segunda-feira, 5 de março de 2012

Baku - últimos dias, Olivier Rolin


Olivier Rolin

     Há anos atrás, quando a URSS era uma potência e o Bloco de Leste uma realidade, existia uma revista chamada Vida Soviética.
       A maior parte dos artigos não era particularmente interessante (pelo menos aos meus olhos). Na verdade, a única rubrica que me captava a atenção era a dedicada ao quotidiano dos cidadãos soviéticos nas várias repúblicas. Foi através da Vida Soviética que descobri a existência de terras como o Quirguistão ou a Geórgia, o Azerbeijão ou a Lituânia. Hoje, se já sabe, são todos estados independentes. Acabou-se a URSS, a cortina de ferro e, escusado será dizer, a Vida Soviética.
Lembrei-me desta revista quando comprei Baku – últimos dias, o mais recente livro de Olivier Rolin.
Não leio muita literatura de viagens. Mas Rolin é um dos mais conceituados escritores franceses da actualidade, tendo já vencido o Prémio Femina, o France Culture e tendo sido finalista do Goncourt). Por outro lado, como sempre acontece com os grandes livros, Baku – últimos dias, não pode ser reconduzido a um género literário específico (tal como sucede com Istambul – Memórias de Uma Cidade, de Orham Pamuk).
Rolin ensaia um regresso à capital do Azerbeijão que já servira de cenário a uma das histórias que integraram Suite no Hotel Crystal, onde o escritor descreveu o seu suicídio como tendo ocorrido num hotel de Baku em 2009. Quando esta data se começou a aproximar, os seus amigos instaram-no a não voltar a Baku. Mas Rolin desafiou a sorte e o poder mágico que alguns reconhecem à literatura, regressando à cidade. No seu relato, mostra-nos tudo o que Baku é. Quando mergulhamos no seu relato, damos por nós a procurar não esquecer as palavras em russo espalhadas pelo texto, como se precisássemos delas nas próximas horas.
O livro é um roteiro interior e exterior da cidade, num estilo muito directo e conciso onde se detecta a experiência jornalística de Rolin. Através das suas páginas ficamos a conhecer as principais atracções turísticas de Baku, algumas das suas personalidades mais interessantes (como Tahir Salakhov, pintor ou Fidin Hajiyere, cantora de ópera) e curiosidades históricas (pela minha parte, desconhecia em absoluto que De Gaulle esteve na capital do Azerbeijão).
Em nenhum momento este livro se torna aborrecido ou previsível. As descrições (enriquecidas com algumas fotografias a preto e branco) vão sendo alternadas com o percurso interior de Rolin. Enquanto nos dá a conhecer Baku, o escritor convoca-nos para partilhármos as suas dúvidas e hesitações, a sua vida tal como ela é e como ela poderia ser.
Realidade ou ficção? As duas andam de mãos dadas e não é fácil discernir onde começa uma e acaba outra. De uma maneira ou de outra, Baku - últimos dias, é um livro que prende da primeira à última página. Mesmo que a capital do Azerbeijão não seja um destino no topo da lista de viagens ...
                                       






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