quinta-feira, 28 de junho de 2012

Considerações sobre o sonho pelo inesgotável Senhor Soares


O feiticeiro de Oz

Tenho mais pena dos que sonham o provável, o legítimo e o próximo do que dos que devaneiam sobre o longínquo e o estranho. Os que sonham grandemente ou são doidos e acreditam no que sonham e são felizes ou são devaneadores simples, para quem o devaneio é uma música da alma, que os embala sem lhes dizer nada. Mas o que sonha o possível tem a possibilidade real da verdadeira desilusão. Não me pode pesar muito o ter deixado de ser imperador romano, mas pode doer-me o nunca ter sequer falado à costureira que, cerca das nove horas, volta sempre a esquina da direita. O sonho que nos promete o impossível já nisso nos priva dele, mas o sonho que nos promete o possível intromete-se com a própria vida e delega nela a sua solução. Um vive exclusivo e independente; o outro submisso das contingências do que acontece.

Por isso amo as paisagens impossíveis e as grandes áreas desertas dos plainos onde nunca estarei. As épocas históricas passadas são de pura maravilha, pois desde logo não posso supor que se realizarão comigo. Durmo quando sonho o que não há; vou despertar quando sonho o que pode haver.

                                               Bernardo Soares, Livro do Desassossego

Sem comentários:

Enviar um comentário