terça-feira, 3 de abril de 2012

O elogio da amizade

Aristóteles dedicou um capítulo ao estudo da amizade na sua Ética a Nicómaco Aristóteles. Ali escreveu: “Posto isto, analisemos agora a amizade. De facto, trata-se de uma certa excelência ou algo de estreitamente ligado à excelência; além disso, é do que mais necessário há para a vida. Pois ninguém há-de querer viver sem amigos, mesmo tendo todos os restantes bens. E até os ricos, os que têm posição e poder, têm uma necessidade extrema de amigos. Que vantagem haveria numa tal prosperidade se lhes tivesse retirada a possibilidade de fazer bem, sobretudo quando fazer bem aos amigos é o melhor e o mais louvável que há? Ou de que outro modo poderá ser cuidada e preservada a prosperidade assim sem amigos? Pois quanto maior for a prosperidade tanto maior é a insegurança que se sente. Assim, tanto na miséria como nas desgraças, pensa-se sempre que os amigos são o nosso único refúgio. Os amigos são uma ajuda para os mais novos, ao evitarem que façam disparates; e para os mais velhos, por cuidarem deles e por suprirem à perda crescente de autonomia que resulta da sua fraqueza. Mas para os que estão na força da vida, os amigos são uma ajuda para a realização de acções excelentes. “Quando dois vão em conjunto”. Na verdade, com amigos, somos capazes de pensar e agir melhor.”
          As palavras do filósofo vieram-me à cabeça enquanto assistia ao filme Les intouchables que em português mereceu o título Amigos Improváveis. Também nele a amizade é o tema central. Há de facto um grau de improbabilidade teórica na amizade entre os dois protagonistas. A diferença de idades e de nível sócio-económico seriam já dois factores a ter em conta. Mas também as limitações físicas de um deles a reforçam.
Ultrapassada a surpresa o que é tocante neste filme é como os dois encontram forma de tornear os condicionalismos que a vida lhes impôs, estando determinados a viver mais e o melhor possível. Com uma estrutura narrativa muito simples, o filme teve grande sucesso em França e começa agora a conquistar os espectadores portugueses. E vale a pena vê-lo. Porque está bem escrito, bem realizado e bem interpretado. E porque é inspirador, tanto mais que é baseado num caso real.
Depois de ver o filme, compreendo a escolha do título na versão portuguesa. Ainda assim gostaria que tivesse sido feita uma tradução literal do título original francês. Intocáveis. Imunes. Porque é assim que os verdadeiros amigos (aqui está um pleonasmo, pois não existem outros amigos que não os verdadeiros) nos fazem sentir. A salvo das dificuldades da vida e das contrariedades do mundo.

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