quarta-feira, 6 de junho de 2012

Os anos doces, Hiromi Kawakami

Hiromi Kawakami
Hiromi Kawakami é uma das novas vozes da literatura japonesa.
Os anos doces narra a história de amor entre Matsumoto Harutsuna e Tsukiko. Os dois reencontram-se após vários anos sem se verem. Retomam a sua convivência, passando a encontrar-se de forma regular, ainda que aparentemente por mero acaso. Isto é, nunca combinam encontrar-se. Apenas se encontram enquanto deambulam pela cidade. Estes encontros não teriam nada de estranho, como inusitado não seria o seu desenlace, se não fosse a enorme diferença de idades entre os dois protagonistas. Na verdade, Matsumoto Harutsuna foi professor de liceu de Tsukiko. Esta é agora uma mulher de trinta e oito anos, sendo Harutsuna um ancião. Em comum têm ambos o facto de terem vivido experiências amorosas que lhes deixaram marcas negativas, acabando por se refugiar num modo de vida solitário.
Aliás, num primeiro momento, o que parece unir Tsukiko e Harutsuna é precisamente o respeito mútuo pela total liberdade e desprendimento. Os seus encontros nunca são marcados, resultando ambos de coincidências que os dois acabam por fomentar (frequentam os mesmos locais na cidade, mais ou menos às mesmas horas).
Boa parte do livro é, aliás, o relato sobre a difícil arte de abdicar do vício de estar sozinho. Porque ambas as personagens se agarram a essa liberdade que apenas pode existir para quem está absolutamente só, sem amarras, nem compromissos. Um dos aspectos mais comoventes do livro é, aliás, o modo como demonstra como a linha entre a perfeita liberdade e o abandono é, por vezes, difícil de traçar.
          Por exemplo: “A loucura do trabalho acalmara na véspera, sexta-feira, finalmente. A manhã de sábado, foi, portanto, a minha primeira manhã livre, ao fim de muito tempo. Dormi à minha vontade, depois enchi a banheira até ao cimo e meti-me lá dentro com uma revista. Verti umas gotas de perfume na água quente, lavei o cabelo com toda a calma e deixei-me estar sem pressa. Li quase metade da revista, saindo da banheira de vez em quando para me refrescar. Passei perto de duas horas a tomar banho, sem exagero. (…)
          Fiquei em casa até entardecer. Fui folheando distraidamente um livro, deixando passar o tempo nesse estado melancólico. Senti sono e adormeci novamente. Quando acordei, ao fim de uma meia hora, afastei as cortinas e vi que estava escuro lá fora. (…)
          Saí então para a rua. Precisava de sentir que não estava sozinha no mundo e que não era a única pessoa angustiada. Mas era impossível perceber como se sentiriam os outros observando-os apenas à sua passagem. Quanto mais tentava mais difícil se tornava.”
          A relação entre as personagens evolui lentamente, ao ritmo da sucessão das estações do ano. Kawakami vai colocando as personagens em cenários naturais, como a colheita dos cogumelos ou a festa das cerejeiras em flor. São momentos de renascimento que, ao menos simbolicamente, antecipam a renovação que também Tsukiko está a sentir, à medida que se intensifica o contacto com o seu antigo professor. Um outro aspecto simbólico dessa renovação é o gosto que ambos têm pela comida quando estão juntos, em contraste com a frugalidade das refeições que fazem quando estão sós.
          A relação amorosa entre pessoas com idades muito diferentes, não é um tema novo na literatura contemporânea. Abha Dawesar escreveu Aquele verão em Paris, narrando a história de amor entre uma jovem aspirante a escritora norte-americana com vinte e cinco anos e um laureado com o prémio Nobel da Literatura cinquenta anos mais velho. Em ambos os livros a degradação física decorrente da idade e a sombra da morte pairam sobre os casais.
          Mas no caso de Os anos doces parece-me que a diferença de idades entre os dois protagonistas tem relevo num aspecto essencial. As duas personagens estavam fechadas para o amor. E é o inesperado da situação que as conduz ao envolvimento, antes de conseguirem levantar as defesas de que antes se armaram.

2 comentários:

  1. Olá Carla, parabéns pelo blog! Esse livro da Hiromi foi lançado recentemente em português, com o título "A valise do professor", pela editora Estação Liberdade, vale dar uma conferida! Um abraço

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  2. Obrigada pela vista! Talvez o título brasileiro faça mais sentido do que o português ... Um abraço

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