segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Abraço, José Luís Peixoto

Tchekov dizia que qualquer um faz frente a acontecimentos extraordinários. É o quotidiano que nos deixa extenuados.
É por reconhecer a verdade desta frase que gosto tanto de Abraço de José Luís Peixoto. O livro reúne um vasto conjunto de crónicas que foram sendo publicadas na imprensa entre 2001 e 2011. Não li muita coisa deste escritor. Mas as crónicas deixaram-me vontade de corrigir isso.
            Estas crónicas abrangem temas variados. A infância, os laços afectivos, o crescimento, os objectos marcantes (muito justa a homenagem ao Nestum, um clássico para toda uma geração), as leituras. Mas também as vicissitudes da vida adulta. Desde actividade profissional do escritor, passando pelos episódios da vida quotidiana (entre tantos, “A carta à senhora que ultrapassei pela direita na semana passada, na zona de Santa Apolónia” ou “Debaixo da roupa, estamos todos nus”).
            As minhas fotografias favoritas são as que retratam momentos do quotidiano. Pessoas tão embrenhadas no seu dia-a-dia que nem dão conta de que a câmara as captou nesse instante.  
As crónicas integradas neste livro correspondem a esse tipo de fotografia. Acontecimentos, emoções, estado de alma, sucedem-se ao longo dos anos. A maior parte das vezes para serem esquecidos. É nisso que as crónicas se tornam mais interessantes. Pegam em acontecimentos de uma vida que podia ser a nossa e tornam-nos momentos únicos, porque passados à escrita. Talvez por isso, não sendo sentimentalistas (o que é diferente de dizer que não são sentimentais) parecem parte de nós.
            À medida que leio os textos incluídos neste livro sou tomada por uma emoção agridoce. Por um lado, uma certa tristeza, por não ter esta capacidade de agarrar o diário e mostrar como ele é especial. Por outro lado, alegria. Por haver quem consiga fazê-lo. Não é “inveja boa” (está muito em voga esta expressão, mas eu sou do tempo em que a inveja era por definição, má). É mesmo alegria. E uma espécie de gratidão.

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