segunda-feira, 28 de maio de 2012

Procurem abrigo

Os tempos de crise são solo fértil para os filmes catástrofe, em que o mundo desaba apesar dos esforços do protagonista para contrariar esse movimento.
Tal como o interpreto, o filme de Jeff Nichols, é um exemplo de excelência dessa categoria.
Curtis, o protagonista, é casado com Samantha. Ele trabalha na construção civil, ela faz trabalhos de costura. Vivem numa cidade norte-americana igual a tantas outras, numa casa térrea, confortável mas não luxuosa. Têm um relvado, dois carros, um cão. Hipotecas. Uma filha pequena. E sonham com uma casa na praia. Têm o que uma outra personagem diz ser "uma vida boa".
Mas os pilares em que assenta essa vida vão ser testados e é essa a história que Nichols nos conta, mostrando-nos, através deste casal, a fragilidade da nossa própria existência. O elemento catalizador das mudanças são os pesadelos, delírios e alucinações que começam a assolar Curtis. Dada a sua história familiar, percebe que está perante sintomas de doença mental.
Mas o realizador espalha outros sinais ameaçadores. Um dos mais presentes é o vil metal. Ou antes, a falta dele. Porque ao longo do filme, vamos tocando em temas bem nossos conhecidos, onde a importância do dinheiro é evidente: o endividamento aos bancos, as lacunas do sistema de saúde (e sua desumanização, visível na substituição da orientadora de saúde mental que vinha acompanhando Curtis, sem aviso, ignorando por completo a relação de confiança criada), a necessidade de cobertura do seguro de saúde (centro de debate constante nos EUA), o desemprego. A fragilidade de muitos dos laços sociais que construímos.
Num primeiro momento, Curtis enfrenta os pesadelos e alucinações sozinho, escondendo o que se passa da mulher e demais família. Assistimos então ao avolumar da tensão, materializada na construção de um abrigo contra tempestades e tornados. Curtis quer a todo o custo proteger a mulher e a filha. A incapacidade de controlar a natureza, quer através da omnipresente trovoada, quer dos animais (há uma piscadela de olho a Os pássaros de Alfred Hitchcock) vai espelhando o clima de ameaça que perpassa todo o filme. Mas as ameaças sentidas por Curtis vão muito além dos elementos naturais, como os seus pesadelos nos deixam perceber.
E no entanto, a tensão do filme nunca me foi insuportável. Há uma luz que nunca deixa de brilhar.
E de onde vem ela? Pondo de lado todo o cinismo, vem do amor. Do amor que une Curtis à mulher, à filha e ao irmão. De quem ele nunca se esquece e que nunca o deixam para trás. A meu ver é este o ponto mais digno de realce. De tal forma que quando saí da sala de cinema conclui que, verdadeiramente, Procurem abrigo é uma história de amor, no sentido mais pleno do termo.
O filme termina de forma ambígua. Mas creio que a mensagem principal é esta: toda a tragédia com que nos deparamos pode ser ultrapassada quando o amor é corajoso. Isto é, quando é amor e não um desses sucedâneos que se vão vendo por aí, no cinema e na vida.
As interpretações de todos os actores são excelentes. Em particular, Michael Shannon, o protagonista, é perfeito na forma contida como expressa a luta da personagem contra o desequilíbrio mental e a frustração perante os seus limites.
Por tudo isto, gostei muito deste filme e recomendo-o a todos os que gostam de cinema. É imperdível!

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