terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

O pintor que gostava do Carnaval


            “Enfim … Confinei-me comprazidamente ao ambiente solitário onde impera a máscara, plena de violência, de luz e de brilho. A máscara sugere-me a frescura dos tons, a expressão cheia de agudeza, cenários sumptuosos, grandes gestos inesperados, movimentos desarticulados, uma turbulência refinada.”
  No seu livro Fête de Fous Saint – Jean & Belles de Mai – Une histoire du calendrier, Nadine Cretin dá-nos conta do traço comum caracterizador de todas as festas pagãs prévias ao período que hoje conhecemos como carnaval: a inversão da ordem comum ou habitual das coisas, muito especialmente no plano social. Durante este período o mundo é virado de cabeça para o ar, permitindo-se a contraversão dos papéis sociais (talvez o exemplo mais espantoso seja o da Babilónia, onde por volta do ano 2000 A.C., durante cinco dias um condenado à morte tomava o lugar do rei e este vivia durante igual período como um dos seus súbditos. Findo aquele período o “rei de substituição” era executado).
A inversão da ordem estava também presente nas máscaras que desde sempre integraram os desfiles, tendo um aspecto mágico e de protecção.  E também de crítica, claro. Este parece ser o único aspecto que se mantém nos carnavais contemporâneos, em particular os que se tornaram atracções turísticas.
           Ensor (1860-1949) nasceu em Ostende, cidade belga que não tinha então paralelo no que diz respeito aos festejos carnavalescos. O próprio pintor gostava de mascarar-se e meios para o efeito não lhe faltavam, pois a loja de sua mãe não tinha falta de adereços.
         As máscaras surgem com frequência na obra de Ensor, mas o seu interesse pelas mesmas ultrapassava em muito o imaginário carnavalesco. Exemplificativo dessa leitura mais ampla é este A intriga. As máscaras tomam o lugar dos rostos das personagens com expressões hostis e violentas. O lado lúdico das máscaras perde-se dando lugar à crítica, reforçada pela presença da morte, do lado direito do quadro.

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