terça-feira, 31 de janeiro de 2012

O lago, Ana Teresa Pereira

Numa época em que uma parte substancial dos escritores se rendeu ao marketing, desenvolvendo acções de promoção dos seus livros, Ana Teresa Pereira é cada vez mais uma excepção. Não lhe conheço entrevistas. Os seus livros aparecem discretamente nas livrarias. Já nem me recordo como comecei a lê-la. Creio que foi à moda antiga, folheando os seus livros nas livrarias, até ao momento em que me decidi a comprar o primeiro. E nunca mais parei.
O lago é o mais recente livro desta escritora madeirense. Desenvolve-se em volta de um triângulo constituído por dois homens e uma mulher, Kevin, Jane e Tom. Os dois primeiros são actores numa peça escrita e encenada pelo último. Numa certa medida, é a história de um triângulo amoroso. Mas quando avançamos na leitura, vamo-nos afastando dessa perspectiva.
Reencontramos aqui o mundo desta escritora, plasmado em obras anteriores. Londres é o cenário de uma narrativa, onde o teatro, os filmes antigos a preto e branco, os actores de outros tempos, convivem com as personagens cuja vida acompanhamos, enquanto se debatem com a (im)possibilidade do amor.
Até as personagens do livro nos são familiares. Na verdade, em outras obras desta autora encontramos um Tom (Se nos encontrarmos de novo), um Kevin (Quando atravessares o riso) e uma Jane (As intimações da morte).
 Interrogo-me se serão de facto as mesmas personagens ou antes personagens distintas com o mesmo nome, vivendo existências paralelas. É que a autora gosta de histórias de duplos (“sempre gostei de duplos: as de Edgar Poe, Hoffmann, Henry James, Dostoievski, as palavras de Ivan Karamazov sei quem tu és, tu és eu mesmo, mas trazes contigo o que estava morto há muito tempo “ – A água e o fogo, O ponto de vista dos demónios).
Na narrativa o elemento duplo é trabalhado de diversas formas. Na própria acção, quando Tom substitui Kevin (na verdade, este é uma versão do primeiro na peça que representa). Na mente de Tom, que vai transformando, a Jane que está ao seu lado na personagem que através dela constrói. Até ao momento em que as duas – real e imaginada – se confundem. Gerando sentimentos ambivalentes no criador.
Mas também na forma como o meio natural surge na acção. Primeiro, o lago gelado é pacífico e tranquilo, imutável, permitindo a Tom e a Jane afastarem-se da velocidade do mundo para viverem a sua história. No momento em que Jane compreende o que dela é pretendido, o lago coberto de gelo e a paisagem cheia de neve perdem a sua beleza. A partir daí, a autora consegue transmitir-nos uma natureza soficante e claustrofóbica, quase ameaçadora. Até que as primeiras flores primaveris deixam adivinhar a libertação.
Por conta dos livros desta autora descobri escritores como Henry James e Iris Murdoch e pintores William Turner, recorrentemente referidos. Só por isso, já teria valido a pena.
Mas Ana Teresa Pereira vale por si só. Pelo universo literário que construiu. Os seus livros têm uma enorme beleza poética. As personagens apresentam-se com uma reserva muito própria. Sentimos que viram a fealdade do mundo. Mas que, embora a aceitem, dela não comungam. Estão no mundo, mas não lhe dão demasiada importância. Exercem nele uma resistência tranquila, ancorada na arte e no amor.

Sem comentários:

Enviar um comentário