segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Leituras ao Luar - Como os livros salvaram uma vida, Brenda Walker

“Era isto o que eu mais desejava, desde que me foi descoberto o cancro: calma, poder estar sentada à minha mesa e, acima de tudo, ter tempo para criar o meu filho. Queria mais, é claro, em especial, livros: todos os livros que tivesse vontade de ler no futuro e os livros que imaginei que iria escrever. Tudo isto é banal e, todavia, tantas coisas tiveram de acontecer, durante tanto tempo, até que eu pudesse recomeçar a sentar-me aqui, de manhã cedo, e cumprir a minha velha e agradável rotina, com um corpo que nunca esperei ter.” (pág. 188)
            Como todos os que gostam de livros sabem, a leitura vem acompanhada de vários outros prazeres, insuspeitos para os que não se deixam prender pelo mistério das letras. Passear em livraras ou conversar sobre livros com outros “iniciados”, são dois dos mais comuns. Um outro consiste em ler livros sobre livros. Na verdade, neste género é possível distinguir várias categorias: os livros que analisam outros livros (Ler Lolita em Teerão, de Azar Nafisi, Lisboa, 2004), os livros que ficcionam histórias tendo outros livros ou a leitura como assunto principal (O nome da Rosa, de Umberto Eco) ou as memórias de leitura. Nesta última categoria são várias as formas de aproximação ao tema. Henry Miller deu-nos “Os livros da minha vida(Antígona, Março de 2006) onde, como o próprio título indica, disserta sobre as obras que mais o marcaram. Num registo diferente Susan Hill decide dar conta de uma aventura que todos os leitores prometem levar a cabo: ler os livros comprados que se vão amontoando para “um dia serem lidos”. Howards End is on the landing (Profile Books, 2009) narra um ano na vida da escritora em que a mesma decide ler os livros que foram ganhando lugar cativo na prateleira à espera do momento certo. Pelo caminho, vamos conhecendo alguns dos livros que mais a marcaram, bem como as suas opiniões sobre a leitura e os que a praticam (abordando questões clássicos como a de nunca haver tempo para ler tudo o que se pretende e a distinção entre a literatura clássica e os livros ditos “leves”).
            Leituras ao Luar é também uma memória de leituras. Atraiu-me porque sempre tive grandes dúvidas sobre a frase atribuída a Chateaubriand segundo o qual nunca tivera nenhum desgosto que não se curasse após algumas horas na sua biblioteca. Não sei se a frase é verdadeira, mas a ser, sempre me pareceu que ou Chateaubriand nunca tinha tido grandes desgostos ou tinha, efectivamente, uma grande biblioteca.
E o que tem isto a ver com Leituras ao Luar? Brenda Walker é uma escritora e professora de literatura australiana a quem foi diagnosticado um cancro na mama. O livro Leituras ao Luar relata o percurso entre o momento em que lhe foi diagnosticada a doença e a sua recuperação, bem como os livros que escolheu para a acompanharem nesses processo. Este livro recebeu o Victorian Premier’s Awards, Nettie Palmer (não ficção) e foi seleccionado para o Queensland Premier’s Literary Awards.
A obra está dividida em capítulos que obedecem à lógica da luta contra a doença (Cirurgia, Quimioterapia, Radioterapia, Reconstrução, Sobrevivência). A escrita é contida e depurada. Mas isso não obsta a que nos apercebamos da dor e fragilidade sentidas pela escritora ao longo da sua doença. Walker não se esconde atrás dos livros. Nem o poderia fazer, pois os livros, quanto muito, apenas permitem um intervalo daquela (e não são todos, claro). As múltiplas referências aos livros que foi escolhendo para a acompanharem nas várias fases da luta contra o cancro (onde se incluem escolhas curiosas como Malone está a morrer, de Becket) não obsta a que descreva a doença, o modo como lidou com ela e a forma como a sua família, amigos e colegas foram reagindo. Por todo o livro perpassa a constatação da nossa mortalidade, algo que esquecemos enquanto vivemos a rotina das nossas vidas, mas que surge penosamente evidente nos momentos de crise (como a doença ou, num paralelismo feito no livro, a guerra).
O que torna o livro particularmente interessante é o modo como a escritora enlaça o relato sobre a realidade da sua doença com as considerações sobre os livros que a vão acompanhando ao longo de todos o processo de luta contra aquela.         
           Ao mesmo tempo que nos descreve a sua rotina de consultas, as dificuldades em adaptar-se ao novo corpo e a alegria de poder voltar aos prazeres simples da existência, a autora surpreende-nos com uma nova perspectiva de Ana Karenina de Leão Tolstói ou com as suas impressões sobre a História de Gengi de Murasaki. Acima de tudo, quando terminamos a leitura ficamos com a certeza de que, não nos podendo esconder nos livros e sendo (como a autora lucidamente escreve) toda a sobrevivência provisória, Walker encontrou de facto não apenas companhia, mas também consolo e força, para ultrapassar a sua doenças, nos livros que já acompanharam ao longo da vida já vivida.    
         O que é um consolo, porque nunca podemos adivinhar as batalhas que nos esperam. E embora tenha para mim que há desgostos que nenhuma biblioteca pode curar, parece-me ainda assim animador poder contar com alguns livros para os apaziguar. 
          Estrela Polar, 2011

1 comentário:

  1. apaziguam, sem dúvida... e ainda fortalecem amizades quando discutidos à volta de chá e bolinhos :)

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