sábado, 23 de junho de 2012

Cartas a um jovem poeta, Rainer Maria Rilke

O pensador, Auguste Rodin

   “Ora bem (já que me autorizou a aconselhá-lo), peço-lhe que se deixe de tudo isso. O senhor olha para fora e é exactamente o que não deveria fazer agora. Ninguém pode dar-lhe conselhos ou ajudá-lo, ninguém. Há um único meio. Entre dentro de si. Procure o motivo que o faz escrever; examine se ele tem raízes até ao lugar mais fundo do seu coração, confesse a si mesmo se viria a morrer no caso de escrever lhe ser vedado. Isto antes de mais nada: pergunte-se na hora mais calada da sua noite: tenho de escrever?”
É com este conselho que se inicia a correspondência entre Franz Kappus e Rainer Maria Rilke. Traduz-se numa pergunta sempre actual, a que muitos candidatos a escritores, deveriam responder.
Rilke é um dos mais influentes poetas germânicos. Mas para quem não fala alemão, a mais acessível das suas obras é a que resultou da correspondência trocada com Franz Kappus, coligida nas Cartas a um jovem poeta.Kappus frequentava a Academia Militar de Wiener Neustadt e ansiava por uma carreira como poeta, quando em 1902 escreveu a Rilke, pedindo-lhe opinião sobre os seus poemas. Rilke tinha estudado na mesma escola e, apesar de não ser muito mais velho que Kappus, era já, quando iniciaram a troca de correspondência um poeta com alguma ressonância.
As cartas apenas foram publicadas após o falecimento de Rilke. Kappus escolheu dez das que aquele lhe dirigiu, deixando de fora outras, bem como todas as por si enviadas a Rilke. Este critério de edição, nunca foi inteiramente explicado e tem levantado alguma polémica. Por mim, ao ler as palavras límpidas de Rilke nestas cartas, acho que a perspectiva de comparação é temível. Mas é uma ideia minha,  claro.
Rilke não opinou sobre os poemas de Kappus. Não tinha, aliás, em grande conta a crítica literária. Acima de tudo, ressalta a preocupação de fazer sentir a Kappus a necessidade de escrever e viver com autenticidade. É este último aspecto que torna a leitura de Cartas a um jovem poeta emocionante mesmo para quem não tem uma grama de inspiração lírica. Rilke alertou Kappus para a necessidade de ser autêntico, enfrentando as dificuldades, os medos e a solidão, revelando-lhe a sua visão sobre a sexualidade, o sentido do amor e, claro, o trabalho criativo. Naturalmente, as cartas não são marcadas por um sentido pragmático. Rilke não escreveu um manual de instruções sobre a vida ou um “como ser poeta em dez lições” … Mas às ideias transmitidas neste livro não se fica indiferente, quer pelo teor da mensagem, quer pela beleza da expressão (no caso português, adivinha-se que a tradução feita por Vasco Graça Moura, foi uma mais-valia, claro).
Exemplos disso são as reflexões de Rilke sobre a propensão humana para o facilitismo. Escreve “As pessoas (com a ajuda das convenções) resolvem tudo em favor do mais fácil e do lado mais fácil da facilidade; mas é claro que temos de agarrar-nos ao difícil; tudo o que vive se contém aí, tudo na natureza cresce e se defende à sua maneira e de si se faz específico, procurando sê-lo a todo o custo e contra todos os obstáculos.” Ou esta resposta às dúvidas que Kappus (apenas podemos adivinhar) lhe terá colocado “Não indague das respostas que não lhe podem ser dadas porque não as poderia viver. E trata-se de viver tudo. Para já viva as questões.”
Alguns críticos apontam um certo sentimento de superioridade que perpassa nestas cartas por parte de Rilke. Pela minha parte, não o vejo. Em primeiro lugar, temos de convir que foram e são poucos os criadores que mantêm correspondência ao longo dos anos com um admirador. Só isso já aponta para alguma modéstia, mesmo tendo em atenção que Rilke gostava de escrever cartas e tinha vários correspondentes regulares. Em segundo lugar, nas cartas Rilke não se coloca numa posição de quem já cortou a meta. Não só nunca se refere a si próprio como exemplo a seguir, como pelo menos numa das cartas, deixa claro que também ele sente dificuldades em seguir o percurso que pensa ser o melhor para si.
Rilke e Kappus nunca se conheceram pessoalmente. O próprio Kappus admitiu mais tarde ter-se afastado do caminho que Rilke lhe havia indicado. Estes aspectos, aliados à ausência de indicações sobre a vida pessoal de qualquer um deles, permitem que a leitura das cartas possa ser feita por cada um de nós como se de um ensaio ou um romance se tratasse. As cartas desprendem-se de quem as recebeu em concreto e em primeiro mão, sendo agora dirigidas a cada um de nós.


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