quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

O regresso de Rachel Cusk


Rachel Cusk numa fotografia do The Guardian
           Rachel Cusk está de volta. O único livro que li dela foi Arlington Park, romance em que a obra Mrs. Dalloway de Virgínia Woolf surge como figura tutelar. Quando foi publicado, o retrato de um conjunto de mulheres contemporâneas, outrora com sonhos e projectos próprios, confinadas à vida doméstica na sequência dos respectivos casamentos e maternidade, causou celeuma.
      Por um lado, pela forma admirável como o livro está escrito. Com subtileza e um olhar preciso, atento aos detalhes e com concisão. Mas também pela implacabilidade da história, deixando claro que, quando nos distraímos, corremos o risco de perder aquela margem de escolha que a vida nos confere. O retrato amargo das protagonistas de Arlington Park mereceu elogios e colocou Cusk como uma das figuras mais controversas da literatura inglesa actual.
     Esse estatuto foi reforçado com A life’s work: On becoming a mother. Neste livro, baseado na sua experiência pessoal, a escritora pôs a nu as ambivalências e dificuldades da tarefa maternal, não escondendo os sacrifícios que faz em prol das filhas. Não faltaram reacções negativas, muitas deles provenientes de mulheres.
     A ambivalência com que a sua obra é acolhida vai, quase de certeza, ganhar um novo capítulo, com a publicação de Aftermath: On Marriage and Separation, mais uma vez baseado na sua experiência pessoal.
      O jornal inglês The Guardian publicou há dias uma entrevista com a escritora (aqui). Para além de outras coisas é-lhe perguntado se alguma vez se arrependeu do que escreveu. Da resposta da escritora resulta que não. O que ela lamenta é o modo como os seus livros são apresentados, concluindo mesmo que muitos dos que sobre eles se pronunciam não os leram, muito menos na íntegra. O que gera preconceitos. Como o de se pensar que, por ter posto em relevo as dificuldades da maternidade, não gostava das filhas ou estava arrependida do nascimento destas.
     A entrevista é muito interessante. Mas melhor ainda será se o livro estiver disponível em Portugal, preferencialmente traduzido …

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

O pintor que gostava do Carnaval


            “Enfim … Confinei-me comprazidamente ao ambiente solitário onde impera a máscara, plena de violência, de luz e de brilho. A máscara sugere-me a frescura dos tons, a expressão cheia de agudeza, cenários sumptuosos, grandes gestos inesperados, movimentos desarticulados, uma turbulência refinada.”
  No seu livro Fête de Fous Saint – Jean & Belles de Mai – Une histoire du calendrier, Nadine Cretin dá-nos conta do traço comum caracterizador de todas as festas pagãs prévias ao período que hoje conhecemos como carnaval: a inversão da ordem comum ou habitual das coisas, muito especialmente no plano social. Durante este período o mundo é virado de cabeça para o ar, permitindo-se a contraversão dos papéis sociais (talvez o exemplo mais espantoso seja o da Babilónia, onde por volta do ano 2000 A.C., durante cinco dias um condenado à morte tomava o lugar do rei e este vivia durante igual período como um dos seus súbditos. Findo aquele período o “rei de substituição” era executado).
A inversão da ordem estava também presente nas máscaras que desde sempre integraram os desfiles, tendo um aspecto mágico e de protecção.  E também de crítica, claro. Este parece ser o único aspecto que se mantém nos carnavais contemporâneos, em particular os que se tornaram atracções turísticas.
           Ensor (1860-1949) nasceu em Ostende, cidade belga que não tinha então paralelo no que diz respeito aos festejos carnavalescos. O próprio pintor gostava de mascarar-se e meios para o efeito não lhe faltavam, pois a loja de sua mãe não tinha falta de adereços.
         As máscaras surgem com frequência na obra de Ensor, mas o seu interesse pelas mesmas ultrapassava em muito o imaginário carnavalesco. Exemplificativo dessa leitura mais ampla é este A intriga. As máscaras tomam o lugar dos rostos das personagens com expressões hostis e violentas. O lado lúdico das máscaras perde-se dando lugar à crítica, reforçada pela presença da morte, do lado direito do quadro.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Um post de natureza administrativa ...



          Ganhei um selinho. Foi oferta de um blogue do outro lado do Atlântico, que venho seguindo há algum tempo e de que gosto muito: Leituras e Observações .  
     Obrigada!
Pela minha parte, vou oferecer o selo a três blogues portugueses que venho seguindo com entusiasmo.
     quoteydiano
    
      Como receber o selo (se o quiser, claro):
       1. link de volta para o blogue que lho deu;
       2. cole o selo no seu blogue
       3. escolha cinco blogues (como se vê, eu só escolhi três) para o passar (cada um com menos de 200 seguidores)
       4. deixe um comentário a avisar que receberam o selo.

       Ainda em matéria de “novidades administrativas” terão notado que o blogue tem nova cara.  A mesma deve-se à generosidade da Joana, minha amiga na blogosfera e na vida real. Durante mais de dois anos fizemos parte de um clube de leitura onde se discutiram obras tão diversas como Persepólis de Marjane Satrapi, o Grande Gatsby de Fitzgerald ou Morte em Veneza de Thomas Mann. Foi também no clube que surgiu a génese deste blogue. Obrigada Joana!

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Uma história de encantar


À primeira vista, não parece. Mas Le Havre (de Aki Kaurismäki) é um conto de fadas disfarçado. A acção passa-se nos nossos dias, as personagens não são bonitas e o cenário em que se movem é francamente desolador.
E, no entanto, é uma história de solidariedade, em que os mais velhos, com um presente sombrio, arriscam ajudar uma criança que procura um futuro melhor. E é também uma história de amor.
 Mas o que torna este filme um conto de fadas é a coragem de romper com o pessimismo dominante e arriscar um final feliz. Contra todas as probabilidades.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Um conto de duas cidades, Charles Dickens


Celebra-se este ano o bicentenário do nascimento de Dickens (nasceu a 07/02/1812 e faleceu a 9 de Junho de 1870). Gosto de aniversários. Em particular, os que celebram nascimentos (ainda não percebi a lógica das celebrações do ano da morte de alguém, como por vezes também se vê por aí em relação a alguns escritores).
De Dickens, li pouco. Há o incontornável Conto de Natal, claro. Em relação a este, as dúzias de adaptações cinematográficas e televisivas não dispensam a leitura do livro. Mais ainda, não devem banalizar a sua mensagem. É certo que o Sr. Scrooge é confrontado com os fantasmas dos Natáis passado, presente e futuro. Mas acima de tudo é-lhe dada a oportunidade de reflectir sobre o que foi, o que é e o que será a sua vida, a menos que altere o curso do seu comportamento. E nessa perspectiva, como em tantas outras, o Natal é (ou pode ser) sempre que quisermos.
Do que li de Dickens foi de Um conto de duas cidades que mais gostei. É um dos dois romances históricos escritos por este autor. A acção desenrola-se antes e durante a Revolução Francesa, tendo como pano de fundo Londres e Paris. Dickens faz parte de um núcleo de escritores que descreveu as condições de vida das classes mais pobres. “Desromantizou” a pobreza, em particular a de uma nova classe criada pela revolução industrial, o operariado urbano. Neste aspecto, aproxima-se de Emile Zola que pôs a nu as condições de vida dos operários parisienses, desde logo no seu livro Germinal.
Em Um conto de duas cidades, Dickens descreve com minúcia e de forma apaixonante a situação prévia à Revolução Francesa e também os excessos dos primeiros anos da mesma. A acção inicia-se com uma passagem que ficou célebre, prenúncio da narrativa: “Era o melhor dos tempos, era o pior dos tempos, era a época da sabedoria, era a época da loucura, era a idade da crença, era a idade da descrença, era a estação da luz, era a estação das trevas, era a primavera da esperança, era o inverno do desespero, tínhamos tudo à nossa frente, não tínhamos nada à frente, íamos todos direitos ao Céu, íamos todos directamente para o outro lado – resumindo, a época estava tão avançada como a época actual, de forma que algumas das suas autoridades mais notórias insistiam em que ela fosse recebida, para o bem ou para o mal, apenas no grau superlativo de comparação”.
Ao longo do livro, acompanhamos várias personagens, assumindo particular relevo o triângulo formado por Charles Darnay, Sydney Carton e Lucie Manette. Mas é a personagem de Sydney Carton, mergulhado numa vida dissoluta da qual se redime através de um sacrifício por amor, que nos fica para sempre na memória.
Como disse, não li muita coisa de Dickens (por exemplo, Grandes Esperanças). Ainda assim, não hesito em recomendar Um conto de duas cidades como uma boa opção para quem queira comemorar o aniversário do nascimento de Dickens com a leitura de uma das suas obras.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012


Porque hoje não é dia dos namorados, pode falar-se de amor sem parecer pindérico. Ou piegas. E a verdade é que hoje é um dia tão bom como qualquer outro para falar do tema.                                            

Três velas, Marc Chagall

Tinham o rosto aberto a quem passava,
Tinham lendas e mitos
e frio no coração,
Tinham jardins onde a lua passeava
de mãos dadas com a água
e um anjo de pedro por irmão.

Tinham como toda a gente
o milagre de cada dia
escorrendo pelos telhados;
e olhos de oiro
onde ardiam
os sonos mais tresmalhados.

Tinham fome e sede como os bichos,
e silêncio
à roda dos seus passos.
Mas a cada gesto que faziam
um pássaro nascia dos seus dedos
e deslumbrado penetrava nos espaços

(Os Amantes sem dinheiro, de Eugénio Andrade)

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

i carry your heart with me

i carry your heart with me (i carry it in
my heart) i am never without it (anywhere
i go you go, my dear; and whatever is done                          
by only me is your doing, my darling)

i fear
no fate (for you are my fate, my sweet) i want
no world (for beautiful you are my world, my true)
and it's you are whatever a moon has always meant
and whatever a sun will always sing is you

here is the deepest secret nobody knows
(here is the root of the root and the bud of the bud
and the sky of the sky of a tree called life; which grows
higher than the soul can hope or mind can hide)
and this is the wonder that's keeping the stars apart

i carry your heart (i carry it in my heart)

trago o teu coração comigo (trago-o no
meu coração) nunca estou sem ele (onde quer que
vá, meu querido e o que quer que faça
é feito por ti)

não temo
o destino (pois tu és o meu destino) não quero
o mundo (pois tu és o meu mundo, a minha verdade)
e tu és o significado da lua
e o que o sol sempre cantará

aqui está o mais profundo segredo
(aqui está a raiz da raiz e o botão do botão
e o céu do céu de uma árvore chamada vida, que cresce
mais alto do que a alma pode esperar ou a mente pode esconder
e esta é a maravilha que mantém as estrelas separadas

trago o teu coração comigo (trago-o no meu coração)

O poema é de e.e.cummings, poeta norte-americano. Acho-o muito bonito e por isso decidi partilhá-lo. A  (tentativa) de tradução é minha.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Os Buddenbrook, Thomas Mann

Os Buddenbrook foi o primeiro romance publicado por Thomas Mann (1901), tendo sido escrito antes do autor ter  completado trinta anos.
A densidade da obra e a sua consistência, sempre impressionariam, mas a idade do autor quando a escreveu é um factor adicional de admiração.
O romance surge estruturado com uma forma clássica, acompanhando a evolução da família que lhe dá o título. Um dos aspectos que chama atenção é o carácter depurado da escrita, rica em detalhes e descrições. Disso exemplificativo são as descrições das refeições familiares, dos cenários ou do vestuário das personagens (por exemplo: “Tony recebeu-o no salão. Gostava imenso de receber visitas nessa sala forrada de seda castanha e, como sem perceber as coisas claramente, tivesse um sentimento intenso e solene da importância da sua actual situação, não fez, naquele dia, uma excepção com o pai. Aparentava saúde e tinha aspecto bonito e sério no seu vestido cinzento claro, enfeitado de rendas no peito e nos pulsos com mangas amplas e crinolina muito vasta, conforme a última moda. Um pequeno alfinete de brilhantes fechava a gola.” – pág. 169). Sobretudo por esta riqueza de detalhes é um livro para ler devagar, saboreando as construções do escritor.
O livro narra a história da família que dá nome ao livro, ao longo da última parte do século XIX. Trata-se de uma família da alta burguesia alemã ligada ao comércio. Orgulhosa do que construiu e confiante no que o futuro lhe reserva. Símbolo desse orgulho e confiança é o livro que existe na família e que vai passando entre as gerações, onde é inscrito o nome de cada membro e o seu contributo para o crescimento do núcleo familiar e da empresa. Verdadeiramente, as duas realidades são uma só.
Contudo, à medida que avançamos na leitura percebemos que a confiança no futuro enquanto lugar de prosperidade sai falseada. Aquilo a que assistimos ao longo do livro (e que o título do mesmo já deixa antever) é o ocaso da família e do negócio construído pela mesma.
Um dos aspectos interessantes do livro é constatarmos os motivos dessa queda. Ela acompanha o fim de um tipo de civilização. Mas não lhe é imputável. A decadência dos Buddenbrook resulta de causas intrínsecas à família e mesmo de um elemento pouco conforme à ordem burguesa: o acaso.
O essencial do livro acompanha as vidas dos irmãos Antoine, Thomas e Christian Buddenbrook. Dos três, apenas Antoine se revê ainda no modelo de integração do eu na família. Mas os actos que leva a cabo para reforçar o prestígio comercial da família (dois casamentos) não têm sucesso, não só no plano dos negócios, mas mesmo numa perspectiva mais pessoal (a ligação dos dois elementos é estrutural na personagem). Curiosamente, reconhecendo embora os fracassos, não parece lamentar as opções feitas. Em momento algum, a vemos reflectir sobre um eventual percurso alternativo. Na verdade, não fosse a sua condição feminina e a época em que viveu, seria ela a pessoa talhada para comandar os destinos da família e da empresa.
Christian desde o início demarca-se da família. Não aceita submeter o seu destino aos interesses daquela, acabando por lhe escapar. Contudo, também não apresenta nenhum modo de vida alternativa. Vive, apenas. O que é manifestamente pouco para um Buddenbrook.  
A meu ver, a figura mais cativante do livro é Thomas Buddenbrook. Desde o início procura um compromisso entre os seus interesses pessoais e os deveres que reconhece seus, atenta a sua posição na família. Tal compromisso é visível, por exemplo, na escolha que faz no momento de contrair casamento, elegendo para esposa uma mulher com um temperamento artístico, um pouco fora dos cânones burgueses (mas não demasiado afastada destes). Durante uma parte da acção, tal equilíbrio parece ter sido encontrado. Porém, à medida que os anos passam, também Thomas não se realiza com as escolhas feitas, quer no plano dos negócios, quer na esfera pessoal (insucesso agravado pelas incapacidades do único filho). O que distingue Thomas da irmã Antoine é a consciência do seu fracasso, não tanto enquanto membro da família, mas enquanto indivíduo.
É no percurso destas três personagens que se vai sentindo o fim dos Buddenbrook tal como se conheciam a si mesmos e eram conhecidos.  Mas o interesse do livro, a meu ver, está sobretudo na capacidade de nos dar a conhecer uma escala de valores sociais muito diferentes da dominante nos nossos dias. Retrata um tempo em que o indivíduo procurava a realização pessoal em algo que o transcendia. O que faz um contraste interessante com a nossa sociedade, tão marcada por elementos individualistas e hedonistas.

domingo, 5 de fevereiro de 2012

         Retrato do fim de semana (com excepção dos pessêgos)
   

(O quadro é de Matisse)

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

“Sempre imaginei que o paraíso será uma espécie de biblioteca” disse Jorge Luís Borges. Quem diz biblioteca, diz livraria. Se bem que ao preço a que os livros estão a ideia de livraria como um pedaço de paraíso se esfume mais facilmente.
   Vem isto a propósio da lista das vinte livrarias mais bonitas do mundo que pode ver-se neste endereço: http://flavorwire.com/254434/the-20-most-beautiful-bookstores-in-the-world
Haverá outras listas possíveis, mas esta tem uma agradável particularidade: inclui a Livraria Lello (Porto) e a Ler Devagar (Lisboa). Numa selecção à escala mundial, não ficamos mal na fotografia.
Para além das portuguesas, apenas conheço a Shakespeare & Company (Paris) e The American Book Center (Amesterdão). Sem dúvida, todas muito bonitas. Mas ainda assim, não resisto a deixar um comentário, elucidativo de que realmente não há bela sem senão. É que as livrarias que são simultaneamente lugares de interesse turístico acabam por se tornar um local de difícil acesso para os que deveriam ser o seu verdadeiro público: os leitores. Não me hei-de esquecer da visita que fiz à Lello com um dos empregados a repetir perante hordas de turistas indisciplinados entusiasmados com as escadas e o tecto da loja (e com razão), “no photo, no photo”. A minha visita à Shakespeare & Company também não foi particularmente bem sucedida. O espaço é exíguo e o aglomerado de turistas desejosos de refazer os passos de Hemingway e outros notáveis, torna quase impossível ficar parado frente a uma estante a ver … os livros.
Isto dito, claro que não me importava mesmo nada de levar a cabo o périplo sugerido por estas fotografias. Até porque algumas delas, como o Ateneo em Buenos Aires, parecem-me espaços bem desafogados.


quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012