quinta-feira, 15 de setembro de 2011

A morte de Ivan Ilitch, Lev Tolstói


 Poucas figuras literárias suscitam tanta curiosidade como Leão Tolstói. Nascido no século XIX na Rússia, trazia em si todas as vantagens inerentes ao nascimento. Era nobre, rico e latifundiário. E tem de dizer-se que aproveitou na sua juventude todas essas vantagens, tendo vivido uma vida marcada pela sensualidade e pelo excesso. Gradualmente, porém, essa sua natureza foi sendo por si combatida, à medida que ia descobrindo, primeiro, o peso de existir e, depois, o caminho para o que lhe parecia ser o verdadeiro modo de viver. Os seus diários e as muitas biografias que sobre ele têm sido escritas, ilustram bem não ter esse caminho sido isento de dificuldades, quer interiores, quer exteriores. Com efeito, não só não era fácil a Tolstói dominar a sua natureza (que o chamava para excessos de toda a ordem), como as suas opções de vida no sentido de um despojamento material, estiveram longe de merecer consenso, quer seu seio familiar, quer no âmbito da sociedade russa. No que diz respeito à primeira, basta lermos o retrato feito por Jay Parini, em A última estação – O último ano da vida de Tolstói, Editorial Presença, 1990, para nos apercebermos das dificuldades da sua vida familiar e conjugal. Quanto à segunda é suficiente recordar a excomunhão de Leão Tolstói, pois apesar do seu cristianismo fervoroso, recusou reconhecer qualquer autoridade à Igreja. Este mal-estar não está ainda inteiramente debelado, pois em Janeiro deste ano, numa reportagem publicada na edição on-line do New York Times (datada de 03/01/2011) os seus herdeiros salientavam terem as cerimónias do centésimo aniversário da sua morte sido marcadas por uma discrição não inteiramente consentânea com a notoriedade de que o mesmo ainda hoje goza.
            Independentemente dos tormentos da vida de Tolstói é inequívoco que o sofrimento interior porque foi passando teve reflexos na sua obra. A morte de Ivan Ilitch (um exemplo de como um livro muito pequeno em volume pode ser enorme no conteúdo) foi escrito no seguimento de um período de angústia particularmente intensa de Tolstói. Subjacente à novela está a constatação da inevitabilidade da morte. E perante tal constatação, a pergunta subsequente: se não fico aqui para sempre, como hei-de viver?
            Para Ivan Ilitch a pergunta é já feita quase em retrospectiva. Acompanhamos a personagem na parte final da sua vida, após lhe ter sido diagnosticada doença grave e da qual sente não ir recuperar.
            Ivan Ilitch não é um mau homem. Em todo o livro, não encontramos um único episódio de onde resulte que prejudicou, muito menos de forma voluntária, alguém. Pelo contrário, a sua vida segue os parâmetros de normalidade, sendo as suas opções pessoais marcadas pela aderência ao que o senso comum dita.
E, no entanto, quando a morte se lhe anuncia, Ivan Ilitch compreende ter vivido mal. Cada leitor tem a sua interpretação. Mas, a meu ver, são duas as falhas essenciais de Ilitch. Por um lado, a vaidade em si próprio, conducente a uma ilusão de auto-suficiência. Por outro, o facto de ter vivido a sua vida sem nunca a enfrentar realmente. Tolstói tem a mestria de nos fazer conhecer a vida da sua personagem em poucas páginas. E percebemos que todas as vezes que lhe surgiram dificuldades nas grandes e pequenas horas da vida, Ilitch escolheu arrepiar caminho, fingir que não vi a continuar com a sua navegação perto da costa. Sem nunca se aventurar no desconhecido. Foi assim com a sua carreira, com a escolha da esposa, com o casamento, com os filhos. Nunca se comprometeu, nunca saiu de si, nunca se entregou.
            E por isso, no final da vida, três choques. O primeiro, a constatação de que tendo conduzido a sua vida de forma consentânea com as regras sociais do bom viver (e na sua essência, não apenas na aparência), não lhe conferiu um sentido próprio (pág. 96: “Talvez eu não tenha vivido como devia – ocorreu-lhe de súbito. Mas como, se fiz tudo como deve ser?,  disse para si mesmo e imediatamente afastou essa única solução de todo o mistério da vida e da como coisa completamente impossível”). O segundo, perceber que está rodeado de pessoas iguais a si próprio, montando à sua volta um teatro em que negam a gravidade da doença que o acometeu (não por compaixão para com ele, ao menos na sua perspectiva, mas para comodismo pessoal). O terceiro, compreender que tendo fugido sempre da vida, no seu momento final (que é longo, pois a sua doença não concedeu um fim instantâneo), já não se lhe pode escapar. No final, o moribundo Ivan Ilitch tem um momento de reconciliação consigo mesmo e com a morte. Mas Leão Tolstói manteve-se fiel aos seus ideais e à constatação por si feita de que a procura do que julgamos ser o verdadeiro caminho não é fácil. Por isso, não nos permite encerrar o livro com o conforto de pensarmos ter Ivan Ilitch no meio da sua agonia, encontrado um sentido para a forma que deu à sua existência. Essa foi a oportunidade que a personagem recusou sempre e o seu final é inteiramente coerente com a sua opção. Sem concessões.
      Dom Quixote, Booket, 2007

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