quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Onze, Mark Watson

Onze é o terceiro romance de Mark Watson, mas o primeiro a ser publicado entre nós. Watson nasceu em Bristol numa família de ascendência escocesa a13 de Fevereiro de 1980. Para além de escritor é comediante de stand-up.
            O livro agora editado em Portugal é uma obra de ficção que tem como público alvo a ampla categoria de leitores definível como “adultos urbanos contemporâneos”. Quando começamos a lê-lo temos a sensação de que a história narrada poderia acontecer a um dos nossos amigos.
            O protagonista da narrativa é Xavier Ireland, locutor de rádio. No entanto, o livro pretende ser uma “narrativa em cadeia”. Isto é, o autor pretende mostrar como, para lá do anonimato característico da experiência citadina, as nossas vidas, tocam-se de modo para nós insuspeitável (“(…) Talvez tivesse continuado por mais quinze anos, odiando aquilo que fazia, talvez tivesse desistido à mesma no dia seguinte, mas foi aquele o momento, porque Roger ficou irritado com a sua ida à casa de banho, devido ao facto de estar zangado por causa de uma mensagem enviada por engano por causa de um telemóvel pouco familiar, usado porque outro telemóvel foi roubado, porque um rapaz foi despedido depois de um acesso de raiva provocado por uma má crítica, alimentada pela raiva sentida diante de uma agressão que Xavier não impediu naquele dia frio, algumas semanas antes. (…)”, pág. 141).
            Onze é escrito de modo informal, fluído e claro, sendo de leitura fácil. À medida que o vamos lendo somos confrontados com acontecimentos exteriores às personagens. Mas, um dos méritos de Mark Watson consiste em permitir-nos acompanhar o pensamento e as emoções do protagonista (por exemplo, quanto ao seu relacionamento com outras personagens, como Murray e Gemma ou quanto ao seu passado).
            Isto dito, a dificuldade em escrever um livro que acompanha o quotidiano de um conjunto de personagens que, de facto, não se conhecem entre si é inegável, sobretudo se tivermos em atenção que não estamos perante uma obra muito grande (263 páginas). No livro surgem personagens como Maggie Reiss, Julius ou Gemma, que apenas vislumbramos. Mas o autor encontra uma solução narrativa interessante e divertida, fazendo-nos uma sinopse dos principais aspectos do seu futuro, antes dela sair da acção.
            O episódio com que o livro termina pode parecer a alguns leitores um lugar comum (o fim abrupto é um recurso estilístico que se vai tornando habitual na literatura actual). Só por si não decorre daí qualquer mal. Em primeiro lugar, porque a vida real está cheia de lugares comuns, apesar da singularidade vivencial de cada um de nós. Em segundo lugar porque o incidente vivido por Xavier Ireland no final do livro parece funcionar como uma redenção para o mesmo. Com efeito, tendo em atenção os acontecimentos relatados em momento anterior do livro envolvendo o protagonista da acção e o bebé dos seus amigos, a sua actuação no caso final traduz a possibilidade de um novo começo para Xavier Ireland. Por último, porque as consequências do incidente com que o livro termina ficam em aberto, sujeitas à interpretação do leitor. Pela minha parte, essa indefinição, aliada ao facto de outras personagens que se cruzaram com Xavier Ireland terem ficado igualmente em suspenso (como Tamara, Mel ou Julius) permite pensar mesmo na possibilidade de Onze ter uma continuação.
            Mas mesmo que isso não suceda, dei por bem empregue o tempo passado a ler este livro. É uma ficção contemporânea bem construída e, apesar de ter momentos dramáticos, é também um livro bem-humorado, mostrando, sem sarcasmos, a riqueza da experiência humana.
            Porto Editora,2011


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