segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Balzac e a Costureirinha Chinesa, Dai Sijie

“Que deslumbramento! Eu tinha a impressão que desaparecia nas brumas do êxtase. Tirei os romances da mala, um por um, abri-os, contemplei os retratos dos autores e passei-os a Luo. Ao tocar-lhes com a ponto dos dedos, parecia que as minhas mãos descoradas, estavam em contacto com vidas humanas.
- Isto faz-me lembrar uma cena de um filme, quando os bandidos abrem uma mala cheia de notas … - disse Luo.
- Não sentes que estás quase a chorar de alegria?
- Não. Sinto apenas ódio.
- Eu também. Odeio todos aqueles que nos proibiram estes livros.”

Os cartazes alusivos à revolução cultural chinesa são um verdadeiro paradoxo. A sua cor e os desenhos remetem-nos para uma alegria ingénua, uma felicidade infantil. São estranhamente próximos da pintura naive. Mas todos sabemos que a chamada revolução cultural, determinou a reeducação de milhares de chineses, sendo uma das páginas mais trágicas da História.
Com frequência perante tempos de vivência difícil (social ou pessoal) perguntamo-nos: como foi possível para as pessoas comuns viver assim?
Balzac e a costureirinha chinesa dá-nos uma resposta. Dai Sijie sabe do que fala. O escritor e cineasta chinês, hoje a viver em França, esteve entre 1971 a 1974 numa aldeia perdida nas montanhas da China em regime de reeducação junto dos camponeses.
É essa a sorte dos dois protagonistas deste seu livro, escrito na primeira pessoa. O narrador e Luo são filhos da média burguesia urbana chinesa e, como tantos jovens (e menos jovens) nesse período são enviados para um período de reeducação dos seus hábitos citadinos e intelectuais junto da população rural. Partem então para a montanha Fénix do Céu.
O mais interessante neste livro é o modo simples como o autor nos consegue fazer perceber as alegrias e tristezas de dois rapazes, deslocados de tudo o que havia sido a sua vida até então. É-nos relatada a angústia e o sofrimento por que passam, tanto mais que a “reeducação” poderia prolongar-se indefinidamente, facto de que os dois amigos estão cientes. A dureza dos trabalhos que lhes são entregues e as árduas condições de vida na montanha também não são esquecidas. Mas também testemunhamos o entusiasmo e a vontade de viver que são comuns aos adolescentes. É neste contexto que os dois fazem descobertas que os vão moldar no futuro: o poder da literatura e o amor.
Quanto ao primeiro surge-lhes na forma de uma mala fechada na qual encontram livros de alguns dos principais escritores ocidentais, a começar por Honoré de Balzac. A partir dessa descoberta a vida dos dois amigos torna-se cheia de novos interesses e desafios. Para além do prazer da leitura, têm de se preocupar com o perigo inerente ao facto de terem em mãos livros proibidos. Por outro lado, a leitura acaba por os conduzir à descoberta de sentimentos e emoções que até então não tinham experimentado. Quanto ao amor, o mesmo é descoberto através da costureirinha. A amizade entre os três conduz a que também ela descubra Balzac, por cujas palavras se deixa enfeitiçar. E é afinal através dela que o autor nos revela o verdadeiro poder da palavra escrita.
Balzac e a Costureirinha Chinesa foi um sucesso editorial transposto para o cinema pelo próprio escritor no filme homónimo que realizou.


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