terça-feira, 31 de julho de 2012

A pele de chagrém, de Honoré de Balzac


Honoré de Balzac
Dinheiro, poder, ambição, ganância. Não, não é a nova versão do Dallas ou de qualquer outra novela produzida deste ou do outro lado do Atlântico. As quatro palavrinhas com que iniciei o texto ilustram antes, na perfeição, as ideias chave da longa obra do escritor francês Honoré de Balzac (1799-1850).
Em 1832 Balzac concebeu a ideia de escrever um grande fresco sobre a natureza humana em diferentes contextos sociais. A Comédia Humana é composta por noventa e cinco obras concluídas e quarenta e oito que não chegaram a ser terminadas. Balzac era inequivocamente um escritor prolífero, capaz de trabalhar soba a pressão dos múltiplos credores que lhe batiam à porta, com insistência mas pouco proveito. 
         Da Comédia Humana fazem parte obras imortais como A mulher de trinta anos, As Ilusões perdidas ou Eugénia Grandet. Pai da escola realista francesa Balzac foi implacável nos retratos individuais e sociais que traça.
A pele de chagrém é uma revisitação de um dos temas clássicos da literatura ocidental – a venda da alma ao Diabo como contrapartida para a obtenção de algo que se deseja acima de todas as coisas. Dorian Gray vendeu a alma pela beleza e juventude eternas, Fausto em troca do conhecimento. O protagonista deste romance de Balzac aceita o pacto por motivos mais prosaicos, mas não menos universais: o dinheiro e a ascensão social. Tal como o protagonista de O Mandarim de Eça de Queirós.
O herói de Balzac é Rafael. Filho único, é criado por um pai que, apesar de parcimonioso, acaba por lhe deixar como única herança sonhos de triunfo. Como a barriga não se alimenta de devaneios Rafael, pobre e sem família, passa tempos difíceis. O desejo se sucesso e a sua imaginação romântica dificultam ainda mais o seu quotidiano. O fracasso e a solidão envolvem o protagonista deste romance filosófico (como lhe chamou o seu autor) numa espiral cujo curso de altera quando fica na posse da pele de chagrém que dá título ao livro. Graças a ela, os seus desejos de triunfo chama corpo. Mas, claro, tudo tem um preço. E é também a cobrança desse preço que acompanhamos neste livro. 
         É minuciosa a forma como Balzac se detém em cada cena, como se tivesse todo o tempo do mundo para a descrever. Quando nos descreve um refeição, a decoração de uma sala ou um estado de espírito fá-lo como um rigor quase pictórico. É como se estivéssemos com as personagens na sala descrita, acompanhá-los na refeição ou na falta dela, comungando da sua euforia ou do seu desânimo. Mas o prazer de ler este escritor francês vai para além da sua forma de escrever. Balzac conhecia bem a natureza humana. Ainda que Rafael sofra de uma síndrome fantasiosa característica dos românticos implacavelmente satirizada pela escola realista, as ambições que revela são transponíveis para a actualidade. Por esse motivo, vale a pena conhecer ou revisitar a obra deste escritor francês.
Não compreendo o conceito de silly season aplicado à leitura. Haverá coisa melhor do que estar com a vidinha posta em sossego a ler as alegrias e misérias de personagens puramente fictícias? É certo que a visão de Balzac sobre a natureza humana não é a mais optimista. Mas não causa desgosto que não possa afogar-se numa taça de gelado. Por mim, vou levar o Honoré de férias. E sei que vou bem acompanhada!


quinta-feira, 12 de julho de 2012

Fede Saenz


Fede Saenz

      Descobri há dias o trabalho de Fede Saenz, pintor argentino nosso contemporâneo. Gostei, especialmente deste quadro. Deixo o link para quem se quiser aventurar.


terça-feira, 10 de julho de 2012

Na terra de Dorothy


Library Garage Art, Kansas, Missouri


   Mesmo para quem não acredita no Feiticeiro de Oz, há boas razões para visitar Kansas. Esta é uma das fachadas da biblioteca. Dos 22 livros que compõem a fachada, a maioria são clássicos norte- americanos (como Não matem a cotovia ou As aventuras de Hucklebrry Finn), mas ainda assim há lugar para alguns clássicos mundiais como A República de Platão ou Cem anos de solidão de Garcia Marquez.

        
 

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Marguerite em Lisboa




Marguerite Duras
(1914-1996)

“Está tudo lá, mas nada vale a pena”. É esta a enigmática frase que Marguerite Duras repete na entrevista a Solveig Nordlund, exibida no sábado no São Jorge, no âmbito do Festival do Silêncio.
O filme intercala a entrevista à escritora  com leitura dos seus textos, ilustrados com cenas de alguns dos seus filmes, como India Song e Hiroshima meu amor.
De forma algo supreendente, Duras surge-nos Duras serena e alegre, apesar das tonalidades dramáticas que perpassam a sua obra e mesma a sua própria vida. Ao longo do filme de Nirod são abordados alguns dos momentos difíceis que pontuaram a sua existência. Duras fala de todos, excepto da morte do marido.
Nascida em 1914 na Indochina francesa, Marguerite teve uma infância e adolescência pobres, marcadas ainda pela relação conflituosa com a mãe. Aos 18 anos foi viver para Paris. À sua vida adulta não faltaram momentos dramáticos. Foi membro da resistência na II Guerra Mundial, tendo aderido ao Partido Comunista francês. Assistiu à prisão do seu marido às mãos dos nazis e subsequente envio do mesmo para um campo de concentração. Ela própria durante a ocupação alemã chegou a tomar parte directa na tortura de um colaboracionista, episódio que assumiu publicamente em 1985 e que descreveu de forma viva na sua obra ficcional. Marcaram-na ainda a relação distante com o filho único (desejou ter mais) e o alcoolismo contra o qual lutou.
Mas a sua vida foi também construída com base no seu talento para a escrita, de que estava bem consciente. Os livros trouxeram-lhe riqueza e reconhecimento, de que nunca se envergonhou. Escreveu incessantemente sobre tudo. Ela própria disse a Laure Adler, autora da sua biografia: “Escrevi sobre tudo, mas não contei nada”. Talvez se tenha enganado. Porque quando lemos a obra de Adler (Marguerite Duras – Uma biografia) ou assistimos à sua conversa com Nordlund, recordamos de imediato os seus livros. E está lá tudo: a revolta, o vazio, o amor, o prazer, a liberdade. Na sua vida, como nas suas inúmeras obras: O amante, O marinheiro de Gibraltar, A ausência de Lol. V. Stein, O amor, Os cavalos de Tarquínia e tantos outros.
Em todos os seus livros é de liberdade (ou da falta dela) que se fala. Da recusa em conferir aos outros o direito de viverem a nossa vida por nós. Porque como muito bem anteviu o nosso Fernando Pessoa, nem só quem nos odeia e nos inveja nos limita. E é também a liberdade para além do amor que Duras nos deixa antever. E com ela a pergunta: queremos mesmo ser assim tão livres?
O que é verdadeiramente notável quando ouvimos Duras é a mensagem de esperança, talvez involuntária, que dela emana. A sua alegria, a sua paz de espírito não resultam de não ter tido dificuldades. Ao invés, ela tudo viveu e sobre tudo reflectiu. É talvez daí que vem a sua aparente paz de espírito: percebeu o que havia a perceber e aceitou o que esteve para além disso.