quinta-feira, 31 de maio de 2012

Cosmopolis

Cena de Cosmopolis
Eric Parker é um triunfador. Aos vinte e oito anos circula por Nova Iorque numa limusina branca apetrechada com equipamentos tecnológicos que fazem o seu interior parecer uma nave espacial. É certo que é só mais uma limusina branca igual a tantas outras a rodar pela cidade. Mas a escolha desse modelo indicia a confiança de quem não precisa de chamar à atenção e a existência de dinheiro. Porque Parker é rico. É um self made man que fez sucesso na bolsa. É também, como nos apercebemos desde a primeira cena do filme, um cadáver adiado. Que, ao contrário, do descrito no poema de Fernando Pessoa, não procria. Ainda que não faltem no filme cenas de sexo. Vazio e mecânico. Nem outra coisa se poderia esperar de Parker.
O filme Cosmopolis é baseado no livro homónimo de Don DeLillo, romancista americano de créditos firmados. Editado em 2003, o livro obteve um acolhimento mediano. Mas o que surpreende desde logo é como a uma distância de dez anos Don DeLillo antecipou o momento histórico em que nos encontramos.
Cosmopolis é uma obra sobre a solidão dos que vivem na sociedade urbana e  individualista. Um modelo social cuja construção se iniciou no século XVII e que gradualmente foi sendo despida de qualquer sentido ético. Da conquista da liberdade chegou-se ao vazio existencial. Porque é esse o mal que acomete Parker. Tenta libertar-se por todos os meios. Aspira à compra de uma obra de arte que lhe está vedada. Persegue a mulher pelas ruas da cidade, procurando convencê-la a viver o casamento. Esta personagem é também ambígua, mas é curiosa a resposta que lhe dá quanto à necessidade de se proteger (dele, subentende-se), por ser uma pessoa sensível. Esgotado o sentido da vida nos negócios, o protagonista inicia a sua descida consciente. Depois de uma passagem pelos lugares da sua infância, percebemos que só o confronto com o seu inimigo e com a morte o pode levar a encontrar o que lhe escapa.
Enquanto acompanhamos o percurso do protagonista, vamo-nos apercebendo do que o rodeia. DeLillo há dez anos atrás conseguiu antever a crise económica, o papel do FMI (sim, é referido também no filme), o movimento Occupy nas ruas de Nova Iorque. Em entrevista recente ao New York Times, o realizador salientava essa actualidade antecipada da história que Delillo contou.
A acção de Cosmopolis decorre num só dia. Parker circula na sua limusina pela cidade, apesar das dificuldades de tráfego, para ir cortar o cabelo. Pelo caminho vai reunindo com colaboradores, a quem impõe o seu espaço físico de eleição – a limusina. Só para ir ao encontro da mulher e de um velho amigo da sua infância, abandona o automóvel.
Ao longo do filme antevemos que Parker poderia ter seguido um caminho diferente. Mas não o fez. O individualismo vazio que elegeu como modo de vida espelha-se de forma implacável, mas natural, no encontro com o seu destino derradeiro.
À semelhança do que aconteceu com o livro, também o filme de David Cronenberg tem recebido críticas divergentes. Por mim, embora prefira outros filmes deste realizador, em particular Promessas Perigosas, gostei. E há uma coisa que fica já clara: Robert Pattinson é muito mais do que aquele rapaz que fez de vampiro na saga de Amanhecer.  A sua interpretação em Cosmopolis é muito bem conseguida, no modo como consegue transmitir a vulnerabilidade que se esconde atrás da frieza do protagonista.
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