quarta-feira, 21 de março de 2012

O sentido na vida, Susan Wolf

      Terá a vida um sentido? E se sim, qual? Posta a questão assim, creio que muitos não sabem o que responder. Um tal inquérito é muito pior do que as variantes do questionário de Marcel Proust, inquirindo-nos sobre qual o filme da nossa vida, o livro que mais nos marcou ou a cidade favorita.

       Susan Wolf tem passado parte da sua vida a procurar uma resposta. “O sentido na vida e por que razão é importante”, publicado na colecção Filosoficamente, da Bizâncio apresenta dois ensaios de resposta.

      Wolf é uma filósofa norte-americana com uma longa carreira académica em universidades como Harvard, Maryland e, actualmente, a Universidade da Carolina do Norte. O seu trabalho abrange várias áreas, com predominância para a ética, a filosofia moral e a da mente.


      O tema, não é, reconhecidamente, fácil. Mas Wolf escreve com grande clareza e concisão, o que torna a leitura, não só intelectualmente estimulante, mas um verdadeiro prazer. A autora distingue a procura do sentido na vida da felicidade e da moralidade, temas com as quais é por vezes confundida, procurando um equilíbrio entre os interesses subjectivos e os valores objectivos. A sua investigação conduziu-a a formular a tese de que o sentido na vida emerge de se amar objectos dignos de amor e da entrega a eles de modo positivo.
       Na estrutura do livro, a exposição da sua tese é objecto de comentário e resposta por parte de quatro outros estudiosos: John Koethe, Robert M. Adams, Nomy Arpaly e Jonathan Haidt, todos com curricula impressionantes na área da filosofia e da psicologia (o último é autor de “A conquista da felicidade – os contributos da sabedoria antiga e da ciência moderna”, publicado pela Sinais de Fogo).  


Podemos discutir se faz sequer sentido procurar o sentido na vida. Há quem não se ocupe de tais matérias e há mesmo quem delas se ocupando conclua pela inexistência de sentido, quer no plano absoluto (negando a existência de um sentido susceptível de ser aceite por todos ou por um larga maioria), quer mesmo no plano individual. Há também quem diga que o sentido da vida é ir vivendo o melhor possível. Pela minha parte, penso que procurar o sentido na vida não é tempo perdido ou tarefa de desocupado. Sempre que releio A morte de Ivan Ilitch de León Tolstói parece-me que o drama da personagem assenta, não apenas no confronto com a proximidade da morte, mas numa sensação de que apesar da aparência de realização vital, não só não tocou no cerne da questão, como tudo fez para o evitar.

        Não obstante pensar que encontrar sentido na vida (ou mais modestamente, na minha vida) é importante, não sei se atingirei tal objectivo. Mas não vou desistir desse propósito. Nessa medida, gostei e recomendo a leitura deste livro. Por um lado, pela objectividade e clareza com que todos os intervenientes escrevem. Por outro lado, pelas pistas de reflexão que deixa.  

        Para quem se interesse pelo tema, uma outra leitura a considerar é o conjunto de ensaios compilados e organizados por Desidério Murcho sob o título “Viver para quê – Ensaios sobre o sentido da vida” (Dinalivro).

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