segunda-feira, 9 de abril de 2012

Fernando e Florbela em Lisboa

   Sê plural como o universo é a frase de Fernando Pessoa que serve de título à exposição dedicada ao poeta na Fundação Calouste Gulbenkian. Pessoa é um poeta ainda não totalmente descoberto. O vasto espólio que já foi revelado apresenta-nos uma personagem complexa e única na história da literatura. Aos heterónimos mais conhecidos, acrescem outros que vêm sendo trazidos ao conhecimento público de modo gradual. Mas Pessoa não foi “apenas” poeta. Se o tivesse sido, tanto já seria bastante, sobretudo se tivermos em conta que cada heterónomo tem a sua personalidade, história de vida e escrita própria. Mas Fernando Pessoa escreveu ficção (por exemplo, a A hora do diabo e O banqueiro anarquista) e páginas de crítica literária, escrita filosófica e de intervenção pública. Avesso a filiações partidárias, não se escusou a defender publicamente as causas em que acreditava e os seus amigos (a polémica de António Botto é disso exemplificativa). Integrado no grupo dos modernistas ao lado de figuras como Almada Negreiros e Amadeo de Souza Cardoso, tinha também uma faceta mística e esotérica. Sem receios, trilhou esses e outros caminhos. A exposição da Fundação Calouste Gulbenkian, bem concebida e visualmente apelativa, permite-nos vislumbrar tudo isto.
          Muitas frases de Fernando Pessoa entraram já na língua portuguesa corrente, sendo empregues mesmo por quem não leu a sua poesia. “O melhor do mundo são as crianças”, “tudo vale a pena se a alma não é pequena” ou “o homem sonha, Deus quer, a obra nasce” são disso exemplos. O mesmo sucede com alguns dos versos de Florbela Espanca, como o célebre “eu quero amar, amar perdidamente”.
          Este fim-de-semana vi o filme sobre a sua vida, intitulado, simplesmente Florbela. E, de facto, o primeiro nome é mais do que suficiente para a identificar. Podem existir muitas Florbelas em Portugal, mas é a imagem da poetisa que me ocorre sempre que oiço tal nome. Alentejana, era dona de uma sensibilidade extrema, tendo a sua vida sido marcada por diversas tragédias pessoais, as quais desembocaram numa morte precoce. Aliás, morreu na madrugada do seu trigésimo sexto aniversário, 12 de Agosto de 1930. O filme que está agora em exibição nas salas de cinema é livremente inspirado na vida e na obra de Florbela. As interpretações são muito bem conseguidas, merecendo destaque, a meu ver, Dalila Carmo e Ivo Canelas. Conseguem transmitir a delicadeza e complexidade da relação de Florbela e do irmão, Apeles. A reconstituição histórica feita é primorosa e a banda sonora também muito bonita. Por todos estes motivos, é um filme que vale a pena ver. Até porque recolhe frases tão bonitas como esta: “O amor só é amor quando se perde o medo”.
          Quer a exposição de Fernando Pessoa, quer o filme sobre Florbela Espanca valem por si mesmos. Mas são também excelentes pretextos para mergulhar nas obras de qualquer destes poetas. Mais do que poetas de Portugal, os dois são poetas do mundo.

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