segunda-feira, 26 de setembro de 2011

A Capital, Eça de Queirós

            Tenho-me interrogado sobre o porquê do meu entusiasmo com A Capital de Eça de Queirós. O livro não é considerado uma das grandes obras deste romancista. Na verdade, foi concluído e publicado pelo seu filho, já após a morte de Eça.
          Claro que haverá muitas razões para explicar este entusiasmo. E pode sempre lançar-se mão do velho aforismo de Pascal “o coração tem razões que a razão desconhece”.
          Será assim. Mas há uns dias atrás quando, após uma conversa entre amigos, dei por mim a reler A Capital percebi que o que ressalta da obra é a humanidade de Artur Corvelo.
Artur (depois de tantos anos, sinto não ser preciso identificá-lo pelo nome completo) é um jovem da província, criado por duas velhas tias. Sonhador e romântico não tem senão um desejo – triunfar no meio intelectual e social lisboeta, que imagina culto e sofisticado, por oposição ao meio rural onde se encontra inserido concluídos os seus estudos em Coimbra.
A Capital é a narração plena de ironia das aventuras e desventuras de Artur à medida que vai tentando encontrar o seu lugar em Lisboa. Crítica feroz (e talvez excessiva) à sociedade lisboeta, bem como à educação romântica, através desta obra Eça pretendeu criticar os vícios que reconhecia àquelas. Durante a sua estadia em Lisboa, Artur vai travando conhecimento com diversas personagens.
Em comum, todos eles têm o reconhecimento da ingenuidade de Artur e a decisão, mais ou menos consciente, de dela tirar proveito. Apenas uma das personagens (Jácome Nazareno, membro do movimento republicano) se relaciona com Artur de modo sério e sem segundas intenções. Mas também esta ligação acaba por revelar-se frágil e incompatível com as pretensões de ascensão artística e social que Artur traz em si.
A narrativa queirosiana é cruel no modo como retrata a sociedade lisboeta e a forma como a mesma acolhe Artur Corvelo. Contudo, o estilo irónico a que Eça recorre conduz a que não raras vezes o leitor, ao mesmo tempo que se condói das desventuras de Artur se ria com as mesmas. Um bom exemplo disso é o episódio do “jantar literário” pago por Artur e oferecido pelos seus “amigos” lisboetas para o apresentar ao que hoje seriam aos membros do beautiful people do nosso burgo.
O estilo narrativo é aquele a que Eça nos habituou – elegante, fluente, claro. O romance respeita a forma clássica e é de leitura fácil e escorreita.
Trata-se de um clássico da literatura portuguesa cuja fluidez e plasticidade narrativas não podem deixar de cativar quem o lê. É ainda impressionante constatar como a sociedade que Eça descreve se mantém actual. Todos conhecemos, directa ou indirectamente, pessoas que se inserem nos tipos sociais descritos por Eça e sabemos da existência de muitos Artur Corvelo por aí.
Pena é que Artur não tenha percebido aquilo que quem lê o livro entende. De todas as pessoas que conheceu, ele é, apesar dos seus deslumbramentos e fraquezas, o melhor. Essencialmente porque é um homem bom. E a partir de determinado momento na acção percebemos ser a sua bondade e não tanto a ingenuidade, o que o distingue dos que rodeiam em Lisboa.
          Ed. Livros do Brasil



Sem comentários:

Enviar um comentário