sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Sábado, Ian Mcewan

Nas suas Histórias, Heródoto relata o episódio do rei cretense que se orgulhava da felicidade em que vivia e que por todos era reconhecida. O grego conta também como tal felicidade foi destruída com a morte do filho do rei e a queda do seu reino. E conclui que nenhum homem pode dizer ser feliz até ao dia em que morre. Até lá, apenas se pode considerar com sorte.
Durante anos Mcewan ofereceu aos leitores histórias de “digestão” difícil para os mais sensíveis. A criança no tempo (estranhamente premonitório de um dos maiores medos de qualquer progenitor contemporâneo), Jardim de Cimento, Cães Pretos ou Estranha Sedução são disso exemplo. Pela minha parte, cada vez que terminei a leitura de qualquer destes livros, perguntava-me “mas porquê ler este escritor?”. O meu sentimento estava longe de ser reacção única. Mcewan foi durante muito tempo conhecido como Ian Macabro à conta dos temas que escolhia para os seu livros.
            Anos mais tarde, retomei-o com Amesterdão e Expiação, apesar de nenhum destes títulos ser uma obra leve. Sábado também não o é. O tema subjacente ao livro é, mais uma vez, o medo. O medo perante aquilo que não controlamos na vida, em rigor tudo ou quase tudo o que é importante na vida. O medo do que nos rodeia, o receio do que está dentro de nós. E a fragilidade da condição humana. A constatação de que tudo o que se construiu uma vida inteira pode ser destruído num minuto. E que a vida não tem de ser justa.
            Não que Henry Perowne seja uma personagem atormentada ou alguém sobre quem caem todas as desgraças do mundo. Perowne é, na verdade, um homem feliz e consciente da sua felicidade. Médico neurocirurgião a residir em Londres, vive com a mulher com quem casou há mais de vinte anos (Rosalind) e por quem continua apaixonado. Têm dois filhos já na idade adulta (Theo, adolescente que se dedica aos blues e Daisy, jovem poetisa à beira de publicar o seu primeiro livro). A vivência familiar é harmoniosa, não existindo fractura geracional entre os Perowne. Não porque os pais se comportem como adolescentes, mas talvez porque cada um se comporta realmente de forma adequada para a idade que tem. Do quadro familiar mais afastado fazem ainda parte a mãe de Perowne (que ele visita, mas que já não o conhece) e o seu sogro, um poeta inglês residente em França. Com este último, Perowne vive uma relação cordial, mas distante, perfeitamente pacificada. A acção acompanha um dia (sábado) na vida de Perowne. À semelhança do que acontece com Mrs. Dalloway de Virgínia Wolf, acompanhamos Perowne no seu dia de folga, dividido entre as interacções familiares e sociais, em preparação de um jantar de reunião familiar (a filha vem de Paris e o sogro do Toulouse).
            Num primeiro momento, o que marca o livro é o contraste entre a harmonia do mundo familiar e a desarmonia exterior, bem como os efeitos que esta última pode ter no nosso pequeno jardim. Na verdade, apenas o mundo exterior ameaça a felicidade de Perowne.
O medo começa a imiscuir-se na história logo na madrugada de sábado. Perowne está no conforto (material e humano) do seu lar em Londres quando vê um avião a cruzar os céus em chamas. Este é um livro do pós-11 de Setembro. A personagem principal não pensa que o avião que se lhe atravessou à frente dos olhos é um acidente. Pensa tratar-se de um atentado e deste modo Mcewan espelha um dos medos comuns ao homem ocidental contemporâneo.
Mas o mundo exterior interpõe-se ainda na vida perfeita de Perowne na sequência de um incidente de trânsito. É deste modo que trava conhecimento com Baxter, um rufião inglês que pretende dar-lhe uma tareia. O incidente de trânsito é apenas um pretexto para que ele e os seus amigos possam descarregar a sua raiva sobre alguém que lhes surge como privilegiado pelo que, percebemos no seu entendimento, não é outro critério se não o aléa da vida. Aliás, o próprio Perowne reflecte sobre a importância do elemento da sorte quando compara as oportunidades da sua filha Daisy com as de uma outra jovem inglesa sua conhecida com a qual se cruza. Mas também Baxter sente o peso da álea da vida, pois sofre de uma doença degenerativa para a qual não há cura. E sabe-o, vivendo com essa amargura.
Todos estes incidentes vão-se amontoando no dia de Perowne, abrindo brechas na sua rotina feliz (pág. 138: A sua manhã tem sido toda uma forma de combate.”), deixando dividido entre o dever (ético, mesmo) de sobre elas reflectir e a vontade de as afastar da sua vida. Isso mesmo é patente nas páginas relativas ao jogo de squash com o colega Jay, em que Pereowne conclui “Tem o direito, tanto neste momento como durante o jogo – é um direito que assiste a toda a gente – de não ser perturbado pelos acontecimentos mundiais, nem sequer por coisas que acontecem na rua.”
            Está enganado. Perowne, como nós, não tem direito ao alheamento perante as incertezas e factores de risco do mundo. E para lhe provar isso mesmo, o “mundo” entra pela sua casa adentro.
            Nessa noite de sábado quando Perowne se reencontra com a família na sua casa para o jantar por si cozinhado reencontra Baxter. Desagradado com o desenlace do incidente que ambos viveram nessa manhã, este último invade-lhe a casa, ameaçando-o a ele e à sua família.
            O retorno à normalidade familiar algumas horas depois não liberta Perowne e a sua Rosalind do medo. Já com esta adormecida Perowne finalmente é confrontado com aquilo de que fugiu todo o dia: a fragilidade da vida. Tal fragilidade afecta, não apenas a existência biológica (com as doenças e a morte), mas também tudo aquilo que foi construído.
            O Perowne da madrugada de sábado é distinto do que termina o mesmo dia. Este último aceitou a fragilidade inerente ao ser humano, porque consciente de que o futuro traz mudança, o imprevisível e a certeza final da morte. O mundo exterior é inelutável e não pode ser combatido. Mas é nos seus intervalos e no espaço que ele deixa livre, que se constrói uma vida.
           Gradiva, 2005

Sem comentários:

Enviar um comentário