quinta-feira, 29 de março de 2012

Hokusai


“Mesmo que eu conseguisse fortuna, mesmo que alcançasse a glória, experimentaria decerto o sentimento de ter aproveitado mal a minha vida se deixasse um só dia que fosse de contemplar o universo. Bem cedo vem o tempo em que ricos, acalmados, contentes connosco próprios, indiferentes ao que antes nos desgostava ou nos apaixonava, cessamos de viver para apenas existir.”

                                                                Marguerite Yourcenar

quarta-feira, 28 de março de 2012

As mais bonitas livrarias do mundo (II)

O gosto é subjectivo. Por isso, aqui está uma nova lista das mais bonitas livrarias do mundo. Algumas escolhas repetem-se (designadamente a livraria Lello no Porto), mas há também descobertas surpreendentes. É o caso da Atlantis Books em Santorini ou da Daunt Books em Londres. Tudo razões acrescidas para sonhar com viagens neste início de Primavera solarengo!

quarta-feira, 21 de março de 2012

O sentido na vida, Susan Wolf

      Terá a vida um sentido? E se sim, qual? Posta a questão assim, creio que muitos não sabem o que responder. Um tal inquérito é muito pior do que as variantes do questionário de Marcel Proust, inquirindo-nos sobre qual o filme da nossa vida, o livro que mais nos marcou ou a cidade favorita.

       Susan Wolf tem passado parte da sua vida a procurar uma resposta. “O sentido na vida e por que razão é importante”, publicado na colecção Filosoficamente, da Bizâncio apresenta dois ensaios de resposta.

      Wolf é uma filósofa norte-americana com uma longa carreira académica em universidades como Harvard, Maryland e, actualmente, a Universidade da Carolina do Norte. O seu trabalho abrange várias áreas, com predominância para a ética, a filosofia moral e a da mente.


      O tema, não é, reconhecidamente, fácil. Mas Wolf escreve com grande clareza e concisão, o que torna a leitura, não só intelectualmente estimulante, mas um verdadeiro prazer. A autora distingue a procura do sentido na vida da felicidade e da moralidade, temas com as quais é por vezes confundida, procurando um equilíbrio entre os interesses subjectivos e os valores objectivos. A sua investigação conduziu-a a formular a tese de que o sentido na vida emerge de se amar objectos dignos de amor e da entrega a eles de modo positivo.
       Na estrutura do livro, a exposição da sua tese é objecto de comentário e resposta por parte de quatro outros estudiosos: John Koethe, Robert M. Adams, Nomy Arpaly e Jonathan Haidt, todos com curricula impressionantes na área da filosofia e da psicologia (o último é autor de “A conquista da felicidade – os contributos da sabedoria antiga e da ciência moderna”, publicado pela Sinais de Fogo).  


Podemos discutir se faz sequer sentido procurar o sentido na vida. Há quem não se ocupe de tais matérias e há mesmo quem delas se ocupando conclua pela inexistência de sentido, quer no plano absoluto (negando a existência de um sentido susceptível de ser aceite por todos ou por um larga maioria), quer mesmo no plano individual. Há também quem diga que o sentido da vida é ir vivendo o melhor possível. Pela minha parte, penso que procurar o sentido na vida não é tempo perdido ou tarefa de desocupado. Sempre que releio A morte de Ivan Ilitch de León Tolstói parece-me que o drama da personagem assenta, não apenas no confronto com a proximidade da morte, mas numa sensação de que apesar da aparência de realização vital, não só não tocou no cerne da questão, como tudo fez para o evitar.

        Não obstante pensar que encontrar sentido na vida (ou mais modestamente, na minha vida) é importante, não sei se atingirei tal objectivo. Mas não vou desistir desse propósito. Nessa medida, gostei e recomendo a leitura deste livro. Por um lado, pela objectividade e clareza com que todos os intervenientes escrevem. Por outro lado, pelas pistas de reflexão que deixa.  

        Para quem se interesse pelo tema, uma outra leitura a considerar é o conjunto de ensaios compilados e organizados por Desidério Murcho sob o título “Viver para quê – Ensaios sobre o sentido da vida” (Dinalivro).

terça-feira, 13 de março de 2012

Um antídoto para os Albanos desta vida ...



"A única coisa de que tenho receio é que um dia o preto derrote o vermelho."
in Vermelho (John Logan), em cena no Teatro Aberto.

(O quadro é O quarto vermelho, de Matisse) 

segunda-feira, 12 de março de 2012

A tempestade, Ferreira de Castro

    Quando terminei a leitura deste livro, ganhei uma certeza. A personagem principal é seguramente das mais antipáticas que encontrei na minha vida de leitora!
      A acção deste livro decorre em Portugal, mas a emigração e suas consequências são abordadas em alguns pontos da narrativa. A história decorre num único dia. É através das memórias do protagonista (de seu nome Albano) que vamos ficando a conhecer episódios anteriores à acção, importantes para o desenrolar da mesma.
         Albano é um empregado bancário, de trinta e nove anos. Viúvo e com uma filha pequena, apaixona-se por Cecília. Esta é uma mulher proveniente de boas famílias, com um percurso de vida muito distinto do de Albano. Apesar das diferenças casam-se.
        Quando a acção se inicia Albano tomou conhecimento por um colega de que Cecília o trai, encontrando-se regularmente com outro homem. A única solução que o protagonista encontra para esta situação é matar a mulher e suicidar-se em seguida. É neste estado de espírito que o acompanhamos ao longo do dia, numa dinâmica ficcional que recorda um pouco os contos de Tchekhov.
        O tema do marido traído (na realidade ou apenas na imaginação) é comum na literatura ocidental. Otelo de Shakespeare, Sonata a Kreutzer de Tolstói ou Dom Casmurro de Machado de Assis são exemplos de obras em que a traição feminina é o tema central.
        Só em Otelo a acção é exterior ao protagonista. Tolstói e Machado de Assis dão voz ao “traído”. Este é um dos pontos em que o livro de Ferreira de Castro se distingue. Grande parte da acção é vista pela óptica de Albano. Mas Cecília tem igualmente oportunidade de nos dar a conhecer a sua versão da história.
       Se num primeiro momento sentimos alguma simpatia por Albano, à medida que vamos avançando na acção a mesma esbate-se. O modo como ele próprio vai relatando os acontecimentos conduz-nos à percepção de que estamos perante um homem mesquinho, tacanho e egoísta. Um homem que mede o valor dos outros (e, em particular, as mulheres com quem se cruza) pela sua fraca medida e  que tem um sentido de “honra” distorcido. Na verdade, quando Albano reentra em casa para confrontar Cecília, eu já antipatizava de tal forma com ele, que dei por mim a desejar que a infidelidade fosse verdadeira e que outros castigos o esperassem ainda.
       Em alguns aspectos este livro de Ferreira de Castro é datado. O contexto social e moral em que as personagens se movem já não encontra eco no nosso país. Mas ainda assim, e afastado esse circunstancialismo, no retrato do protagonista como homem banal que não consegue ver para além de si mesmo, não podemos deixar de reconhecer muitos outros Albanos que andam por aí.       
      Ferreira de Castro é um dos precursores do realismo literário português. Nasceu em 1898 e faleceu em 1974. O seu livro mais conhecido é Os Emigrantes, baseado na sua experiência como emigrante na floresta amazónica.
         

segunda-feira, 5 de março de 2012

Baku - últimos dias, Olivier Rolin


Olivier Rolin

     Há anos atrás, quando a URSS era uma potência e o Bloco de Leste uma realidade, existia uma revista chamada Vida Soviética.
       A maior parte dos artigos não era particularmente interessante (pelo menos aos meus olhos). Na verdade, a única rubrica que me captava a atenção era a dedicada ao quotidiano dos cidadãos soviéticos nas várias repúblicas. Foi através da Vida Soviética que descobri a existência de terras como o Quirguistão ou a Geórgia, o Azerbeijão ou a Lituânia. Hoje, se já sabe, são todos estados independentes. Acabou-se a URSS, a cortina de ferro e, escusado será dizer, a Vida Soviética.
Lembrei-me desta revista quando comprei Baku – últimos dias, o mais recente livro de Olivier Rolin.
Não leio muita literatura de viagens. Mas Rolin é um dos mais conceituados escritores franceses da actualidade, tendo já vencido o Prémio Femina, o France Culture e tendo sido finalista do Goncourt). Por outro lado, como sempre acontece com os grandes livros, Baku – últimos dias, não pode ser reconduzido a um género literário específico (tal como sucede com Istambul – Memórias de Uma Cidade, de Orham Pamuk).
Rolin ensaia um regresso à capital do Azerbeijão que já servira de cenário a uma das histórias que integraram Suite no Hotel Crystal, onde o escritor descreveu o seu suicídio como tendo ocorrido num hotel de Baku em 2009. Quando esta data se começou a aproximar, os seus amigos instaram-no a não voltar a Baku. Mas Rolin desafiou a sorte e o poder mágico que alguns reconhecem à literatura, regressando à cidade. No seu relato, mostra-nos tudo o que Baku é. Quando mergulhamos no seu relato, damos por nós a procurar não esquecer as palavras em russo espalhadas pelo texto, como se precisássemos delas nas próximas horas.
O livro é um roteiro interior e exterior da cidade, num estilo muito directo e conciso onde se detecta a experiência jornalística de Rolin. Através das suas páginas ficamos a conhecer as principais atracções turísticas de Baku, algumas das suas personalidades mais interessantes (como Tahir Salakhov, pintor ou Fidin Hajiyere, cantora de ópera) e curiosidades históricas (pela minha parte, desconhecia em absoluto que De Gaulle esteve na capital do Azerbeijão).
Em nenhum momento este livro se torna aborrecido ou previsível. As descrições (enriquecidas com algumas fotografias a preto e branco) vão sendo alternadas com o percurso interior de Rolin. Enquanto nos dá a conhecer Baku, o escritor convoca-nos para partilhármos as suas dúvidas e hesitações, a sua vida tal como ela é e como ela poderia ser.
Realidade ou ficção? As duas andam de mãos dadas e não é fácil discernir onde começa uma e acaba outra. De uma maneira ou de outra, Baku - últimos dias, é um livro que prende da primeira à última página. Mesmo que a capital do Azerbeijão não seja um destino no topo da lista de viagens ...
                                       






sexta-feira, 2 de março de 2012

Estar dentro do livro

Sentia sempre isto nas tardes de fim-de-semana passadas a ler as aventuras dos Cinco. E, talvez mais estranhamente, quando li O amor nos tempos de cólera, já adolescente.

       Podem ver o link de onde tirei a imagem aqui.