segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Em defesa de Madame Bovary

Todas as vezes que leio Madame Bovary emociono-me.
A história começou por surgir em capítulos na Revue de Paris. Causou escândalo de imediato. Gustave Flaubert e o editor foram levados a Tribunal, respectivamente pela escrita e publicação da história, considerada uma obra escandalosa e imoral. Ambos foram absolvidos, tendo a edição em livro obtido sucesso imediato.
Na origem da obra estão factos reais. Louis Bouilhet, amigo de Flaubert a quem o livro é dedicado, alertou-o para o suicídio de Delphine Delamare, dona de casa francesa, esposa de um médico de província, relatado no Journal de Rouen em 1848. Pela pena do escritor francês os Delamare passaram a Charles e Ema Bovary.
Flaubert trabalhou no livro durante vários anos, sendo o mesmo visto como uma obra-prima da literatura ocidental, apontado como o primeiro romance realista. A sua estrutura obedece à do romance clássico. O texto é fluído e claro, sem hiatos ou saltos temporais. O modo como a história é contada aliado ao seu interesse, conduz a que se ganhe curiosidade pela mesma, sendo um livro difícil de por de lado. E, no entanto, parece-me verdadeiramente um livro para ler devagar. Só assim é possível desfrutar da riqueza da linguagem de Flaubert (preservada pela tradução). E também da ampla galeria de personagens que vai desfilando pelo livro. Ema Bovary é, naturalmente, a mais conseguida. Mas várias outras passam pelos nossos olhos e como acontece com frequência com os bons livros, apesar de serem ficção, temos a sensação de que conhecemos pessoas exactamente como as ali descritas.
 Ema é filha única de proprietários rurais. Após a morte da mãe, é enviada para um convento. Apesar do tempo aí passado não ser muito aprofundado no livro, Flaubert consegue fazer-nos perceber desde logo os traços de carácter de Ema que marcarão o seu destino. Concluída a sua educação, Ema abandona o convento e junta-se ao pai, acabando por casar com Charles Bovary, médico de província. O grosso do romance relata a vida de casada de Ema, a mais improvável esposa de um médico rural.
Vamos acompanhando as ilusões e desilusões de Ema, perante a incapacidade do marido compreender a mulher com quem casou (pág. 43: “Supunha-a feliz, e ela detestava-o por aquela calma tão bem assente, aquela serena inércia própria felicidade que lhe dava”). Os luxos, os amores, a sociedade, a poesia e a maternidade vão sendo vividas de forma insaciável por Ema, sem que os seus anseios de plenitude alguma vez sejam preenchidos.
Haverá de reconhecer-se que nenhuma realidade poderia comparar-se aos sonhos de Ema. Não que em algum momento se chegue a perceber qual a existência que em concreto Ema Bovary deseja para si. Como é comum ao retrato dos heróis românticos feito pelos escritores da escola realista, Ema deseja uma existência plena e grandiosa. Também como é comum neles, não tem ideia quanto ao que, em concreto, deseja obter. Mas, apesar do egoísmo da personagem, há algo nela que sempre me cativou: o desejo de liberdade.
Em determinado momento Ema pensa, desesperada, como tudo seria diferente se tivesse nascido homem. O desabafo prende-se com uma constatação – se não fosse mulher poderia escolher livremente o seu destino. Quer do ponto de vista jurídico, quer no plano económico, Ema, como a generalidade das mulheres do seu tempo, não tinha qualquer autonomia. E, por esse motivo, as suas opções de vida estavam dramaticamente limitadas.
Creio que se Bovary tivesse podido escolher livremente o seu caminho, não teria um final feliz. A sua personalidade é errática, excessiva e embriagada pela imaginação e sensualidade. Mas ainda assim, não posso deixar de simpatizar com alguém que queria – e não pôde – escolher o seu destino.
Partlhe-se ou não desta simpatia por Bovary, motivos para ler ou reler este livro não faltam. Para além da sua riqueza intrínseca, é uma obra chave na cultura ocidental. Inspirou escritores como Eça de Queirós (O Primo Basílio) e Amos Oz (O meu Michael) e cineastas como Vincent Minelli, Claude Chabrol e Woody Allen (Melinda e Melinda).
Além disso, se alguma vez a liberdade parecer pesada, não há como recordar como é ainda mais pesada a falta dela. 

2 comentários:

  1. Gostei do comentário e fez-me ter curiosidade de ler o livro, que confesso, nunca li.
    Concordo que a falta de liberdade é bem mais pesada do que a mesma. E sempre agradeci aos céus nascer num tempo e numa sociedade em que posso escolher o meu destino.

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  2. É certo que a inquietude Emma Bovary parece resultar do facto de esta não se conformar com a vida pacata e medíocre que o seu marido Charles, médico de província, lhe proporcionava. Neste sentido, é, de facto, quase impossível não se deixar prender e apiedar-se de Emma, sonhadora, encantadora e bela como é.
    Mas Bovary não é Anna Karenina nem Margarida Gautier, personagens que, na busca da felicidade que vislumbram no amor a outrem, abdicam da vida que lhes foi apresentada para perseguir outra, a duras penas. Contrariamente, Bovary é uma viciada em sentimentos e grandes emoções, desprendidas, a meu ver, daqueles que lhe suscitam as mesmas. Neste sentido, é algo vampírica, sustentando-se do que os outros personagens lhe dão sem nada dar em troca. Este aspecto da personagem é salientado nas passagens em que se refere que a mesma se se encontrava agradada ao sentir que havia atingido tão rapidamente aquele raro ideal de pálida e lânguida existência, tão fora do alcance dos espíritos medíocres, aqui se apresentando Emma como orgulhosa, desafinando as convenções sociais para satisfazer nada mais que o seu próprio ego e crendo-se merecedora de maiores e melhores riquezas do que outros apenas por ser mais bela. Da mesma forma, entrega-se a Rodolfo, ao êxtase religioso, às compras, com o mesmo entusiasmo, não porque ame o primeiro ou os objectos que adquire ou porque a fé a mova mas por necessidade de escapismo daquilo que entende ser a sua vida pequeno-burguesa. (“Confundia, no desejo, a sensualidade do luxo com as alegrias do coração, a elegância dos hábitos com a delicadeza dos sentimentos…”)
    É certo ser difícil não empatizar com a personagem e aqui, aproximo-mo, do que é dito, pelo seu desejo de liberdade, que como intrínseco a qualquer ser humano, é sempre comovedor.
    No caso, porém, todo o percurso do personagem faz inculcar a ideia de que fora a sua gaiola mais dourada e rica, talvez, os fulgores libertários de Bovary seriam mais facilmente apaziguados. No fundo Emma apresenta-se, como a ave conhecida pelo mesmo nome, sempre atraída por objectos mais brilhantes, extasiada pelos ideais do romantismo que recolhe dos livros que lê e pronta a deixar para trás os que já não brilham ou que a queimaram é, neste ponto, que me afasto da opinião acima exposta: Bovary é uma deslumbrada. Pudera ela, como se escreve a determinando ponto, debruçar-se no balcão de um chalet suiço, encerrar a sua melancolia num “cottage” escocês, com um marido envergando um longo casaco de veludo negro e punhos finos e tudo seria diferente (I.7.1)
    O que me comove, acima de tudo, é o fim de Bovary e dos que deixa para trás, vítima das suas falhas e dos ideais românticos e é nisto que para mim reside a genialidade do romance de Flaubert, o retrato irónico e pungente do romantismo exacerbado que a todos os personagens arruinou.

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