segunda-feira, 12 de março de 2012

A tempestade, Ferreira de Castro

    Quando terminei a leitura deste livro, ganhei uma certeza. A personagem principal é seguramente das mais antipáticas que encontrei na minha vida de leitora!
      A acção deste livro decorre em Portugal, mas a emigração e suas consequências são abordadas em alguns pontos da narrativa. A história decorre num único dia. É através das memórias do protagonista (de seu nome Albano) que vamos ficando a conhecer episódios anteriores à acção, importantes para o desenrolar da mesma.
         Albano é um empregado bancário, de trinta e nove anos. Viúvo e com uma filha pequena, apaixona-se por Cecília. Esta é uma mulher proveniente de boas famílias, com um percurso de vida muito distinto do de Albano. Apesar das diferenças casam-se.
        Quando a acção se inicia Albano tomou conhecimento por um colega de que Cecília o trai, encontrando-se regularmente com outro homem. A única solução que o protagonista encontra para esta situação é matar a mulher e suicidar-se em seguida. É neste estado de espírito que o acompanhamos ao longo do dia, numa dinâmica ficcional que recorda um pouco os contos de Tchekhov.
        O tema do marido traído (na realidade ou apenas na imaginação) é comum na literatura ocidental. Otelo de Shakespeare, Sonata a Kreutzer de Tolstói ou Dom Casmurro de Machado de Assis são exemplos de obras em que a traição feminina é o tema central.
        Só em Otelo a acção é exterior ao protagonista. Tolstói e Machado de Assis dão voz ao “traído”. Este é um dos pontos em que o livro de Ferreira de Castro se distingue. Grande parte da acção é vista pela óptica de Albano. Mas Cecília tem igualmente oportunidade de nos dar a conhecer a sua versão da história.
       Se num primeiro momento sentimos alguma simpatia por Albano, à medida que vamos avançando na acção a mesma esbate-se. O modo como ele próprio vai relatando os acontecimentos conduz-nos à percepção de que estamos perante um homem mesquinho, tacanho e egoísta. Um homem que mede o valor dos outros (e, em particular, as mulheres com quem se cruza) pela sua fraca medida e  que tem um sentido de “honra” distorcido. Na verdade, quando Albano reentra em casa para confrontar Cecília, eu já antipatizava de tal forma com ele, que dei por mim a desejar que a infidelidade fosse verdadeira e que outros castigos o esperassem ainda.
       Em alguns aspectos este livro de Ferreira de Castro é datado. O contexto social e moral em que as personagens se movem já não encontra eco no nosso país. Mas ainda assim, e afastado esse circunstancialismo, no retrato do protagonista como homem banal que não consegue ver para além de si mesmo, não podemos deixar de reconhecer muitos outros Albanos que andam por aí.       
      Ferreira de Castro é um dos precursores do realismo literário português. Nasceu em 1898 e faleceu em 1974. O seu livro mais conhecido é Os Emigrantes, baseado na sua experiência como emigrante na floresta amazónica.
         

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