segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Decidir o que ler (I)

É a Marylin Monroe, sim! Para além de tudo o mais,
 era uma leitora devota.
            Ser leitor não é fácil. A velocidade de edição da actualidade torna uma pergunta constante: o que ler? A decisão pode variar de acordo com o momento vivido e está dependente do papel que atribuímos à leitura na nossa vida. Um escape, uma diversão, um desafio. Ler pode ser tudo isto e muito mais.
Pela minha parte, quase sem dar conta, tenho dado prioridade aos clássicos.  E não estou arrependida. Não é que haja algo de errado em relatar a vida actual ou mesmo, de modo mais prosaico, a vidinha. Mas mal daqueles que não reconhecem ser a vida muito mais do que a conclusão de que a colega do nosso lado não é de confiança ou de que afinal o que julgávamos ser um olhar insinuante do rapaz com quem nos encontramos todos os dias na pastelaria é tão só fruto da sua miopia e da nossa imaginação.
Há uma inquietação nas nossas vidas que transcende o viver do dia-a-dia. Um reconhecimento de que todos e cada um de nós é capaz do melhor e do pior. De ser tão mais ou tão menos do que a nossa vivência quotidiana permite adivinhar.
            É reconfortante encontrarmos um livro onde revemos a nossa vida e onde lemos aquilo que já sabemos. Mas verdadeiramente emocionante é encontrarmos um livro que não dá respostas, mas antes põe perguntas. Ou que nos faz duvidar das respostas que já havíamos criado para entender o mundo. Claro que esta última parte tem o seu quê de frustrante. Mas ler é um desporto radical, pelo que não devem esperar-se facilidades.
            E é aqui que os clássicos ganham a sua dimensão. Nada de comodidades e nada de atalhos. A imensa galeria de personagens desenhadas pela literatura deixa-nos uma mensagem. Pensemos em Antígona, em Otelo ou em Mrs. Dalloway, para nos ficarmos por obras da tradição ocidental. Todos eles vivem e sentem de forma muito mais intensa do que qualquer um de nós. Mas são o nosso espelho e mostram-nos que a vida (não só a deles, mas também a nossa) é um assunto sério, transcendendo o pagamento da conta do supermercado (embora não o dispense, claro). Não é só pela dimensão dos problemas que as personagens encontram. Mas também porque somos tentados a colocar-nos no lugar deles e procurar respostas para os problemas. Não respostas para eles, mas respostas para nós. Respostas às perguntas que verdadeiramente interessam. E é nessas alturas que percebemos que os clássicos não são antigos, nem modernos, nem contemporâneos. São de sempre e para sempre.

Sem comentários:

Enviar um comentário