segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

O haiku das palavras perdidas, Andrés Pascoal




O haiku das palavras perdidas é sobretudo uma declaração de amor de um ocidental à cultura nipónica. Nele é contada a história de dois casais: Junko e Kazuo e Mei e Emilian. Os primeiros são dois adolescentes a viver em Nagásaqui quando aí é lançada a bomba atómica em 1945. Os segundos são dois adultos no tempo actual, que também se conhecem no Japão.
O elo de ligação mais evidente entre as duas histórias é fornecido pelo parentesco entre Junko e Mei, respectivamente, avó e neta. O outro elo é a constatação de que ambos os pares são confrontados com acontecimentos catastróficos, que os ultrapassam. Se para Junjo e Kazuo foi a bomba atómica lançada sobre Nagásaqui, para Mei e Emilian, será um dos sismos que fustigou o Japão no ano que agora finda. O desenlace das duas histórias é, porém, diverso.
A estrutura narrativa do livro é simples. A história dos dois pares é contada de modo sucessivo, ocupando capítulos alternados. Esta opção não prejudica nem a clareza, nem o ritmo a que a acção se desenvolve. Este é um livro muito dinâmico onde, a par das histórias principais, são abordados de forma natural outros temas, oscilando entre 1945 e os nossos dias: os dias subsequentes à explosão da bomba atómica para os sobreviventes, as consequências daquela no modo como hoje encaramos o uso da da energia nuclear, o funcionamento das organizações internacionais e a corrupção nas sociedades contemporâneas. Ao longo do livro são também feitas descrições de vários ângulos da cultura e realidade japonesas. Aliás, logo no prefácio o autor confessa o seu fascínio pelo Japão, confirmado em diferentes momentos da narrativa. No entanto, o olhar do protagonista é sempre o de um ocidental, estranho a essa cultura. Nessa medida, existe um ponto de contacto com o leitor. A forma como Emilian Zach apreende os factos a que vai assistindo é próxima da percepção do ocidental comum.
Talvez por considerar limitado o seu conhecimento da realidade japonesa, o autor não entra nos personagens orientais. Apenas nos apercebemos dos seus pensamentos e emoções ou pelo que exteriorizam ou pelas reacções de Emilian Zach, o protagonista ocidental.
O desenlace da história de Junko e Kazuo é comovente, não podendo deixar de impressionar quem lê. Mas o mais interessante do livro para mim foi a abordagem que o escritor faz do Japão, embrulhada numa história que, sendo de entretenimento, prende a atenção.
Quanto a Una furtiva lagrima, não posso explicar o seu contexto, sob pena de revelar uma parte importante da história a quem ainda não a tenha lido. Apenas digo que não obstante surgir de um modo um pouco prosaico, quando terminei a leitura conclui que faz todo o sentido.

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