terça-feira, 12 de junho de 2012

Não há poetas a mais (II)



Cifras e constelações amorosas de uma mulher, 1941, Miró

Conheci a Filipa Albuquerque na mesma ocasião em que travei conhecimento com a Susana Castelão Ferreira. Provando que na vida há coincidências, de uma assentada e numa ocasião que nada teve de lírico, conheci duas poetisas.
Quem conhece a Filipa e depois lê os seus poemas compreende serem eles o espelho da sua alma. São misteriosos, procurando o equilíbrio entre o intelectual e emocional. São sobretudo poemas solares, em que a alegria de viver e de descobrir está sempre presente, mesmo nos momentos de incerteza.
Aqui ficam dois dos seus poemas.

De mim para Clarice Lispector
Sou contra o comodismo.
Não desejo o óbvio.
Não procuro o certo.
Quero a viagem sem roteiro.
Se me perguntarem se quero ver as estrelas, responderei: quero vivê-las.
Desejo que a vida me ensine, não quero já sabê-la toda à partida.
Dos meus sonhos nascerão algumas certezas.
Das minhas certezas nascerão novas interrogações e estas me farão sonhar novamente.
Como um barco à vela, sinto a magia de respirar e me encontrar pedida no (a) mar.
Quero a incerteza, a paz e a loucura.
Todas elas não são incompatíveis, todas elas se complementam.

Não sei quantas sou.
Não me interessa.
Na vida não existem duas pétalas iguais, porque haveria eu de ser igual a mim mesma?
Na diversidade e na inconstância está a magnificência.
Se o homem não ousasse ser outros, o Mundo não teria progredido.
E nós não estaríamos os dois no ano de dois mil e doze.
Eu sentada nesta secretária.
Tu algures pela vida.
Sinto falta dos teus beijos.
Também sempre foste vários nos teus beijos.
Quente como um dia de Verão, calmo como um dia de Outono, intenso como uma Primavera.
Mas foram os invernos dos teus beijos que me mataram!
Agora já não sei se quero ser várias.
Entendo que preciso de uma unidade, do teu corpo, dos teus beijos.
A verdade?
Sou várias… mas já sou tua.
E somos um e nessa medida estou finalmente una.




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