quarta-feira, 14 de setembro de 2011

A Boa Vida, Jay McInermey

“Como é que havemos de conseguir confiar no nosso julgamento quando o nosso sentido de proporção e equilíbrio foi abalado, que o corpo dominador que normalmente controla as nossas emoções foi deposto, e a anarquia ameaça rebentar a qualquer momento? Numa altura em que podemos estar arrebatados pelas lágrimas por nenhuma razão aparente, o que significaria se a visão de um determinado rosto pudesse animar-nos e fazer-nos acreditar que o que nos resta vale a pena preservar? Ou que podia ir tudo para o Inferno, tudo menos nós e ela?”     (pág. 192)
            “A Boa Vida” é uma história de amor entre um homem e uma mulher nova-iorquinos no rescaldo dos atentados de 11/09/2001.É também uma história sobre as perdas que vamos sofrendo todos os dias sem dar conta e as que nos atingem de uma só vez. E sobre o momento em que deixamos de ter em nós a coragem para reverter o que a vida nos traz.
A história tem início pouco antes de 11 de Setembro de 2011. Acompanhamos a vida de duas personagens, Corrine Calloway e Luke McGavock. Cada um deles tem a sua própria família, sendo casados e tendo filhos. São personagens de meia-idade. Desde o início percebe-se que não sendo infelizes, também não são felizes.
As duas personagens conhecem-se depois dos atentados de 11 de Setembro. A história de amor que vivem constitui o tema central do livro, tendo como elemento contextualizador os efeitos daqueles atentados nos nova-iorquinos.
O livro começa por pôr em relevo o medo sentido pelos nova-iorquinos após o 11 de Setembro, tendo compreendido que o mundo seguro até então conhecidos estava a desaparecer. Cria-se então um estado de excepção, quer do ponto de vista da organização social, quer no plano interior das personagens. Este espaço poderia ser entendido de duas formas: a) como uma moratória, um tempo em que tudo é possível; b) a constatação de que não somos eternos, sendo a “campainha” para procurar realizar-se.
Do ponto de vista social, a reorganização sente-se quer numa abertura aos demais nova-iorquinos, quer numa alteração da escala social. Quanto a este último aspecto, os membros das forças de segurança passam a ser mais valorizados, em particular os que estão envolvidos nas operações de resgate e limpeza na sequência dos atentados. Também à luz do 11/09, as personagens principais ganham uma renovada percepção das falhas e insuficiências das suas vidas. Inevitavelmente, são as falhas relacionais que assumem importância, em particular a escolha amorosa, um dos grandes temas da experiência humana.
Assistimos à constatação da crise matrimonial. No entanto, da mesma forma que os efeitos do 11 de Setembro na cidade apenas de modo colateral surgem no livro (só temos consciência deles pelo envolvimento de Luke e Corrine nas operações de alimentação dos trabalhadores e pela reminiscência de um ou outro amigo desaparecido nos atentados), o desgaste dos relacionamentos amorosos de cada um dos casais também não é aprofundado. No fundo, o Autor parece imputá-los ao decurso do tempo, afastamento dos cônjuges e natureza humana, lugares comuns nesta situação.
A paixão, a busca do amor, o reencontro com a família e os valores de juventude (no fundo opondo a cosmopolita NY, onde nada é o que parece, à América real) são temas desenvolvidos no livro, à medida que a acção avança. Nessa medida a leitura é apelativa. A singularidade do contexto em que Jay McIrnerney escreve não obsta a que o leitor se sinta próximo da narrativa, não sendo difícil imaginar a história descrita como podendo ocorrer entre pessoas suas conhecidas.
A parte final do romance não é, todavia, a meu ver, totalmente convincente. Quando as duas personagens principais se encontram com as respectivas famílias, na récita do Quebra-Nozes, não são colocadas perante um facto novo. Ambos sabiam serem casados e terem filhos. E sabiam também que apesar das aparências não eram felizes com os respectivos casamentos. Fica, então, por explicar, a decisão tomada por Luke de abdicar do amor que sente por Corrine. É certo que já antes a personagem havia concluído que amar não se confunde com querer ou desejar, podendo ser, em certos momentos, abdicar. Mas a cena com que encerra o livro não traduz uma abdicação por amor. Luke vê no rosto de Corrine a desilusão. E a própria Corrine não é facilmente explicável – como compreender a persistência ao lado de um homem que a traiu e, na prática, se impôs fisicamente a ela? Aliás, há uma passagem do livro na sequência desse último episódio em que ela pensa como é fácil ser simpática para Russell agora que o odeia.
Nesta perspectiva, não posso deixar de pensar que existe uma certa precipitação no modo como o livro termina. Quando um autor coloca duas personagens a viver uma história de amor plena (“ela era a sua alma gema”), não pode depois inflectir o rumo dos acontecimentos de modo abrupto e inesperado. Poderá pensar-se ter McInermey pretendido retratar a superficialidade da sociedade nova-iorquina. Contudo, tendo em atenção a evolução e características das personagens, penso que existe nelas uma falta de densidade interior, tornando o final pouco coerente com o que vinha sendo o fio da história.
De qualquer modo, pretendesse o autor demonstrar a superficialidade da sociedade nova-iorquina ou resulte o fim do livro de alguma precipitação, certo é que terminamos a leitura com o amargo de boca. Mas, claro, esse é também a tarefa de qualquer obra literária.
Editora Teorema, 2006
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