quinta-feira, 6 de outubro de 2011

A queda de Ícaro

















Musée des Beaux Arts
Quanto ao sofrimento nunca se enganaram
Os Velhos Mestres: como entenderam
A sua morada humana; como acontece,
Enquanto outros comem ou abrem uma janela ou dão um passeio obscuro;
Como, no momento em que velhos esperam reverente,
Apaixonadamente, o nascimento milagroso,
Há crianças que nem sequer o desejam, patinando
num lago, na orla do bosque:

Nunca esqueceram
Que mesmo o martírio mais terrível deve ocorrer
De forma ocasional numa esquina, num local sujo
Que os cães frequentam na sua azáfama canina, onde o cavalo do torcionário
Coça o traseiro inocente numa árvore.

No Ícaro de Brueghel, por exemplo: tudo volta
Pacificamente as costas ao desastre; o lavrador terá
Ouvido o mergulho, o grito desamparado;
Mas, para ele não foi um fracasso importante; como de costume,
O sol brilhava nas pernas brancas que desapareciam na água
Verde; e o frágil, luxuoso barco que terá visto
Algo espantoso, um rapaz caído do céu;
Tinha um destino a atingir e para ele suavemente navegou.
(W.H. Auden, in O massacre dos inocentes, Assírio e Alvim, 1994, selecção, tradução e notas, José Alberto Oliveira, pág. 13).

Impressiona-me sempre A queda de Ícaro, tal como foi pintada por Brueghel. O quadro inspirou W.H. Auden e também William Carlos Williams.
Para além dos aspectos técnicos, o que me toca nesta pintura é a grande lição de humildade que exibe.
Brueghel no século XV pôs em relevo uma constante da natureza humana sublinhada séculos depois por Auden: a pouca importância na soma final do mundo das nossas conquistas e derrotas. Ícaro, símbolo da maior das ambições, quis ombrear com os deuses. Fracassou nessa tentativa. Mas a sua derrota em nada beliscou o mundo à sua volta. O mar conservou-se tranquilo e o sol não deixou de brilhar enquanto Ícaro caía no mar e se afogava. Intocado manteve-se também o habitual curso de vida dos que por ali estavam. Verdadeiramente, nem se pode dizer que assistiram à queda de Ícaro. Entretidos com os seus assuntos, foram-lhe indiferentes. Um ensinamento para o Ícaro que há em nós.

Sem comentários:

Enviar um comentário