sexta-feira, 27 de abril de 2012

Espelho meu, espelho meu ...




Já sabemos que os filmes de Walt Disney sobre contos de fadas estão longe da versão original. Inicialmente, esses contos não se destinavam a crianças e o seu final não era sempre feliz. Os contos, transmitidos oralmente, expressavam medos, tabus, angústias e constituíam avisos. Bruno Bettelheim apresentou uma interpretação sistemática desse contos no seu Psicanálise dos Contos de Fadas. E outros autores se lhe seguiram. E porque o sentido destas histórias não é linear, é sempre bom conhecer novas versões. Por isso, aguardo com expectativa a estreia de A Branca de Neve e o Caçador. Chega aos nossos cinemas a 1 de Junho próximo. Mas a banda sonora já deixa antever um grande filme.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

A poem a day keeps the doctor away ...


Imagem retirada de The Cool Hunter

Pego num pedaço de silêncio. Parto-o ao meio,
e vejo saírem de dentro dele as palavras que
ficaram por dizer. Umas, meto-as num frasco
com o álcool da memória, para que se
transformem num licor de remorso; outras,
guardo-as na cabeça para as dizer, um dia,
a quem me perguntar o que significam.
Mas o silêncio de onde as palavras saíram
volta a espalhar-se sobre elas. Bebo o licor
do remorso; e tiro da cabeça as outras palavras
que lá ficaram, até o ruído desaparecer, e só
o silêncio ficar, inteiro, sem nada por dentro.

                        O silêncio, Nuno Júdice, in A matéria do poema

segunda-feira, 23 de abril de 2012

















Uma das prendas recebidas neste aniversário.
Privilégios de quem tem amigos com gosto apurado!

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Arte pura

Kandinsky

Da arte pura
Dizem eles, os pintores, que o assunto não passa de uma falta de assunto: tudo é apenas um jogo de cores e volumes. Mas eu, humanamente, continuo desconfiando que deve haver alguma diferença entre uma mulher nua e uma abóbora.
                                                             Mário Quintana


segunda-feira, 16 de abril de 2012

Um monstro sanguinário ou um imperador visionário?

O remorso de Nero, pintado por J.W. Waterhouse (1878)

A imagem que tinha de Nero foi construída com base em Quo Vadis, romance de Henryk Sienkiewick, que valeu a este escritor polaco o Prémio Nobel da Literatura em 1905. O livro foi adaptado ao cinema no filme do mesmo nome, dirigido por Melvin Leroy. Ainda hoje é um dos filmes clássicos que as televisões emitem, designadamente por alturas da Páscoa. Nero é aí retratado como um déspota com aspirações artísticas que manda incendiar Roma para se inspirar na escrita de um poema épico.
A verdade, porém, é que não só Nero nada teve a ver com o incêndio de Roma, como, perante ele, actuou de forma pragmática, tomando medidas eficazes para socorrer os habitantes da cidade e para a subsequente reconstrução desta.
Essa revelação é um dos motivos pelos quais vale a pena ler “Nero – monstro sanguinário ou imperador visionário” (editado pela Texto & Grafia). O autor, Joel Schmidt, é um historiador e romancista francês, com mais de quarenta livro publicados. Este livro é uma obra curta, mas com muita informação. Schmidt contextualiza a vida de Nero e põe em relevo as características da sua personalidade, bem como as dificuldades concretas com que se foi debatendo ao longo da vida. A obra não isenta Nero de algumas das suas decisões políticas mais controversas (como a morte da sua mãe e da sua esposa), mas também permite vislumbrar um homem inteligente e com um projecto político para o Império. Sobretudo, põe fim ao popularizado retrato simplista deste Imperador como um louco.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Os dias do arco-íris, António Skármeta

António Skármeta
    “Em que maldita hora tinha sucumbido contra toda a análise ou lógica à vaidade de assumir a tentação de … salvar o Chile! Corrigiu este pensamento patético. O Chile não tinha sido salvo pelos mártires dos movimentos de resistência, nem pelos militares disciplinados, nem pelas centenas de milhares de amantes da liberdade que, aqui e ali, enfrentavam a repressão e ele, sumo pontífice dos néscios, tinha aceitado dirigir essa campanha que em vez de o levar à glória o iria conduzir ao inferno” (pág. 132)
Em 1988 realizou-se no Chile um plebiscito para decidir se Augusto Pinochet deveria manter-se no poder. Os partidos da oposição, ultrapassando as suas divergências em prol de um objectivo comum, coligaram-se no Movimento do Não, simbolizado por uma arco-íris. É nessa época que decorre a acção do livro de António Skármeta. Nascido em 1940, Skármeta é um dos mais famosos escritores sul-americanos dos nossos dias. Na sequência do golpe militar que colocou Augusto Pinochet no poder abandonou o Chile. Foi na Alemanha que escreveu e editou o seu maior sucesso até ao momento “O carteiro e o poeta”, livro no qual se inspirou o filme O carteiro de Pablo Neruda.
      Em Os dias do arco-íris Skármeta serve-se de dois narradores, que nos vão relatando a história em capítulos alternados no livro: Adrián Bettini e Nico.
Bettini é um publicitário talentoso mas desempregado que aceita a incumbência de criar a campanha do Não. Nico é um adolescente, filho de um professor de liceu desaparecido às mãos do regime chileno. É também colega e namorado da filha de Bettini, sendo esse o elo de ligação entre as duas narrativas.
        O estilo de Skármeta é directo e conciso. À medida que avançamos na história, mergulhamos no modo como se vivia, trabalha, estuda e amava nos dias finais do regime de Pinochet. Não parece ter sido de forma diferente do que se passa em tantas outras ditaduras, onde qualquer gesto, mesmo o mais inocente, pode ser mal interpretado e levar à morte. O drama dos desaparecidos é focado no livro, sobretudo através da história do professor Santos. Um aspecto interessante do livro é a forma como nos permite compreender as hesitações daqueles que querem opor-se ao regime, com os naturais receios de eventuais represálias. Outro aspecto muito bem conseguido é o retrato que é feito da total ausência de direitos dos cidadãos, perante a arbitrariedade de quem exerce o poder (seja ministro ou polícia).
Enquanto lia este livro não pude deixar de me questionar como seria a minha vida se vivesse num tal regime. Resistiria ou acomodar-me-ia à espera de dias melhores? Conhecendo a violência da repressão, de que este livro deixa também eco, não posso dizer que a segunda hipótese seja meramente teórica. Nem todos nascemos para ser heróis. Ou talvez devamos aspirar a sê-lo, ainda que em pequena escala. E tendo consciência que mesmo essa pequena escala pode implicar pagar um pesado tributo.
        Pelo que vai dito, acho que ler este livro seria sempre uma aposta ganha. Mas há ainda a mais-valia do final feliz, na grande e na pequena história, com páginas escritas de forma muito sensível sobre o poder da descoberta do amor.

terça-feira, 10 de abril de 2012

Para viver um grande amor, Vinicius de Moraes


Imagem retirada de Images of Love

Receita de Vinicius de Moraes, para cozinheiros (as) à altura das exigências da confecção do prato …
        
“Para viver um grande amor, preciso é muita concentração e muito siso, muita seriedade e pouco riso – para viver um grande amor.
Para viver um grande amor, mister é ser um homem de uma só mulher, pois ser de muitas, poxa! É de colher … não tem nenhum valor!
Para viver um grande amor, primeiro é preciso sagrar-se cavalheiro e ser de sua dama inteiro – seja lá como for. Há que fazer do corpo uma morada onde clausure-se a mulher amada e postar-se de forma com uma espada – para viver um grande amor.
        Para viver um grande amor, vos digo, é preciso atenção como o “velho amigo”, que porque é só vos quer sempre consigo para iludir o grande amor. É preciso muitíssimo cuidado com quem quer que não esteja apaixonado, pois quem não está, está sempre preparado para chatear o grande amor.
         Para viver um amor, na realidade, há que compenetrar-se da verdade de que não existe amor sem fieldade – para viver um grande amor. Pois quem trai seu amor por vanidade é um desconhecedor da liberdade, dessa imensa, indizível liberdade que traz um só amor.
        Para viver um grande amor, il faut, além de ser fiel, ser bem conhecedor da arte culinária e de judo – para viver um grande amor.
        Para viver um grande amor perfeito, não basta ser apenas bom sujeito; é preciso também ter muito peito – peito de remador. É preciso olhar a amada como a sua primeira namorada e sua viúva também, amortalhada no seu finado amor.
        É muito necessário ter em vista um crédito de rosas no florista – muito mais, muito mais do que na modista! – para aprazer ao grande amor. Pois do que o grande amor quer saber mesmo é de amor, é de amor, amor a esmo; depois um tutuzinho com torresmo conta ponto a favor…
        Conta ponto saber fazer coisinhas: ovos mexidos, camarões, sopinhas, molhos estrogonofes – comidinhas para depois do amor. E o que há de melhor que ir pra cozinha e preparar com amor uma galinha com uma rica e gostosa farofinha, para o seu grande amor?
        Para viver um grande amor, é muito, muito importante viver sempre junto e até ser, se possível, um só defunto – pra não morrer de dor. É preciso um cuidado permanente não só com o corpo mas também com a mente, pois qualquer “baixo” seu, a amada sente – e esfria um pouco o amor. Há que ser bem cortês sem cortesia; doce e conciliador sem covardia; saber ganhar dinheiro com poesia – para viver um grande amor.
        É preciso saber tomar uísque (com o mau bebedor nunca se arrisque!) e ser impermeável ao diz-que-disse – que não quer nada com o amor.
        Mas tudo isso não adianta nada, se nesta selva oscura e desvairada não se souber achar a bem-amada – para viver um grande amor.”

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Fernando e Florbela em Lisboa

   Sê plural como o universo é a frase de Fernando Pessoa que serve de título à exposição dedicada ao poeta na Fundação Calouste Gulbenkian. Pessoa é um poeta ainda não totalmente descoberto. O vasto espólio que já foi revelado apresenta-nos uma personagem complexa e única na história da literatura. Aos heterónimos mais conhecidos, acrescem outros que vêm sendo trazidos ao conhecimento público de modo gradual. Mas Pessoa não foi “apenas” poeta. Se o tivesse sido, tanto já seria bastante, sobretudo se tivermos em conta que cada heterónomo tem a sua personalidade, história de vida e escrita própria. Mas Fernando Pessoa escreveu ficção (por exemplo, a A hora do diabo e O banqueiro anarquista) e páginas de crítica literária, escrita filosófica e de intervenção pública. Avesso a filiações partidárias, não se escusou a defender publicamente as causas em que acreditava e os seus amigos (a polémica de António Botto é disso exemplificativa). Integrado no grupo dos modernistas ao lado de figuras como Almada Negreiros e Amadeo de Souza Cardoso, tinha também uma faceta mística e esotérica. Sem receios, trilhou esses e outros caminhos. A exposição da Fundação Calouste Gulbenkian, bem concebida e visualmente apelativa, permite-nos vislumbrar tudo isto.
          Muitas frases de Fernando Pessoa entraram já na língua portuguesa corrente, sendo empregues mesmo por quem não leu a sua poesia. “O melhor do mundo são as crianças”, “tudo vale a pena se a alma não é pequena” ou “o homem sonha, Deus quer, a obra nasce” são disso exemplos. O mesmo sucede com alguns dos versos de Florbela Espanca, como o célebre “eu quero amar, amar perdidamente”.
          Este fim-de-semana vi o filme sobre a sua vida, intitulado, simplesmente Florbela. E, de facto, o primeiro nome é mais do que suficiente para a identificar. Podem existir muitas Florbelas em Portugal, mas é a imagem da poetisa que me ocorre sempre que oiço tal nome. Alentejana, era dona de uma sensibilidade extrema, tendo a sua vida sido marcada por diversas tragédias pessoais, as quais desembocaram numa morte precoce. Aliás, morreu na madrugada do seu trigésimo sexto aniversário, 12 de Agosto de 1930. O filme que está agora em exibição nas salas de cinema é livremente inspirado na vida e na obra de Florbela. As interpretações são muito bem conseguidas, merecendo destaque, a meu ver, Dalila Carmo e Ivo Canelas. Conseguem transmitir a delicadeza e complexidade da relação de Florbela e do irmão, Apeles. A reconstituição histórica feita é primorosa e a banda sonora também muito bonita. Por todos estes motivos, é um filme que vale a pena ver. Até porque recolhe frases tão bonitas como esta: “O amor só é amor quando se perde o medo”.
          Quer a exposição de Fernando Pessoa, quer o filme sobre Florbela Espanca valem por si mesmos. Mas são também excelentes pretextos para mergulhar nas obras de qualquer destes poetas. Mais do que poetas de Portugal, os dois são poetas do mundo.

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Campanha de recolha de livros para Timor Leste

          Está a decorrer até ao próximo dia 15 de Abril uma campanha de recolha de livros (manuais escolares, dicionários, gramáticas, livros infantis e técnicos) para Timor Leste. A campanha é organizada pela Associação karingana wa karingana. Para participar, basta ir a uma qualquer estação dos CTT e entregar o livro que se pretende doar. Simples, não é?

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Maya Angelou

Maya Angelou
“We may encounter many defeats but we must not be defeated.”
A frase é de Maya Angelou que completa hoje 84 anos. O seu nome é incontornável entre os escritores norte-americanos, pela força da sua escrita e exemplo da sua vida.
Still I rise é um dos seus mais belos poemas. Foi publicado em 1978. É impossível não sentir novas forças quando o ouvimos, o que podem fazer aqui.

terça-feira, 3 de abril de 2012

O elogio da amizade

Aristóteles dedicou um capítulo ao estudo da amizade na sua Ética a Nicómaco Aristóteles. Ali escreveu: “Posto isto, analisemos agora a amizade. De facto, trata-se de uma certa excelência ou algo de estreitamente ligado à excelência; além disso, é do que mais necessário há para a vida. Pois ninguém há-de querer viver sem amigos, mesmo tendo todos os restantes bens. E até os ricos, os que têm posição e poder, têm uma necessidade extrema de amigos. Que vantagem haveria numa tal prosperidade se lhes tivesse retirada a possibilidade de fazer bem, sobretudo quando fazer bem aos amigos é o melhor e o mais louvável que há? Ou de que outro modo poderá ser cuidada e preservada a prosperidade assim sem amigos? Pois quanto maior for a prosperidade tanto maior é a insegurança que se sente. Assim, tanto na miséria como nas desgraças, pensa-se sempre que os amigos são o nosso único refúgio. Os amigos são uma ajuda para os mais novos, ao evitarem que façam disparates; e para os mais velhos, por cuidarem deles e por suprirem à perda crescente de autonomia que resulta da sua fraqueza. Mas para os que estão na força da vida, os amigos são uma ajuda para a realização de acções excelentes. “Quando dois vão em conjunto”. Na verdade, com amigos, somos capazes de pensar e agir melhor.”
          As palavras do filósofo vieram-me à cabeça enquanto assistia ao filme Les intouchables que em português mereceu o título Amigos Improváveis. Também nele a amizade é o tema central. Há de facto um grau de improbabilidade teórica na amizade entre os dois protagonistas. A diferença de idades e de nível sócio-económico seriam já dois factores a ter em conta. Mas também as limitações físicas de um deles a reforçam.
Ultrapassada a surpresa o que é tocante neste filme é como os dois encontram forma de tornear os condicionalismos que a vida lhes impôs, estando determinados a viver mais e o melhor possível. Com uma estrutura narrativa muito simples, o filme teve grande sucesso em França e começa agora a conquistar os espectadores portugueses. E vale a pena vê-lo. Porque está bem escrito, bem realizado e bem interpretado. E porque é inspirador, tanto mais que é baseado num caso real.
Depois de ver o filme, compreendo a escolha do título na versão portuguesa. Ainda assim gostaria que tivesse sido feita uma tradução literal do título original francês. Intocáveis. Imunes. Porque é assim que os verdadeiros amigos (aqui está um pleonasmo, pois não existem outros amigos que não os verdadeiros) nos fazem sentir. A salvo das dificuldades da vida e das contrariedades do mundo.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

A princesinha, Frances Burnett


Celebra-se hoje o Dia Internacional do Livro Infantil. Não sou a favor dos “dias de”. Mas este é um óptimo pretexto para deixar uma homenagem ao meu livro infantil favorito, lido e relido muitas e muitas vezes. Comecei por ler este livro na biblioteca da escola. Só meses mais tarde encontrei um exemplar numa papelaria. Foi aí que senti pela primeira vez a alegria de encontrar (finalmente!!!) um livro que desejamos muito.
A protagonista da história é Sara Crewe. Órfã de mãe, o pai coloca-a num colégio inglês, como era habitual nas crianças abastadas da época.
Sara nasceu na Índia, filha de um pai rico e viúvo que lhe faz todas as vontades. Mas isso não a torna caprichosa. Ao invés, apesar de ser ainda uma criança, Sara mostra-se um modelo de coragem e sensatez. Essas duas qualidades ganham o seu verdadeiro relevo quando a adversidade lhe bate à porta. O pai morre e a fortuna desaparece. Com isto, muda a sua posição no colégio, onde passa de aluna predilecta a criada sem qualquer espécie de direito. A história é também uma denúncia da situação social das crianças pobres no final do século XIX.
Ao longo da narrativa compreendemos que os acontecimentos não beliscam a essência de Sara, para irritação de alguns dos que a rodeiam. A menina mantém-se fiel à educação que recebeu e não abdica de uma outra característica que irrita particularmente a dona do colégio e algumas das antigas colegas: a imaginação, com que procura embelezar a tristeza da sua vida. Juntamente com aquela, a história enaltece uma outra virtude também essencial quando somos adultos: a coragem. Não só para lutar contra as adversidades na nossa vida, mas também para apoiarmos os outros nas dificuldades da vida deles.
Apesar de já não ler livros infantis, abro uma excepção para A princesinha. Releio-a todos os anos. E não hesito em sugerir a quem nunca a leu … que não deixe passar muito mais tempo sem conhecer Sara Crewe.