terça-feira, 25 de outubro de 2011

Ressurreição, Leão Tolstoi


“Pouco importa a forma como os outros te consideram; a eles podes enganá-los, mas a ti não!” – É esta a frase que marca a viragem na vida de Dimitri Neklioudov, um dos protagonistas de Ressurreição.
Este livro foi publicado em 1899, sendo a última obra de Leon Tolstoi. Encerra o testamento político, religioso e moral do escritor russo. Contudo, não é uma obra panfletária, mas antes uma história de redenção e transformação pessoal.
O livro é baseado num episódio relatado a Tolstói pelo seu amigo A.F. Kony. Este último trabalhava num tribunal em São Petersburgo, tendo aí sido contactado por um jovem nobre que lhe relatou ter reconhecido uma mulher com quem se envolvera há anos sentada no banco dos réus, estando ele integrado entre os que iriam julgá-la. O jovem queria casar-se com essa mulher, a fim de a salvar, redimindo-se também. Na vida real a mulher faleceu de tifo, não tendo ocorrido qualquer enlace. Mas, nos elementos desta história, Tolstoi reconheceu de imediato material para escrever o seu derradeiro romance, criticando a hipocrisia da igreja e sociedade russas.
A acção inicia-se com o encontro entre o Príncipe Neklioudov e Katioucha Maslov, uma jovem que reside em casa das tias do primeiro. Na sequência de visitas feitas pelo príncipe às suas parentes, acaba por se envolver com a rapariga, abandonando-a de seguida. Katioucha Maslov, grávida, é expulsa de casa, acabando por cair nas malhas da prostituição

Quanto a Neklioudov, dividido entre a sua natureza (que o escritor retrata como sendo essencialmente boa) e a conformação com aquilo que a sociedade espera de si, acaba por esquecer toda a história, prosseguindo o curso normal da vida. Ainda assim, e apesar de todas as vantagens de que beneficia e atenções com que o cumulam, vamos encontrá-lo anos mais tarde, já acusando insatisfação pessoal decorrente de uma vida vazia.
Quando Katioucha e Neklioudov se reencontram, a primeira está a ser julgada por roubo e homicídio. Neklioudov faz parte do júri chamado a pronunciar-se sobre a causa. Para além da fortíssima crítica à organização da sociedade russa que este episódio reflecte, o reencontro das duas personagens principais vai ter enormes consequências nas suas vidas, sendo a mola de uma profunda transformação interior, primeiro para Neklioudov e, subsequentemente, para a desiludida Katioucha Maslov.
Neste livro estão presentes muitas das lutas pessoais vividas por Leão Tolstói, bem como o ideário por si construído e em conformidade com o qual foi procurando viver. Está lá tudo: a hipocrisia social, o desinteresse dos que têm poder pelo destino dos seus semelhantes e o funcionamento dos sistemas penal e penitenciário da época. Mas também as soluções que propunha. A reforma agrária, a transformação do sistema político e as regras de conduta pessoal, designadamente a humildade, o amor ao próximo e a Deus e a castidade.
Ao mesmo tempo, vamos acompanhando a luta interior de Neklioudov. A personagem está longe de ser perfeita e parte do interesse do livro está, precisamente, em acompanhar o seu combate pessoal para se aproximar daquilo que sabe ser justo. São essas as páginas que me parecem não só mais admiráveis do livro, mas também intemporais. Aliás, a busca espiritual que nelas perpassa inspirou mesmo um dos sete sermões do monge budista Tada Kanai. Integrado na colectânea The praises of amida, Fight the fight with all my might chegou ao Ocidente na tradução de Arthur Lloyd (não conheço versão portuguesa).  
A intensidade deste livro é servida também pela fluência da escrita de Tolstoi que não permite distracções. A história é contada de modo claro. Do ponto de vista formal, é fácil seguir o desenvolvimento da acção.
Sem prejuízo da obra ilustrar as ideias de Tolstoi sobre o modo como a sociedade se organiza, as personagens não se confundem com “tipos sociológicos”. Ao invés, e também aí se joga a grandeza do livro, são muito ricas do ponto de vista humano. A sua construção é densa e Tolstoi consegue mostrar-nos o seu melhor e o seu pior, sem seguir soluções redutoras ou simplistas. Isto dito, algumas descrições podem parecer um pouco maniqueístas. Estou a pensar em especial nas reflexões de Neklioudov sobre os diferentes tipos de criminosos que encontra quando entra em contacto com o mundo penitenciário. Porém, nesse maniqueísmo encontramos não um preconceito, mas a vontade de afastar a ideia de que algum ser humano nasce predestinado para a vida criminosa. À época essas teses, ancoradas em pretensos argumentos científicos, ganhavam adeptos pela Europa. Ao invés, Tolstói acredita, e este livro espelha isso mesmo, ser o modo como a sociedade está organizada que acaba por facilitar ou mesmo conduzir alguns dos seus membros à actividade criminosa.
É certo que nem todos teremos desafios do tamanho dos encontrados pelas personagens deste livro. E, seguramente, as respostas encontradas pelas mesmas não encontram eco em muitos de nós. Mas o interesse deste livro ultrapassa em muito ser o testemunho de uma época ou das inquietações de um homem, ainda que só isso justificasse já a sua leitura.
Quando lemos esta obra, os dramas e anseios das personagens encontram eco em nós. Hoje em dia fala-se muito em crise de valores. Contudo, mais do que a existência de pessoas más, o problema parece radicar na indiferença que caracteriza a vida em sociedade. Não é que não saibamos qual o nosso dever, simplesmente o cumprimento do mesmo não nos é cómodo. Por esse motivo, a história narrada por Tolstoi é uma leitura indispensável. O percurso Neklioudov é elucidativo e inspirador. Depois de percebermos o muito que está mal, já não é possível fingirmos que não se sabemos. Resta-nos verdadeiramente apenas um caminho -  procurar soluções.

1 comentário: