quinta-feira, 15 de setembro de 2011

O silêncio do mar, Vercors

Há algumas noites atrás reli O silêncio do mar, livro escrito no decurso da II Guerra Mundial por Vercors (pseudónimo de Jean Bruller), ilustrador e escritor francês, que integrou a Resistência gaulesa durante aquele conflito. Trata-se de um pequeno livro onde se narra a história dos longos meses de convívio do narrador e sua neta com um oficial das SS, Werner von Ebbrenec. O oficial é músico de formação e vai ocupar uma parte da casa dos franceses. Estes, não podendo resistir de forma activa, opõem-se-lhe como podem. Com o silêncio, com o qual procuram fazer-lhe sentir o protesto pelo modo como a sua casa e o seu país estão ocupados.
Gradualmente, porém, a indiferença com que com ele lidam torna-se falsa. À medida que os dois franceses (tio e sobrinha) vão conhecendo o oficial o seu silêncio é como o do mar. Aparente, pois dentro dele convivem muitos sons, cores e emoções.
Os objectivos imediatos do livro de Vercors são conhecidos. Obra de resistência, nela enaltece-se a cultura francesa e o seu lugar no mundo, ao mesmo tempo que se apela à tradição humanista alemã. Não por acaso, von Ebbrennec é não apenas um músico, mas também um homem apaixonado pela cultura e literatura francesas. Num primeiro momento, parece também curiosamente ingénuo ao acreditar que da guerra nascerá uma aliança entre a França e a Alemanha. Mas a ingenuidade com que a figura do oficial é construída é apenas aparente. Com efeito, mesmo antes da sua licença de duas semanas em Paris, não pode deixar de reflectir-se na comparação por ele feita entre a Alemanha e a França, por um lado, e a história de A bela e o monstro, por outro (vide pág. 27 “O monstro tem-na à sua mercê, impotente e prisioneira, e, a todo o momento lhe impõe a sua implacável e pesada presença … A Bela é altiva, digna, fez-se dura. Mas o Monstro é melhor do que aparenta. Oh! Não é muito civilizado! É desajeitado, violento, e, ao pé da Bela tão requintada, parece muito grosseiro! … Mas tem um coração, sim, tem uma alma que aspira a engrandecer-se. Se a Bela quisesse! … A Bela demora muito tempo a querer. Contudo, pouco a pouco, no fundo dos olhos do carcereiro  odiado, descobre um clarão – um reflexo onde pode ler-se a súplica e o amor.”)
A delicadeza deste oficial alemão é de tal que o mesmo aceita a posição dos seus anfitriões, visitando-os noite após noite, lançando palavras que sabe não terão resposta. A atribuição desta postura a um oficial das SS é, creio, caso único na literatura e contrasta fortemente com outros retratos deles feitos (por exemplo, Um apartamento em Atenas, de Glenway Wescott, Relógio d’Água, 2008).
A visão idílica transmitida pelo jovem oficial sofre um rude golpe após ter gozado uma licença de duas semanas em Paris. É então forçado a reconhecer perante si mesmo e junto dos seus anfitriões que os planos por si traçados para o futuro franco-alemão são uma fantasia desmentida de forma evidente pela realidade. Confrontado com esta e a desilusão subsequente, Vercors reserva-lhe uma saída honrosa, ir para a frente de combate. Podemos interrogar-nos do porquê desta solução narrativa, pois outras poderiam ser equacionadas (se a deserção parece fora de causa, atendendo às características pessoais e história familiar do oficial, já o mesmo não poderá dizer-se de uma eventual aproximação à resistência alemã).
Mas, na perspectiva da leitura da história, assume-se como mais interessante analisar o que von Ebrennec espera como contrapartida da confissão do seu erro junto dos seus anfitriões. E o que von Ebrennec pretende é o reconhecimento da sua individualidade como ser humano, para além das pátrias, como alguém que pela sua cultura e sentimentos merece ser distinguido pelos seus anfitriões. Não por ser oficial das SS, mas apesar de ser oficial das SS. Esse reconhecimento apenas pode resultar da quebra do silêncio que os mesmos lhe reservaram durante meses. Esse passo não é dado pelo narrador, em relação ao qual sabemos ter-se quebrado já a resistência interior contra o jovem oficial, apenas persistindo no silêncio por solidariedade com a sua neta. É, pois, esta quem ouvimos dirigir ao militar de partida a primeira e última palavra que ouvirá naquela casa (“Adeus”). Não houve entre os dois qualquer clima amoroso (pág. 21 “Enquanto falava, olhava para a minha sobrinha. Não como um homem olha uma mulher, mas uma estátua”). Esta despedida traduz algo mais vasto dando-nos uma visão daquilo que nos redime como seres humanos. A despedida é, na verdade, um encontro. O reconhecimento de que, para além do que é acidental, permanece em nós um lado essencial que nos une, enquanto nos reconhecermos.
Editorial Presença, 5ª edição, 1999
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3 comentários:

  1. Acabo de assistir ao filme, e este seu comentário foi esclarecedor, somou....Obrigada!

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  2. Li este livro talvez há 20 anos e quero relê-lo. Por isso o procurei porque não o tenho. Foi um livro importante para mim. E agora, que já li "As Benevolentes", uma nova leitura do "Slêncio do Mar" será, decerto, feita com outro olhar, outro entendimento.

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  3. Muito bons os seus comentários. Onde posso encontrar o livro? Eu conhecia o filme de 2004 e assisti, recentemente, à primeira versão de 1949. Esta, sim, é baseada unicamente no livro "Le Silence de la Mer". A versão de 2004 é baseada nesse livro e num outro - "Ce Jour-là" - também de Vercors, editado em 1943. Este romance conta a história do casal da Resistência, pais do garoto que fala sobre o vaso de gerânio na janela. O diretor, assim, compôs um roteiro único.

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