teorema, 2006
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Onze, Mark Watson

Onze é o terceiro romance de Mark Watson, mas o primeiro a ser publicado entre nós. Watson nasceu em Bristol numa família de ascendência escocesa a13 de Fevereiro de 1980. Para além de escritor é comediante de stand-up.
            O livro agora editado em Portugal é uma obra de ficção que tem como público alvo a ampla categoria de leitores definível como “adultos urbanos contemporâneos”. Quando começamos a lê-lo temos a sensação de que a história narrada poderia acontecer a um dos nossos amigos.
            O protagonista da narrativa é Xavier Ireland, locutor de rádio. No entanto, o livro pretende ser uma “narrativa em cadeia”. Isto é, o autor pretende mostrar como, para lá do anonimato característico da experiência citadina, as nossas vidas, tocam-se de modo para nós insuspeitável (“(…) Talvez tivesse continuado por mais quinze anos, odiando aquilo que fazia, talvez tivesse desistido à mesma no dia seguinte, mas foi aquele o momento, porque Roger ficou irritado com a sua ida à casa de banho, devido ao facto de estar zangado por causa de uma mensagem enviada por engano por causa de um telemóvel pouco familiar, usado porque outro telemóvel foi roubado, porque um rapaz foi despedido depois de um acesso de raiva provocado por uma má crítica, alimentada pela raiva sentida diante de uma agressão que Xavier não impediu naquele dia frio, algumas semanas antes. (…)”, pág. 141).
            Onze é escrito de modo informal, fluído e claro, sendo de leitura fácil. À medida que o vamos lendo somos confrontados com acontecimentos exteriores às personagens. Mas, um dos méritos de Mark Watson consiste em permitir-nos acompanhar o pensamento e as emoções do protagonista (por exemplo, quanto ao seu relacionamento com outras personagens, como Murray e Gemma ou quanto ao seu passado).
            Isto dito, a dificuldade em escrever um livro que acompanha o quotidiano de um conjunto de personagens que, de facto, não se conhecem entre si é inegável, sobretudo se tivermos em atenção que não estamos perante uma obra muito grande (263 páginas). No livro surgem personagens como Maggie Reiss, Julius ou Gemma, que apenas vislumbramos. Mas o autor encontra uma solução narrativa interessante e divertida, fazendo-nos uma sinopse dos principais aspectos do seu futuro, antes dela sair da acção.
            O episódio com que o livro termina pode parecer a alguns leitores um lugar comum (o fim abrupto é um recurso estilístico que se vai tornando habitual na literatura actual). Só por si não decorre daí qualquer mal. Em primeiro lugar, porque a vida real está cheia de lugares comuns, apesar da singularidade vivencial de cada um de nós. Em segundo lugar porque o incidente vivido por Xavier Ireland no final do livro parece funcionar como uma redenção para o mesmo. Com efeito, tendo em atenção os acontecimentos relatados em momento anterior do livro envolvendo o protagonista da acção e o bebé dos seus amigos, a sua actuação no caso final traduz a possibilidade de um novo começo para Xavier Ireland. Por último, porque as consequências do incidente com que o livro termina ficam em aberto, sujeitas à interpretação do leitor. Pela minha parte, essa indefinição, aliada ao facto de outras personagens que se cruzaram com Xavier Ireland terem ficado igualmente em suspenso (como Tamara, Mel ou Julius) permite pensar mesmo na possibilidade de Onze ter uma continuação.
            Mas mesmo que isso não suceda, dei por bem empregue o tempo passado a ler este livro. É uma ficção contemporânea bem construída e, apesar de ter momentos dramáticos, é também um livro bem-humorado, mostrando, sem sarcasmos, a riqueza da experiência humana.
            Porto Editora,2011