quinta-feira, 28 de junho de 2012

Considerações sobre o sonho pelo inesgotável Senhor Soares


O feiticeiro de Oz

Tenho mais pena dos que sonham o provável, o legítimo e o próximo do que dos que devaneiam sobre o longínquo e o estranho. Os que sonham grandemente ou são doidos e acreditam no que sonham e são felizes ou são devaneadores simples, para quem o devaneio é uma música da alma, que os embala sem lhes dizer nada. Mas o que sonha o possível tem a possibilidade real da verdadeira desilusão. Não me pode pesar muito o ter deixado de ser imperador romano, mas pode doer-me o nunca ter sequer falado à costureira que, cerca das nove horas, volta sempre a esquina da direita. O sonho que nos promete o impossível já nisso nos priva dele, mas o sonho que nos promete o possível intromete-se com a própria vida e delega nela a sua solução. Um vive exclusivo e independente; o outro submisso das contingências do que acontece.

Por isso amo as paisagens impossíveis e as grandes áreas desertas dos plainos onde nunca estarei. As épocas históricas passadas são de pura maravilha, pois desde logo não posso supor que se realizarão comigo. Durmo quando sonho o que não há; vou despertar quando sonho o que pode haver.

                                               Bernardo Soares, Livro do Desassossego

terça-feira, 26 de junho de 2012

Elisabeth Le Brun




Auto-retrato

Elisabeth Vigée Le Brun (1755 – 1842) nasceu e cresceu em Paris. Pintora clássica, tornou-se uma retratista renomada, tendo como patrona Maria Antonieta Esta ligação não caiu bem durante a Revolução Francesa. Le Brun abandonou Paris e entre 1789 e 1805 viajou pela Europa e pela Rússia. A sua vida artística e as viagens feitas foram registadas nas suas memórias. Como epitáfio escolheu “Aqui, pelo menos, descanso …”



Um dos retratos da sua patrona, Maria Antonieta




segunda-feira, 25 de junho de 2012

Festival do Silêncio 2012



  A palavra em todas as suas dimensões. Em Lisboa. De 26 de Junho a 1 de Julho.

  O programa completo pode ser visto aqui.

sábado, 23 de junho de 2012

Cartas a um jovem poeta, Rainer Maria Rilke

O pensador, Auguste Rodin

   “Ora bem (já que me autorizou a aconselhá-lo), peço-lhe que se deixe de tudo isso. O senhor olha para fora e é exactamente o que não deveria fazer agora. Ninguém pode dar-lhe conselhos ou ajudá-lo, ninguém. Há um único meio. Entre dentro de si. Procure o motivo que o faz escrever; examine se ele tem raízes até ao lugar mais fundo do seu coração, confesse a si mesmo se viria a morrer no caso de escrever lhe ser vedado. Isto antes de mais nada: pergunte-se na hora mais calada da sua noite: tenho de escrever?”
É com este conselho que se inicia a correspondência entre Franz Kappus e Rainer Maria Rilke. Traduz-se numa pergunta sempre actual, a que muitos candidatos a escritores, deveriam responder.
Rilke é um dos mais influentes poetas germânicos. Mas para quem não fala alemão, a mais acessível das suas obras é a que resultou da correspondência trocada com Franz Kappus, coligida nas Cartas a um jovem poeta.Kappus frequentava a Academia Militar de Wiener Neustadt e ansiava por uma carreira como poeta, quando em 1902 escreveu a Rilke, pedindo-lhe opinião sobre os seus poemas. Rilke tinha estudado na mesma escola e, apesar de não ser muito mais velho que Kappus, era já, quando iniciaram a troca de correspondência um poeta com alguma ressonância.
As cartas apenas foram publicadas após o falecimento de Rilke. Kappus escolheu dez das que aquele lhe dirigiu, deixando de fora outras, bem como todas as por si enviadas a Rilke. Este critério de edição, nunca foi inteiramente explicado e tem levantado alguma polémica. Por mim, ao ler as palavras límpidas de Rilke nestas cartas, acho que a perspectiva de comparação é temível. Mas é uma ideia minha,  claro.
Rilke não opinou sobre os poemas de Kappus. Não tinha, aliás, em grande conta a crítica literária. Acima de tudo, ressalta a preocupação de fazer sentir a Kappus a necessidade de escrever e viver com autenticidade. É este último aspecto que torna a leitura de Cartas a um jovem poeta emocionante mesmo para quem não tem uma grama de inspiração lírica. Rilke alertou Kappus para a necessidade de ser autêntico, enfrentando as dificuldades, os medos e a solidão, revelando-lhe a sua visão sobre a sexualidade, o sentido do amor e, claro, o trabalho criativo. Naturalmente, as cartas não são marcadas por um sentido pragmático. Rilke não escreveu um manual de instruções sobre a vida ou um “como ser poeta em dez lições” … Mas às ideias transmitidas neste livro não se fica indiferente, quer pelo teor da mensagem, quer pela beleza da expressão (no caso português, adivinha-se que a tradução feita por Vasco Graça Moura, foi uma mais-valia, claro).
Exemplos disso são as reflexões de Rilke sobre a propensão humana para o facilitismo. Escreve “As pessoas (com a ajuda das convenções) resolvem tudo em favor do mais fácil e do lado mais fácil da facilidade; mas é claro que temos de agarrar-nos ao difícil; tudo o que vive se contém aí, tudo na natureza cresce e se defende à sua maneira e de si se faz específico, procurando sê-lo a todo o custo e contra todos os obstáculos.” Ou esta resposta às dúvidas que Kappus (apenas podemos adivinhar) lhe terá colocado “Não indague das respostas que não lhe podem ser dadas porque não as poderia viver. E trata-se de viver tudo. Para já viva as questões.”
Alguns críticos apontam um certo sentimento de superioridade que perpassa nestas cartas por parte de Rilke. Pela minha parte, não o vejo. Em primeiro lugar, temos de convir que foram e são poucos os criadores que mantêm correspondência ao longo dos anos com um admirador. Só isso já aponta para alguma modéstia, mesmo tendo em atenção que Rilke gostava de escrever cartas e tinha vários correspondentes regulares. Em segundo lugar, nas cartas Rilke não se coloca numa posição de quem já cortou a meta. Não só nunca se refere a si próprio como exemplo a seguir, como pelo menos numa das cartas, deixa claro que também ele sente dificuldades em seguir o percurso que pensa ser o melhor para si.
Rilke e Kappus nunca se conheceram pessoalmente. O próprio Kappus admitiu mais tarde ter-se afastado do caminho que Rilke lhe havia indicado. Estes aspectos, aliados à ausência de indicações sobre a vida pessoal de qualquer um deles, permitem que a leitura das cartas possa ser feita por cada um de nós como se de um ensaio ou um romance se tratasse. As cartas desprendem-se de quem as recebeu em concreto e em primeiro mão, sendo agora dirigidas a cada um de nós.


terça-feira, 19 de junho de 2012

A vida segundo Rilke


The cool hunter

Porque não é só a preguiça que faz com que as relações humanas sejam tão indescritivelmente monótonas e sem renovação de caso para caso, é o receio ante qualquer espécie de experiência nova ou, imprevisível, de que não se crê estar à altura. Mas só quem está disposto a tudo, quem nada exclui, nem mesmo o mais enigmático, poderá viver a relação com o outro como algo de vital e esgotar a sua própria existência até ao fundo.

                                                       Rainer Maria Rilke, Cartas a um jovem poeta

domingo, 17 de junho de 2012

Heróis e maravilhas da Idade Média, Jacques Le Goff



Jacques Le Goff é um historiador francês especializado no período da Idade Média. Para além de ser um autor prolífico, é também um divulgador, talento que nem todos os estudiosos têm.
Heróis e maravilhas da Idade Média é um exemplo dessa sua faceta. Neste livro, Le Goff guia-nos  pelo imaginário medieval, dando-nos a conhecer a origem e sentido de algumas das principais figuras que o compõem. Em comum, para além do período em que surgiram, têm ainda o facto de se manterem presentes na nossa cultura. O rei Artur, Robin dos Bosques, o castelo medieval ou o unicórnio são apenas alguns exemplos de entre os cerca de vinte que Le Goff escolheu para figurarem neste seu livro.
A escrita deste autor é clara e límpida. Os capítulos que compõem o livro são curtos, mas cheios de informação. As características da escrita de Le Goff e a natureza dos temas tornam esta leitura altamente recomendável, com encanto para nos libertar do cinzentismo que às vezes insiste em ameaçar os nossos dias.

terça-feira, 12 de junho de 2012

Não há poetas a mais (II)



Cifras e constelações amorosas de uma mulher, 1941, Miró

Conheci a Filipa Albuquerque na mesma ocasião em que travei conhecimento com a Susana Castelão Ferreira. Provando que na vida há coincidências, de uma assentada e numa ocasião que nada teve de lírico, conheci duas poetisas.
Quem conhece a Filipa e depois lê os seus poemas compreende serem eles o espelho da sua alma. São misteriosos, procurando o equilíbrio entre o intelectual e emocional. São sobretudo poemas solares, em que a alegria de viver e de descobrir está sempre presente, mesmo nos momentos de incerteza.
Aqui ficam dois dos seus poemas.

De mim para Clarice Lispector
Sou contra o comodismo.
Não desejo o óbvio.
Não procuro o certo.
Quero a viagem sem roteiro.
Se me perguntarem se quero ver as estrelas, responderei: quero vivê-las.
Desejo que a vida me ensine, não quero já sabê-la toda à partida.
Dos meus sonhos nascerão algumas certezas.
Das minhas certezas nascerão novas interrogações e estas me farão sonhar novamente.
Como um barco à vela, sinto a magia de respirar e me encontrar pedida no (a) mar.
Quero a incerteza, a paz e a loucura.
Todas elas não são incompatíveis, todas elas se complementam.

Não sei quantas sou.
Não me interessa.
Na vida não existem duas pétalas iguais, porque haveria eu de ser igual a mim mesma?
Na diversidade e na inconstância está a magnificência.
Se o homem não ousasse ser outros, o Mundo não teria progredido.
E nós não estaríamos os dois no ano de dois mil e doze.
Eu sentada nesta secretária.
Tu algures pela vida.
Sinto falta dos teus beijos.
Também sempre foste vários nos teus beijos.
Quente como um dia de Verão, calmo como um dia de Outono, intenso como uma Primavera.
Mas foram os invernos dos teus beijos que me mataram!
Agora já não sei se quero ser várias.
Entendo que preciso de uma unidade, do teu corpo, dos teus beijos.
A verdade?
Sou várias… mas já sou tua.
E somos um e nessa medida estou finalmente una.




segunda-feira, 11 de junho de 2012

Um pensamento matinal de Marco Aurélio

Marco Aurélio nos Museus Capitolinos, Roma
Imperador, guerreiro e filósofo, é certo. Mas aparentemente também Marco Aurélio tinha dificuldades em se levantar de manhã. Encarando o assunto filosoficamente, deixou-nos este pensamento, ideal para enfrentar mais uma segunda-feira:

"De manhã, quando te custa levantar, socorre-te deste pensamento: “Acordei para fazer trabalho de homem. E hei-de ficar de mau humor porque vou realizar aquilo para que fui criado e constitui o fim da minha vinda ao mundo? Ou acaso fui feito para ficar deitado, sem bulir, no quentinho dos cobertores? Isso é que era bom!” Mas foste tu feito para a madraçaria? Ao fim e ao cabo foste feito para a calaçaria ou para fazer qualquer coisa de jeito?
Não vês que as plantas, os pássaros, as aranhas, as abelhas cumprem as tarefas que lhes são próprias e contribuem pela sua parte para o bom andar do mundo? E não queres fazer tu o que convém ao homem? Não te avias para a tarefa que é conforme à tua natureza? “O descanso também é preciso”. De acordo, mas a natureza pôs limites ao repoiso; e também põe limites na comida e na bebida. Mas tu, olha lá, não passas esses limites indo além do que seria justo? Quando se trata de agir, outro galo canta, ficas muito aquém. Fazes isso porque te não amas a ti mesmo. Caso contrário gostarias do que intima a natureza, do que insinuam os seus fins. Outros, afeiçoados a suas artes, consomem-se nos trabalhos que lhes dizem respeito, sem se banhar nem comer. E tu tens em menos preço a tua natureza que o cinzelador a sua arte, o dançarino a sua dança, o avaro o seu dinheiro, o vaidoso a sua gloríola? Todos esses, quando a paixão os espoereia, não comem nem dormem; o que querem é que cresça e avulte o objecto dos seus esforços. Acaso te parecem inferiores e ser menos dignas de cuidado as acções feitas em prol do comum?"

Pensamentos, Marco Aurélio, Biblioteca de Editores Independentes, pág. 49



quarta-feira, 6 de junho de 2012

Os anos doces, Hiromi Kawakami

Hiromi Kawakami
Hiromi Kawakami é uma das novas vozes da literatura japonesa.
Os anos doces narra a história de amor entre Matsumoto Harutsuna e Tsukiko. Os dois reencontram-se após vários anos sem se verem. Retomam a sua convivência, passando a encontrar-se de forma regular, ainda que aparentemente por mero acaso. Isto é, nunca combinam encontrar-se. Apenas se encontram enquanto deambulam pela cidade. Estes encontros não teriam nada de estranho, como inusitado não seria o seu desenlace, se não fosse a enorme diferença de idades entre os dois protagonistas. Na verdade, Matsumoto Harutsuna foi professor de liceu de Tsukiko. Esta é agora uma mulher de trinta e oito anos, sendo Harutsuna um ancião. Em comum têm ambos o facto de terem vivido experiências amorosas que lhes deixaram marcas negativas, acabando por se refugiar num modo de vida solitário.
Aliás, num primeiro momento, o que parece unir Tsukiko e Harutsuna é precisamente o respeito mútuo pela total liberdade e desprendimento. Os seus encontros nunca são marcados, resultando ambos de coincidências que os dois acabam por fomentar (frequentam os mesmos locais na cidade, mais ou menos às mesmas horas).
Boa parte do livro é, aliás, o relato sobre a difícil arte de abdicar do vício de estar sozinho. Porque ambas as personagens se agarram a essa liberdade que apenas pode existir para quem está absolutamente só, sem amarras, nem compromissos. Um dos aspectos mais comoventes do livro é, aliás, o modo como demonstra como a linha entre a perfeita liberdade e o abandono é, por vezes, difícil de traçar.
          Por exemplo: “A loucura do trabalho acalmara na véspera, sexta-feira, finalmente. A manhã de sábado, foi, portanto, a minha primeira manhã livre, ao fim de muito tempo. Dormi à minha vontade, depois enchi a banheira até ao cimo e meti-me lá dentro com uma revista. Verti umas gotas de perfume na água quente, lavei o cabelo com toda a calma e deixei-me estar sem pressa. Li quase metade da revista, saindo da banheira de vez em quando para me refrescar. Passei perto de duas horas a tomar banho, sem exagero. (…)
          Fiquei em casa até entardecer. Fui folheando distraidamente um livro, deixando passar o tempo nesse estado melancólico. Senti sono e adormeci novamente. Quando acordei, ao fim de uma meia hora, afastei as cortinas e vi que estava escuro lá fora. (…)
          Saí então para a rua. Precisava de sentir que não estava sozinha no mundo e que não era a única pessoa angustiada. Mas era impossível perceber como se sentiriam os outros observando-os apenas à sua passagem. Quanto mais tentava mais difícil se tornava.”
          A relação entre as personagens evolui lentamente, ao ritmo da sucessão das estações do ano. Kawakami vai colocando as personagens em cenários naturais, como a colheita dos cogumelos ou a festa das cerejeiras em flor. São momentos de renascimento que, ao menos simbolicamente, antecipam a renovação que também Tsukiko está a sentir, à medida que se intensifica o contacto com o seu antigo professor. Um outro aspecto simbólico dessa renovação é o gosto que ambos têm pela comida quando estão juntos, em contraste com a frugalidade das refeições que fazem quando estão sós.
          A relação amorosa entre pessoas com idades muito diferentes, não é um tema novo na literatura contemporânea. Abha Dawesar escreveu Aquele verão em Paris, narrando a história de amor entre uma jovem aspirante a escritora norte-americana com vinte e cinco anos e um laureado com o prémio Nobel da Literatura cinquenta anos mais velho. Em ambos os livros a degradação física decorrente da idade e a sombra da morte pairam sobre os casais.
          Mas no caso de Os anos doces parece-me que a diferença de idades entre os dois protagonistas tem relevo num aspecto essencial. As duas personagens estavam fechadas para o amor. E é o inesperado da situação que as conduz ao envolvimento, antes de conseguirem levantar as defesas de que antes se armaram.

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Para assinalar o dia da criança

Peter Pan


De tantos dias comemorativos, o único cuja pertinência não discuto é o de hoje, em que se celebra a assinatura da Convenção dos Direitos da Criança. Para lembrarmos ao menos um dia (já que há quem não tenha o saudável hábito de se recordar ao longo de todo o ano) as nossas crianças, as crianças dos outros e a criança que fomos e que tantas vezes esquecemos.

Era uma vez um conto de fadas. Estávamos
na terra do sonho; o castelo tinha torres
que chegavam à luz; e a noite quente do verão
entrava pelas janelas e tapava-nos num aconchego de mãe. Neste sonho, não havia
nem ogres nem lobos maus; e um barco
branco esperava por nós, no porto da cidade
para nos levar para o oriente onde o sol
nunca se põe. Nenhum de nós queria acordar
para nunca se esquecer deste sonho; e mesmo que
acordássemos, não iríamos abrir os olhos,
para não ver o que nos esperava, ao sair
do casula dos sonhos. Mas se acordássemos,
e abríssemos os olhos, e víssemos que tínhamos
saído da noite para entrar no dia, que já não é
um conto de fadas, podíamos dizer
uns aos outros: “Este é o sonho de onde temos de acordar, para voltar ao conto de fadas
onde a noite nunca se põe.”

                                                Conto de Fadas, Nuno Júdice, A matéria do poema