sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Artemisia em Milão


Judite e a Sua Criada



       Artemisia Gentileschi (Roma, 1593 – Nápoles, 1652) é uma das mais importantes pintoras italianas do Barroco. Filha de um pintor (Orazio Gentilishi) Artemisia é um caso raro, mas não isolado. Outras pintoras renascentistas conhecidas foram Sofonisba Anguissola (1531-1626) e Lavínia Fontana (1552-1614). Nomes que têm permitido aos historiadores da arte defender, com maior ou menor sucesso que, afinal, as mulheres também tiveram produção artística relevante ao longo dos séculos, apesar da menorização a que estavam votadas.
Artemisia ganhou grande reputação, tendo trabalhado em Roma, Veneza, Nápoles e Inglaterra. Foi também membro da Academia de Arte e Desenho de Florença. A sua pintura dá forte relevo às mulheres, em contexto mítico e nos temas bíblicos. Disso exemplificativos são alguns dos seus mais emblemáticos quadros: Judite e a sua criada (1613-1614),  Susana e os Velhos (1610, um dos poucos a apresentar a natureza traumática do episódio) e Judite decapitando Holofornes (1612-1613).
Em Milão, até 29 de Janeiro de 2012, pode ver-se uma grande exposição com os seus trabalhos.         
          


Susana e os Velhos

Judite decapitando Holofernes



terça-feira, 25 de outubro de 2011

Ressurreição, Leão Tolstoi


“Pouco importa a forma como os outros te consideram; a eles podes enganá-los, mas a ti não!” – É esta a frase que marca a viragem na vida de Dimitri Neklioudov, um dos protagonistas de Ressurreição.
Este livro foi publicado em 1899, sendo a última obra de Leon Tolstoi. Encerra o testamento político, religioso e moral do escritor russo. Contudo, não é uma obra panfletária, mas antes uma história de redenção e transformação pessoal.
O livro é baseado num episódio relatado a Tolstói pelo seu amigo A.F. Kony. Este último trabalhava num tribunal em São Petersburgo, tendo aí sido contactado por um jovem nobre que lhe relatou ter reconhecido uma mulher com quem se envolvera há anos sentada no banco dos réus, estando ele integrado entre os que iriam julgá-la. O jovem queria casar-se com essa mulher, a fim de a salvar, redimindo-se também. Na vida real a mulher faleceu de tifo, não tendo ocorrido qualquer enlace. Mas, nos elementos desta história, Tolstoi reconheceu de imediato material para escrever o seu derradeiro romance, criticando a hipocrisia da igreja e sociedade russas.
A acção inicia-se com o encontro entre o Príncipe Neklioudov e Katioucha Maslov, uma jovem que reside em casa das tias do primeiro. Na sequência de visitas feitas pelo príncipe às suas parentes, acaba por se envolver com a rapariga, abandonando-a de seguida. Katioucha Maslov, grávida, é expulsa de casa, acabando por cair nas malhas da prostituição

Quanto a Neklioudov, dividido entre a sua natureza (que o escritor retrata como sendo essencialmente boa) e a conformação com aquilo que a sociedade espera de si, acaba por esquecer toda a história, prosseguindo o curso normal da vida. Ainda assim, e apesar de todas as vantagens de que beneficia e atenções com que o cumulam, vamos encontrá-lo anos mais tarde, já acusando insatisfação pessoal decorrente de uma vida vazia.
Quando Katioucha e Neklioudov se reencontram, a primeira está a ser julgada por roubo e homicídio. Neklioudov faz parte do júri chamado a pronunciar-se sobre a causa. Para além da fortíssima crítica à organização da sociedade russa que este episódio reflecte, o reencontro das duas personagens principais vai ter enormes consequências nas suas vidas, sendo a mola de uma profunda transformação interior, primeiro para Neklioudov e, subsequentemente, para a desiludida Katioucha Maslov.
Neste livro estão presentes muitas das lutas pessoais vividas por Leão Tolstói, bem como o ideário por si construído e em conformidade com o qual foi procurando viver. Está lá tudo: a hipocrisia social, o desinteresse dos que têm poder pelo destino dos seus semelhantes e o funcionamento dos sistemas penal e penitenciário da época. Mas também as soluções que propunha. A reforma agrária, a transformação do sistema político e as regras de conduta pessoal, designadamente a humildade, o amor ao próximo e a Deus e a castidade.
Ao mesmo tempo, vamos acompanhando a luta interior de Neklioudov. A personagem está longe de ser perfeita e parte do interesse do livro está, precisamente, em acompanhar o seu combate pessoal para se aproximar daquilo que sabe ser justo. São essas as páginas que me parecem não só mais admiráveis do livro, mas também intemporais. Aliás, a busca espiritual que nelas perpassa inspirou mesmo um dos sete sermões do monge budista Tada Kanai. Integrado na colectânea The praises of amida, Fight the fight with all my might chegou ao Ocidente na tradução de Arthur Lloyd (não conheço versão portuguesa).  
A intensidade deste livro é servida também pela fluência da escrita de Tolstoi que não permite distracções. A história é contada de modo claro. Do ponto de vista formal, é fácil seguir o desenvolvimento da acção.
Sem prejuízo da obra ilustrar as ideias de Tolstoi sobre o modo como a sociedade se organiza, as personagens não se confundem com “tipos sociológicos”. Ao invés, e também aí se joga a grandeza do livro, são muito ricas do ponto de vista humano. A sua construção é densa e Tolstoi consegue mostrar-nos o seu melhor e o seu pior, sem seguir soluções redutoras ou simplistas. Isto dito, algumas descrições podem parecer um pouco maniqueístas. Estou a pensar em especial nas reflexões de Neklioudov sobre os diferentes tipos de criminosos que encontra quando entra em contacto com o mundo penitenciário. Porém, nesse maniqueísmo encontramos não um preconceito, mas a vontade de afastar a ideia de que algum ser humano nasce predestinado para a vida criminosa. À época essas teses, ancoradas em pretensos argumentos científicos, ganhavam adeptos pela Europa. Ao invés, Tolstói acredita, e este livro espelha isso mesmo, ser o modo como a sociedade está organizada que acaba por facilitar ou mesmo conduzir alguns dos seus membros à actividade criminosa.
É certo que nem todos teremos desafios do tamanho dos encontrados pelas personagens deste livro. E, seguramente, as respostas encontradas pelas mesmas não encontram eco em muitos de nós. Mas o interesse deste livro ultrapassa em muito ser o testemunho de uma época ou das inquietações de um homem, ainda que só isso justificasse já a sua leitura.
Quando lemos esta obra, os dramas e anseios das personagens encontram eco em nós. Hoje em dia fala-se muito em crise de valores. Contudo, mais do que a existência de pessoas más, o problema parece radicar na indiferença que caracteriza a vida em sociedade. Não é que não saibamos qual o nosso dever, simplesmente o cumprimento do mesmo não nos é cómodo. Por esse motivo, a história narrada por Tolstoi é uma leitura indispensável. O percurso Neklioudov é elucidativo e inspirador. Depois de percebermos o muito que está mal, já não é possível fingirmos que não se sabemos. Resta-nos verdadeiramente apenas um caminho -  procurar soluções.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

A dama das camélias




Nos nossos dias, as pessoas conhecem-se, apaixonam-se, desapaixonam-se e separam-se por diferenças irreconciliáveis. E se tudo correr pelo melhor, aprenderam com a experiência. É preferível assim, claro. Mas não deixa de ser tentador pensar num amor imenso e incomparável. Este teve um único senão: o final infeliz!
            O livro foi escrito por Alexandre Dumas (filho) e faz chorar o leitor com o coração mais empedernido. Inspirou baillados e La Traviata, de Verdi. E é também  inspiração de Camille, filme de George Cukor, de onde se extrai esta cena, quando ainda tudo parece possível …

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Decidir o que ler (I)

É a Marylin Monroe, sim! Para além de tudo o mais,
 era uma leitora devota.
            Ser leitor não é fácil. A velocidade de edição da actualidade torna uma pergunta constante: o que ler? A decisão pode variar de acordo com o momento vivido e está dependente do papel que atribuímos à leitura na nossa vida. Um escape, uma diversão, um desafio. Ler pode ser tudo isto e muito mais.
Pela minha parte, quase sem dar conta, tenho dado prioridade aos clássicos.  E não estou arrependida. Não é que haja algo de errado em relatar a vida actual ou mesmo, de modo mais prosaico, a vidinha. Mas mal daqueles que não reconhecem ser a vida muito mais do que a conclusão de que a colega do nosso lado não é de confiança ou de que afinal o que julgávamos ser um olhar insinuante do rapaz com quem nos encontramos todos os dias na pastelaria é tão só fruto da sua miopia e da nossa imaginação.
Há uma inquietação nas nossas vidas que transcende o viver do dia-a-dia. Um reconhecimento de que todos e cada um de nós é capaz do melhor e do pior. De ser tão mais ou tão menos do que a nossa vivência quotidiana permite adivinhar.
            É reconfortante encontrarmos um livro onde revemos a nossa vida e onde lemos aquilo que já sabemos. Mas verdadeiramente emocionante é encontrarmos um livro que não dá respostas, mas antes põe perguntas. Ou que nos faz duvidar das respostas que já havíamos criado para entender o mundo. Claro que esta última parte tem o seu quê de frustrante. Mas ler é um desporto radical, pelo que não devem esperar-se facilidades.
            E é aqui que os clássicos ganham a sua dimensão. Nada de comodidades e nada de atalhos. A imensa galeria de personagens desenhadas pela literatura deixa-nos uma mensagem. Pensemos em Antígona, em Otelo ou em Mrs. Dalloway, para nos ficarmos por obras da tradição ocidental. Todos eles vivem e sentem de forma muito mais intensa do que qualquer um de nós. Mas são o nosso espelho e mostram-nos que a vida (não só a deles, mas também a nossa) é um assunto sério, transcendendo o pagamento da conta do supermercado (embora não o dispense, claro). Não é só pela dimensão dos problemas que as personagens encontram. Mas também porque somos tentados a colocar-nos no lugar deles e procurar respostas para os problemas. Não respostas para eles, mas respostas para nós. Respostas às perguntas que verdadeiramente interessam. E é nessas alturas que percebemos que os clássicos não são antigos, nem modernos, nem contemporâneos. São de sempre e para sempre.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

As Serviçais e O Uivo





As Serviçais e O Uivo estão em exibição nos cinemas. O primeiro filme leva-nos ao Mississipi dos anos 60, onde um livro sobre o modo como as empregadas domésticas negras eram tratadas causa escandâlo na cidade de Jackson. O Uivo foca o processo judicial movido a Ginsberg e ao seu editor, aquando da publicação de O Uivo, poema tido como obsceno pelos temas focados e linguagem utilizada. 
Os dois filmes são muito diferentes entre si, mas têm um tema comum: o poder dos livros e a sua capacidade de provocar, incomodar e transformar.
Vale a pena vê-los e sobretudo pensar no tema que lhes está subjacente. Porque para uma parte substancial da humanidade a liberdade de expressão ainda não é um direito adquirido, facto de que somos recordados quase todos os dias. E porque mesmo aqueles que dela usufruem não se podem dar ao luxo de esquecer o quanto custou adquiri-la.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Lady Gaga e O Monte dos Vendavais


Canta Lady Gaga: “I want your love, and I want your revenge/you and me could write a bad romance/ I want your love, and all your love is revenge/ you and me could write a bad romance”.
Não sei qual a inspiração para esta letra. A mim veio-me à cabeça O Monte dos Vendavais, o epítome da paixão amorosa mal sucedida em todo o seu esplendor.
O Monte dos Vendavais foi o único livro escrito por Emily Bronte. Publicado em 1847. Ainda hoje não pode deixar de impressionar quem o lê. Narra a tortuosa história de Catherine Earnshaw e de Heathcliff. Atraídos um pelo outro desde a infância, vivem uma paixão mal sucedida, pela qual não apenas se condenam à infelicidade, mas também espalham o sofrimento pelos que os rodeiam.  
            Os heróis da história são anti-heróis. À data, essa era uma perspectiva original, em particular se tivermos em atenção ser esta uma história de amor. Em adulta, Catherine surge-nos como uma mulher caprichosa e egoísta, não hesitando em sacrificar o marido e a cunhada para agradar a Heathcliff, a quem ama e odeia. Este consumido, primeiro pela rejeição e depois pelo trágico destino da sua amada, é um homem violento e cruel, determinado a esmagar qualquer bom sentimento que pressinta estar a surgir. Apesar disso, mesmo num local tão inóspito em termos de paisagem e sentimentos como é o monte dos vendavais, a esperança renasce, com novos protagonistas.
            São muitas as interpretações feitas deste romance, ultrapassando a visão pretensamente redutora da “história de amor infeliz”. Heathcliff, por exemplo, já tem sido explicado como o símbolo da luta social e das classes oprimidas. Quanto a Catherine tem sido objecto de interpretações psicanalíticas e feministas. Tudo caminhos possíveis de interpretação, admito.
Mas, pela minha parte, ocorrem-me dois aspectos quando penso neste livro. Por um lado, a incapacidade das personagens lutarem pelo seu amor não obstante o mesmo ser enorme. E, por outro lado, o imenso potencial de destruição que o amor também pode carregar em si.  E que foi tão bem captado pela Lady Gaga!

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Em defesa de Madame Bovary

Todas as vezes que leio Madame Bovary emociono-me.
A história começou por surgir em capítulos na Revue de Paris. Causou escândalo de imediato. Gustave Flaubert e o editor foram levados a Tribunal, respectivamente pela escrita e publicação da história, considerada uma obra escandalosa e imoral. Ambos foram absolvidos, tendo a edição em livro obtido sucesso imediato.
Na origem da obra estão factos reais. Louis Bouilhet, amigo de Flaubert a quem o livro é dedicado, alertou-o para o suicídio de Delphine Delamare, dona de casa francesa, esposa de um médico de província, relatado no Journal de Rouen em 1848. Pela pena do escritor francês os Delamare passaram a Charles e Ema Bovary.
Flaubert trabalhou no livro durante vários anos, sendo o mesmo visto como uma obra-prima da literatura ocidental, apontado como o primeiro romance realista. A sua estrutura obedece à do romance clássico. O texto é fluído e claro, sem hiatos ou saltos temporais. O modo como a história é contada aliado ao seu interesse, conduz a que se ganhe curiosidade pela mesma, sendo um livro difícil de por de lado. E, no entanto, parece-me verdadeiramente um livro para ler devagar. Só assim é possível desfrutar da riqueza da linguagem de Flaubert (preservada pela tradução). E também da ampla galeria de personagens que vai desfilando pelo livro. Ema Bovary é, naturalmente, a mais conseguida. Mas várias outras passam pelos nossos olhos e como acontece com frequência com os bons livros, apesar de serem ficção, temos a sensação de que conhecemos pessoas exactamente como as ali descritas.
 Ema é filha única de proprietários rurais. Após a morte da mãe, é enviada para um convento. Apesar do tempo aí passado não ser muito aprofundado no livro, Flaubert consegue fazer-nos perceber desde logo os traços de carácter de Ema que marcarão o seu destino. Concluída a sua educação, Ema abandona o convento e junta-se ao pai, acabando por casar com Charles Bovary, médico de província. O grosso do romance relata a vida de casada de Ema, a mais improvável esposa de um médico rural.
Vamos acompanhando as ilusões e desilusões de Ema, perante a incapacidade do marido compreender a mulher com quem casou (pág. 43: “Supunha-a feliz, e ela detestava-o por aquela calma tão bem assente, aquela serena inércia própria felicidade que lhe dava”). Os luxos, os amores, a sociedade, a poesia e a maternidade vão sendo vividas de forma insaciável por Ema, sem que os seus anseios de plenitude alguma vez sejam preenchidos.
Haverá de reconhecer-se que nenhuma realidade poderia comparar-se aos sonhos de Ema. Não que em algum momento se chegue a perceber qual a existência que em concreto Ema Bovary deseja para si. Como é comum ao retrato dos heróis românticos feito pelos escritores da escola realista, Ema deseja uma existência plena e grandiosa. Também como é comum neles, não tem ideia quanto ao que, em concreto, deseja obter. Mas, apesar do egoísmo da personagem, há algo nela que sempre me cativou: o desejo de liberdade.
Em determinado momento Ema pensa, desesperada, como tudo seria diferente se tivesse nascido homem. O desabafo prende-se com uma constatação – se não fosse mulher poderia escolher livremente o seu destino. Quer do ponto de vista jurídico, quer no plano económico, Ema, como a generalidade das mulheres do seu tempo, não tinha qualquer autonomia. E, por esse motivo, as suas opções de vida estavam dramaticamente limitadas.
Creio que se Bovary tivesse podido escolher livremente o seu caminho, não teria um final feliz. A sua personalidade é errática, excessiva e embriagada pela imaginação e sensualidade. Mas ainda assim, não posso deixar de simpatizar com alguém que queria – e não pôde – escolher o seu destino.
Partlhe-se ou não desta simpatia por Bovary, motivos para ler ou reler este livro não faltam. Para além da sua riqueza intrínseca, é uma obra chave na cultura ocidental. Inspirou escritores como Eça de Queirós (O Primo Basílio) e Amos Oz (O meu Michael) e cineastas como Vincent Minelli, Claude Chabrol e Woody Allen (Melinda e Melinda).
Além disso, se alguma vez a liberdade parecer pesada, não há como recordar como é ainda mais pesada a falta dela. 

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

A queda de Ícaro

















Musée des Beaux Arts
Quanto ao sofrimento nunca se enganaram
Os Velhos Mestres: como entenderam
A sua morada humana; como acontece,
Enquanto outros comem ou abrem uma janela ou dão um passeio obscuro;
Como, no momento em que velhos esperam reverente,
Apaixonadamente, o nascimento milagroso,
Há crianças que nem sequer o desejam, patinando
num lago, na orla do bosque:

Nunca esqueceram
Que mesmo o martírio mais terrível deve ocorrer
De forma ocasional numa esquina, num local sujo
Que os cães frequentam na sua azáfama canina, onde o cavalo do torcionário
Coça o traseiro inocente numa árvore.

No Ícaro de Brueghel, por exemplo: tudo volta
Pacificamente as costas ao desastre; o lavrador terá
Ouvido o mergulho, o grito desamparado;
Mas, para ele não foi um fracasso importante; como de costume,
O sol brilhava nas pernas brancas que desapareciam na água
Verde; e o frágil, luxuoso barco que terá visto
Algo espantoso, um rapaz caído do céu;
Tinha um destino a atingir e para ele suavemente navegou.
(W.H. Auden, in O massacre dos inocentes, Assírio e Alvim, 1994, selecção, tradução e notas, José Alberto Oliveira, pág. 13).

Impressiona-me sempre A queda de Ícaro, tal como foi pintada por Brueghel. O quadro inspirou W.H. Auden e também William Carlos Williams.
Para além dos aspectos técnicos, o que me toca nesta pintura é a grande lição de humildade que exibe.
Brueghel no século XV pôs em relevo uma constante da natureza humana sublinhada séculos depois por Auden: a pouca importância na soma final do mundo das nossas conquistas e derrotas. Ícaro, símbolo da maior das ambições, quis ombrear com os deuses. Fracassou nessa tentativa. Mas a sua derrota em nada beliscou o mundo à sua volta. O mar conservou-se tranquilo e o sol não deixou de brilhar enquanto Ícaro caía no mar e se afogava. Intocado manteve-se também o habitual curso de vida dos que por ali estavam. Verdadeiramente, nem se pode dizer que assistiram à queda de Ícaro. Entretidos com os seus assuntos, foram-lhe indiferentes. Um ensinamento para o Ícaro que há em nós.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Mongólia, Bernardo Carvalho

A vontade de visitar a Mongólia instalou-se em mim depois de ter lido o romance homónimo de Bernardo Carvalho. Não que a história escrita por este autor brasileiro pudesse figurar numa brochura de agência de viagens.
Para escrever este livro Bernardo Carvalho viajou para a Mongólia durante alguns meses, tendo beneficiado de uma bolsa da Fundação Oriente.
O resultado é um livro em que se contam várias histórias numa só. Um diplomata brasileiro colocado na China é enviado à Mongólia para procurar um jovem também brasileiro, filho de um importante empresário, desaparecido naquele território. A narração é feita a três vozes (a do narrador e a das duas personagens principais, através dos respectivos diálogos). Com uma escrita fluente e desenvolta, vamos acompanhando as impressões do diplomata brasileiro sobre a China e a Mongólia, bem como a sua percepção sobre as pessoas e acontecimentos que vai vivendo, em paralelo com as do desaparecido. Ao mesmo tempo, o autor apresenta-nos um fresco sobre essa terra misteriosa, dando-nos a conhecer os seus costumes e desafiando ideias feitas (por exemplo, depois de lermos as páginas que dedica à descrição de alguns dos aspectos do budismo local, desaparece a ideia de que esta é uma religião incontestavelmente pacífica …). Reconhecemos na sua escrita a estranheza que a diferença causa, o medo do desconhecido e a necessária abertura aos outros.
Comprei este livro num impulso, algo que me sucede com frequência em matéria de aquisições literárias e de que não me costumo arrepender. E também aqui dei por bem empregue o tempo. É uma história bem contada e que prende a atenção do leitor, da primeira à última página. Consegue fazer com que nos sintamos ao lado das personagens, partilhando dos seus receios e deslumbramentos e, em simultâneo, que compreendamos as dúvidas sentidas por cada um deles ao longo da acção. É nas últimas páginas que reside a chave do livro. E que não se diga que é inverosímel, pois todos sabemos que não nada mais invulgar do que a vida real.
Antes de ler este livro, a Mongólia era uma recordação distante das aulas de história, à mistura com Gengis Cão e Marco Polo. Agora aprendi a reconhecer o deserto Gobi e os Montes Altai (que surgem na fotografia acima) entre todos os desertos e montes que compõem o mundo.  
          De modo que um dia destes, acordarei em Ulaanbaatar, a capital da Mongólia que, fazendo jus à tradição nómada do país, já mudou vinte e nove vezes de localização. Espero conseguir dar com ela …
       Biblioteca de Editores Independentes, Novembro de 2007