terça-feira, 8 de novembro de 2011

Decidir o que ler (II): em busca da felicidade


A Conquista da Felicidade – Os contributos da sabedoria antiga e da ciência moderna (Jonathan Haidt, Ed. Sinais de Fogo), Projecto Felicidade – Ou porque passei um ano a tentar cantar de manhã, a limpar os meus armários, a escrever um blogue, a ler os mestres e, em geral, a divertir-me mais (Gretchen Rubin, Ed. Estrela Polar) e The how of Happiness (Sonja Lyubormirsky). São apenas três exemplos de uma das mais fortes tendências do mercado editorial contemporâneo: obras que nos ensinam a ser felizes ou, talvez numa perspectiva mais cautelosa, a sermos mais felizes do que somos antes de os lermos. 
 A causa próxima desta profusão de títulos parece ser o nascimento de um novo ramo da psicologia, a psicologia positiva, uma invenção dos psicólogos americanos Martin Seligman e Mihaly Csiskszentmihalyi. Em síntese, pretende-se pôr o enfâse nas formas de tornar a vida do leitor mais preenchida e feliz. Na génese da psicologia positiva está a constatação de que a ausência de perturbações psíquicas não é suficiente para concluir pela existência de uma vida feliz. Falta algo mais. E é na procura desse algo mais que se concentram livros como os acima indicados. Não vale a pena abordá-los de forma preconceituosa. Como em todas as categorias literárias haverá obras melhores e piores. No entanto, quando lemos alguns destes livros concluímos pela existência de uma ideia comum: é no modo como vivemos o dia-a-dia que se constrói a felicidade, pois os grandes acontecimentos ou momentos marcantes acabam por não ter impacto no cômputo geral da existência.

Será um bom conselho? Não sei. Mas sei isto: não é novo.
Já há séculos atrás Horácio gabava as virtudes da vida tranquila, que devia ser preferida a qualquer outra. E deu-lhe um nome - a aurea mediocritas. E a verdade é que essa ideia ressurge com frequência no pensamento ocidental. É certo que por vezes com ironia indisfarçável, como quando o Cândido de Voltaire conclui pela necessidade de cultivarmos o nosso pequeno jardim (e não estava a referir-se a actividades hortícolas). Mas muitas vezes como forma genuína de viver o dia-a-dia.
E aqui está o ponto a que pretendia chegar. Sem desprimor, quando olhamos para a tradição do pensamento europeu não parece que a psicologia positiva tenha, verdadeiramente, encontrado algo de novo.
Como em tantos outros aspectos da nossa civilização, recuamos à cultura greco-latina. Fazendo um esforço para recordar o manual de filosofia que muitos de nós teremos lido em adolescentes, lá está a definição dessa disciplina. Filo –Sofia: o amor à sabedoria, à melhor forma de viver. Os gregos e os romanos não poderiam, assim, ter deixado de se ocupar das condições para uma vida feliz. E fizeram-no em profusão, sendo que para nossa sorte, uma parte das suas obras chegou aos dias de hoje.
Epicuro, de forma talvez surpreendente, tendo em conta a reputação que a história lhe deu, escreveu na sua Carta sobre a Felicidade: “Quando falamos do prazer como de um fim, não falamos dos prazeres dos dissolutos ou daqueles que têm o gozo por residência – como o imaginam algumas pessoas que ignoram a doutrina, não concordam com ela ou são vítimas de uma falsa interpretação – mas de alcançar o estádio em que não se sofre no corpo e não se está perturbado na alma.” (Relógio d´Água) 
Homem de muitas contradições, o senador romano Séneca deixou escrito: “Sem a saúde de espírito ninguém é feliz, e não é são aquele que procura como sendo o melhor aquilo que lhe causa prejuízo. Por isso é feliz o homem que tem um julgamento recto; é feliz aquele que se contenta com o presente, seja ele qual for; e que ama aquilo que tem; é feliz aquele que confia à razão a organização dos seus assuntos.” Da vida feliz (Relógio d´Água)
Aristóteles
Na sua Ética a Nicómaco (Quetzal Editores), Aristóteles dedicou o primeiro capítulo ao tema. Definiu a felicidade como o bem supremo que pode ser obtido através da acção humana. E ocupa-se da questão de saber se a felicidade é objecto de aprendizagem ou habituação ou se pode ser, de algum modo, obtida por disciplina, ou, finalmente, se chega até nós por um destino divino ou por acaso.
Já a Sócrates é atribuída esta frase baseada, diz-se, na sua experiência pessoal: “Se casares bem serás feliz, se casares mal, serás filósofo.”
Quando lemos estes autores impressiona a actualidade da sua escrita. Porque está lá tudo – a importância do trabalho, cultivo das virtudes, o tema dos afectos, o domínio das paixões. Mas também porque está subjacente a esses textos uma ideia que parece esquecida hoje: uma vida feliz é uma vida que tem um sentido, um significado, ainda que apenas apreensível para o próprio.
Afastando agora o contributo  das religiões e cingindo-nos ao pensamento ocidental constatamos que esta é uma temática constante da filosofia.
Montaigne

Tenho um apreço muito especial por Michel de Montaigne, autor francês setecentista. Aos trinta e seis anos,  abandonou a sua carreira de magistrado para se dedicar à leitura dos livros que compunham a sua biblioteca e escrever as suas reflexões. Não sei como correu a carreira de Montaigne na magistratura, mas os Ensaios (Antologia, Relógio d´Água) que escreve estão repletos de ensinamentos como estes:
“Comprazer-se excessivamente com o que se é, cair num irreflectido amor-próprio, constitui em minha opinião, a substância desse vício da presunção.”
“Não nos devemos apegar assim tão fortemente às nossas tendências e temperamento. O nosso talento principal é sabermos aplicar-nos a práticas diversas. O estar vinculado e necessariamente obrigado, a um único estilo de vida não é viver, é ser. As almas mais belas são as que têm mais variedade e flexibilidade.”
“A meditação é um esforço poderoso e produtivo para aqueles que se sabem examinar, nisso se aplicando energicamente: prefiro forjar a minha alma a mobilá-la”.
E em tempos de crise económica como os actuais estas suas palavras vêm também a calhar “Se as coisas correrem pelo pior, antecipai-vos à pobreza cortando nos gastos. É aquilo a que me aplico, e a reformar o meu estilo de vida antes que ela me force a tal.”
Madame de Châtelet
Ainda em França, num dos duzentos tratados escritos durante o século XVIII naquele país sobre a felicidade, Madame de Châtelet concluía: “Procuremos, pois, manter-nos de boa saúde, não ter quaisquer preconceitos, ter paixões, pô-las ao serviço da nossa felicidade, substituir as nossas paixões por gostos, conservar preciosamente as nossas ilusões, sermos virtuosos, nunca nos arrependermos, afastar de nós as ideias tristes e nunca permitir ao nosso coração conservar uma centelha de gosto por alguém cujo gosto diminua e que deixe de amar-nos. Por pouco que envelheçamos, um dia seremos forçados a abrir mão do amor e esse dia deve ser aquele em que o amor já não nos faça felizes. Pensemos, enfim, em cultivar o gosto pelo estudo, esse gosto que faz depender a felicidade apenas de nós próprios. Ponhamo-nos ao abrigo da ambição e, sobretudo, cuidemos bem de saber o que queremos ser; decidamo-nos sobre o caminho que queremos seguir para passar a nossa vida e procuremos semeá-lo de flores.” (Carta sobre a Felicidade, Ed. Relógio d´Água)
Já no século XX, apesar da mudança operada no objecto de reflexão filosófica, o tema continuou a ser tratado. Exemplificativo disso mesmo é A conquista da felicidade (Guimarães Editores), de Bertrand Russel. O filósofo inglês de modo verdadeiramente pragmático distingue as causas de infelicidade (a infelicidade byroniana, o espírito de competição, o aborrecimento e a agitação, a fadiga, a inveja, o sentimento de culpa, a mania da perseguição e o medo da opinião pública) e as da felicidade (o gosto de viver, a afeição, a família, o trabalho, os interesses impessoais e o esforço e a resignação) para ajudar a definir e pôr em prática a vida feliz.
Daqui resulta que temos à nossa disposição séculos de reflexão sobre a felicidade, em diferentes perspectivas e modalidades. Aliás, isso mesmo foi bem entendido por filósofos modernos como Alain de Botton (O Consolo da Filosofia, Ed. D. Quixote), Lou Marinoff (Mais Platão, menos Prozac, Ed.) ou Robert Rowland Smith (Pequeno-Almoço com Sócrates, Ed. Lua de Papel). Botton, Marinoff e Rowland Smith procuram por em relevo a sabedoria dos filósofos e demonstrar as vantagens decorrentes da mesma ser trazida para a vida contemporânea.
O que se retira de tudo isto?
Em primeiro lugar, que a busca de uma vida feliz é intemporal, sendo constante pelo menos no pensamento ocidental. Evidentemente que cada um dos autores acima descritos tem as suas próprias ideias sobre o assunto. Porém, as questões principais são sempre comuns, embora divirjam as soluções apresentadas. Mas ninguém disse que a felicidade tem uma receita única, pelo que vale a pena conhecer o mais elevado número de opções para podermos traçar o nosso caminho.
Em segundo lugar, temos de concluir que a filosofia não é uma disciplina longínqua deixada para trás, nos bancos da escola. Aristóteles, Montaigne e tantos outros estão vivos e recomendam-se. Está na altura de os reler, com outros olhos, desta vez sem a pressão dos exames do final do ano lectivo. Isto é, chegou o momento de os encararmos, como eles merecem, filosoficamente.

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