quinta-feira, 17 de novembro de 2011





       Há poemas que são verdadeiras profissões de fé. Lemo-los e percebemos que o mundo não pode ser apenas feito de cimento e argamassa, de cumprimento de horários e objectivos. Tem de haver algo mais. Para mim este é um desses poemas. Há uns anos, li uma crónica de Faíza Hayat na revista Xis, em que se propunha a leitura de poemas com efeitos medicinais. É o que eu faço com este poema de Natália Correia. Por vezes leio-o preventivamente, quando pressinto no horizonte problemas a enfrentar. Outras vezes, volto a ele a posteriori, para me consolar ou ganhar novas forças. Uma mistura de aspirina com vitamina C. Não lhe conheço contra-indicações.

            Creio nos anjos que andam pelo mundo,
            Creio na Deusa com olhos de diamantes,
            Creio em amores lunares com piano ao fundo,
            Creio nas lendas, nas fadas, nos atlantes,

            Creio num engenho que falta mais fecundo
            De harmonizar as partes dissonantes,
            Creio que tudo é eterno num segundo,
            Creio num céu futuro que houve dantes,

            Creio nos deuses de um astral mais puro,
            Na flor humilde que se encosta ao muro,
            Creio na carne que enfeitiça o além,

            Creio no incrível, nas coisas assombrosas,
            Na ocupação do mundo pelas rosas,
            Creio no Amor que tem asas de ouro. Ámen.
                                            *
            A imagem junta é de uma das pinturas da norte-americana Georgia O'Keeffe.  A expressão "poema pictórico" assenta-lhe como uma luva!



             

          

            

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