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| Honoré de Balzac |
Dinheiro,
poder, ambição, ganância. Não, não é a nova versão do Dallas ou de qualquer
outra novela produzida deste ou do outro lado do Atlântico. As quatro
palavrinhas com que iniciei o texto ilustram antes, na perfeição, as ideias
chave da longa obra do escritor francês Honoré de Balzac (1799-1850).
Em
1832 Balzac concebeu a ideia de escrever um grande fresco sobre a natureza
humana em diferentes contextos sociais. A Comédia Humana é composta por noventa
e cinco obras concluídas e quarenta e oito que não chegaram a ser terminadas.
Balzac era inequivocamente um escritor prolífero, capaz de trabalhar soba a
pressão dos múltiplos credores que lhe batiam à porta, com insistência mas
pouco proveito.
Da
Comédia Humana fazem parte obras imortais como A mulher de trinta anos, As
Ilusões perdidas ou Eugénia Grandet. Pai da escola realista francesa Balzac foi
implacável nos retratos individuais e sociais que traça.
A
pele de chagrém é uma revisitação de um dos temas clássicos da literatura
ocidental – a venda da alma ao Diabo como contrapartida para a obtenção de algo
que se deseja acima de todas as coisas. Dorian Gray vendeu a alma pela beleza e
juventude eternas, Fausto em troca do conhecimento. O protagonista deste
romance de Balzac aceita o pacto por motivos mais prosaicos, mas não menos
universais: o dinheiro e a ascensão social. Tal como o protagonista de O Mandarim de Eça de Queirós.
O
herói de Balzac é Rafael. Filho único, é criado por um pai que, apesar de
parcimonioso, acaba por lhe deixar como única herança sonhos de triunfo. Como a
barriga não se alimenta de devaneios Rafael, pobre e sem família, passa tempos
difíceis. O desejo se sucesso e a sua imaginação romântica dificultam ainda
mais o seu quotidiano. O fracasso e a solidão envolvem o protagonista deste
romance filosófico (como lhe chamou o seu autor) numa espiral cujo curso de altera
quando fica na posse da pele de chagrém que dá título ao livro. Graças a ela,
os seus desejos de triunfo chama corpo. Mas, claro, tudo tem um preço. E é
também a cobrança desse preço que acompanhamos neste livro.
É
minuciosa a forma como Balzac se detém em cada cena, como se tivesse todo o tempo do
mundo para a descrever. Quando nos descreve um refeição, a decoração de uma
sala ou um estado de espírito fá-lo como um rigor quase pictórico. É como se
estivéssemos com as personagens na sala descrita, acompanhá-los na refeição ou
na falta dela, comungando da sua euforia ou do seu desânimo. Mas o prazer de
ler este escritor francês vai para além da sua forma de escrever. Balzac
conhecia bem a natureza humana. Ainda que Rafael sofra de uma síndrome
fantasiosa característica dos românticos implacavelmente satirizada pela escola
realista, as ambições que revela são transponíveis para a actualidade. Por esse
motivo, vale a pena conhecer ou revisitar a obra deste escritor francês.
Não
compreendo o conceito de silly season aplicado à leitura. Haverá coisa melhor
do que estar com a vidinha posta em sossego a ler as alegrias e misérias de
personagens puramente fictícias? É certo que a visão de Balzac sobre a natureza
humana não é a mais optimista. Mas não causa desgosto que não possa afogar-se
numa taça de gelado. Por
mim, vou levar o Honoré de férias. E sei que vou bem acompanhada!

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