quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Um conto de duas cidades, Charles Dickens


Celebra-se este ano o bicentenário do nascimento de Dickens (nasceu a 07/02/1812 e faleceu a 9 de Junho de 1870). Gosto de aniversários. Em particular, os que celebram nascimentos (ainda não percebi a lógica das celebrações do ano da morte de alguém, como por vezes também se vê por aí em relação a alguns escritores).
De Dickens, li pouco. Há o incontornável Conto de Natal, claro. Em relação a este, as dúzias de adaptações cinematográficas e televisivas não dispensam a leitura do livro. Mais ainda, não devem banalizar a sua mensagem. É certo que o Sr. Scrooge é confrontado com os fantasmas dos Natáis passado, presente e futuro. Mas acima de tudo é-lhe dada a oportunidade de reflectir sobre o que foi, o que é e o que será a sua vida, a menos que altere o curso do seu comportamento. E nessa perspectiva, como em tantas outras, o Natal é (ou pode ser) sempre que quisermos.
Do que li de Dickens foi de Um conto de duas cidades que mais gostei. É um dos dois romances históricos escritos por este autor. A acção desenrola-se antes e durante a Revolução Francesa, tendo como pano de fundo Londres e Paris. Dickens faz parte de um núcleo de escritores que descreveu as condições de vida das classes mais pobres. “Desromantizou” a pobreza, em particular a de uma nova classe criada pela revolução industrial, o operariado urbano. Neste aspecto, aproxima-se de Emile Zola que pôs a nu as condições de vida dos operários parisienses, desde logo no seu livro Germinal.
Em Um conto de duas cidades, Dickens descreve com minúcia e de forma apaixonante a situação prévia à Revolução Francesa e também os excessos dos primeiros anos da mesma. A acção inicia-se com uma passagem que ficou célebre, prenúncio da narrativa: “Era o melhor dos tempos, era o pior dos tempos, era a época da sabedoria, era a época da loucura, era a idade da crença, era a idade da descrença, era a estação da luz, era a estação das trevas, era a primavera da esperança, era o inverno do desespero, tínhamos tudo à nossa frente, não tínhamos nada à frente, íamos todos direitos ao Céu, íamos todos directamente para o outro lado – resumindo, a época estava tão avançada como a época actual, de forma que algumas das suas autoridades mais notórias insistiam em que ela fosse recebida, para o bem ou para o mal, apenas no grau superlativo de comparação”.
Ao longo do livro, acompanhamos várias personagens, assumindo particular relevo o triângulo formado por Charles Darnay, Sydney Carton e Lucie Manette. Mas é a personagem de Sydney Carton, mergulhado numa vida dissoluta da qual se redime através de um sacrifício por amor, que nos fica para sempre na memória.
Como disse, não li muita coisa de Dickens (por exemplo, Grandes Esperanças). Ainda assim, não hesito em recomendar Um conto de duas cidades como uma boa opção para quem queira comemorar o aniversário do nascimento de Dickens com a leitura de uma das suas obras.

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