terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Os Buddenbrook, Thomas Mann

Os Buddenbrook foi o primeiro romance publicado por Thomas Mann (1901), tendo sido escrito antes do autor ter  completado trinta anos.
A densidade da obra e a sua consistência, sempre impressionariam, mas a idade do autor quando a escreveu é um factor adicional de admiração.
O romance surge estruturado com uma forma clássica, acompanhando a evolução da família que lhe dá o título. Um dos aspectos que chama atenção é o carácter depurado da escrita, rica em detalhes e descrições. Disso exemplificativo são as descrições das refeições familiares, dos cenários ou do vestuário das personagens (por exemplo: “Tony recebeu-o no salão. Gostava imenso de receber visitas nessa sala forrada de seda castanha e, como sem perceber as coisas claramente, tivesse um sentimento intenso e solene da importância da sua actual situação, não fez, naquele dia, uma excepção com o pai. Aparentava saúde e tinha aspecto bonito e sério no seu vestido cinzento claro, enfeitado de rendas no peito e nos pulsos com mangas amplas e crinolina muito vasta, conforme a última moda. Um pequeno alfinete de brilhantes fechava a gola.” – pág. 169). Sobretudo por esta riqueza de detalhes é um livro para ler devagar, saboreando as construções do escritor.
O livro narra a história da família que dá nome ao livro, ao longo da última parte do século XIX. Trata-se de uma família da alta burguesia alemã ligada ao comércio. Orgulhosa do que construiu e confiante no que o futuro lhe reserva. Símbolo desse orgulho e confiança é o livro que existe na família e que vai passando entre as gerações, onde é inscrito o nome de cada membro e o seu contributo para o crescimento do núcleo familiar e da empresa. Verdadeiramente, as duas realidades são uma só.
Contudo, à medida que avançamos na leitura percebemos que a confiança no futuro enquanto lugar de prosperidade sai falseada. Aquilo a que assistimos ao longo do livro (e que o título do mesmo já deixa antever) é o ocaso da família e do negócio construído pela mesma.
Um dos aspectos interessantes do livro é constatarmos os motivos dessa queda. Ela acompanha o fim de um tipo de civilização. Mas não lhe é imputável. A decadência dos Buddenbrook resulta de causas intrínsecas à família e mesmo de um elemento pouco conforme à ordem burguesa: o acaso.
O essencial do livro acompanha as vidas dos irmãos Antoine, Thomas e Christian Buddenbrook. Dos três, apenas Antoine se revê ainda no modelo de integração do eu na família. Mas os actos que leva a cabo para reforçar o prestígio comercial da família (dois casamentos) não têm sucesso, não só no plano dos negócios, mas mesmo numa perspectiva mais pessoal (a ligação dos dois elementos é estrutural na personagem). Curiosamente, reconhecendo embora os fracassos, não parece lamentar as opções feitas. Em momento algum, a vemos reflectir sobre um eventual percurso alternativo. Na verdade, não fosse a sua condição feminina e a época em que viveu, seria ela a pessoa talhada para comandar os destinos da família e da empresa.
Christian desde o início demarca-se da família. Não aceita submeter o seu destino aos interesses daquela, acabando por lhe escapar. Contudo, também não apresenta nenhum modo de vida alternativa. Vive, apenas. O que é manifestamente pouco para um Buddenbrook.  
A meu ver, a figura mais cativante do livro é Thomas Buddenbrook. Desde o início procura um compromisso entre os seus interesses pessoais e os deveres que reconhece seus, atenta a sua posição na família. Tal compromisso é visível, por exemplo, na escolha que faz no momento de contrair casamento, elegendo para esposa uma mulher com um temperamento artístico, um pouco fora dos cânones burgueses (mas não demasiado afastada destes). Durante uma parte da acção, tal equilíbrio parece ter sido encontrado. Porém, à medida que os anos passam, também Thomas não se realiza com as escolhas feitas, quer no plano dos negócios, quer na esfera pessoal (insucesso agravado pelas incapacidades do único filho). O que distingue Thomas da irmã Antoine é a consciência do seu fracasso, não tanto enquanto membro da família, mas enquanto indivíduo.
É no percurso destas três personagens que se vai sentindo o fim dos Buddenbrook tal como se conheciam a si mesmos e eram conhecidos.  Mas o interesse do livro, a meu ver, está sobretudo na capacidade de nos dar a conhecer uma escala de valores sociais muito diferentes da dominante nos nossos dias. Retrata um tempo em que o indivíduo procurava a realização pessoal em algo que o transcendia. O que faz um contraste interessante com a nossa sociedade, tão marcada por elementos individualistas e hedonistas.

2 comentários:

  1. «A decadência dos Buddenbrook resulta de causas intrínsecas à família e mesmo de um elemento pouco conforme à ordem burguesa: o acaso.»

    Não concordo nada com esta ideia! Acho que, em última instância, a decadência da família se ficou a dever ao sacrifício dos interesses próprios e do amor, em suma, do seu "eu" que todos fizeram em prol da firma. Debalde.

    Seguramente que discutiremos esta questão mais desenvolvidamente. Para já, fica apenas a afirmação da discordância!

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  2. As afirmações, de concordância ou discordância, são sempre bem vindas por aqui!

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