quarta-feira, 11 de abril de 2012

Os dias do arco-íris, António Skármeta

António Skármeta
    “Em que maldita hora tinha sucumbido contra toda a análise ou lógica à vaidade de assumir a tentação de … salvar o Chile! Corrigiu este pensamento patético. O Chile não tinha sido salvo pelos mártires dos movimentos de resistência, nem pelos militares disciplinados, nem pelas centenas de milhares de amantes da liberdade que, aqui e ali, enfrentavam a repressão e ele, sumo pontífice dos néscios, tinha aceitado dirigir essa campanha que em vez de o levar à glória o iria conduzir ao inferno” (pág. 132)
Em 1988 realizou-se no Chile um plebiscito para decidir se Augusto Pinochet deveria manter-se no poder. Os partidos da oposição, ultrapassando as suas divergências em prol de um objectivo comum, coligaram-se no Movimento do Não, simbolizado por uma arco-íris. É nessa época que decorre a acção do livro de António Skármeta. Nascido em 1940, Skármeta é um dos mais famosos escritores sul-americanos dos nossos dias. Na sequência do golpe militar que colocou Augusto Pinochet no poder abandonou o Chile. Foi na Alemanha que escreveu e editou o seu maior sucesso até ao momento “O carteiro e o poeta”, livro no qual se inspirou o filme O carteiro de Pablo Neruda.
      Em Os dias do arco-íris Skármeta serve-se de dois narradores, que nos vão relatando a história em capítulos alternados no livro: Adrián Bettini e Nico.
Bettini é um publicitário talentoso mas desempregado que aceita a incumbência de criar a campanha do Não. Nico é um adolescente, filho de um professor de liceu desaparecido às mãos do regime chileno. É também colega e namorado da filha de Bettini, sendo esse o elo de ligação entre as duas narrativas.
        O estilo de Skármeta é directo e conciso. À medida que avançamos na história, mergulhamos no modo como se vivia, trabalha, estuda e amava nos dias finais do regime de Pinochet. Não parece ter sido de forma diferente do que se passa em tantas outras ditaduras, onde qualquer gesto, mesmo o mais inocente, pode ser mal interpretado e levar à morte. O drama dos desaparecidos é focado no livro, sobretudo através da história do professor Santos. Um aspecto interessante do livro é a forma como nos permite compreender as hesitações daqueles que querem opor-se ao regime, com os naturais receios de eventuais represálias. Outro aspecto muito bem conseguido é o retrato que é feito da total ausência de direitos dos cidadãos, perante a arbitrariedade de quem exerce o poder (seja ministro ou polícia).
Enquanto lia este livro não pude deixar de me questionar como seria a minha vida se vivesse num tal regime. Resistiria ou acomodar-me-ia à espera de dias melhores? Conhecendo a violência da repressão, de que este livro deixa também eco, não posso dizer que a segunda hipótese seja meramente teórica. Nem todos nascemos para ser heróis. Ou talvez devamos aspirar a sê-lo, ainda que em pequena escala. E tendo consciência que mesmo essa pequena escala pode implicar pagar um pesado tributo.
        Pelo que vai dito, acho que ler este livro seria sempre uma aposta ganha. Mas há ainda a mais-valia do final feliz, na grande e na pequena história, com páginas escritas de forma muito sensível sobre o poder da descoberta do amor.

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