segunda-feira, 2 de julho de 2012

Marguerite em Lisboa




Marguerite Duras
(1914-1996)

“Está tudo lá, mas nada vale a pena”. É esta a enigmática frase que Marguerite Duras repete na entrevista a Solveig Nordlund, exibida no sábado no São Jorge, no âmbito do Festival do Silêncio.
O filme intercala a entrevista à escritora  com leitura dos seus textos, ilustrados com cenas de alguns dos seus filmes, como India Song e Hiroshima meu amor.
De forma algo supreendente, Duras surge-nos Duras serena e alegre, apesar das tonalidades dramáticas que perpassam a sua obra e mesma a sua própria vida. Ao longo do filme de Nirod são abordados alguns dos momentos difíceis que pontuaram a sua existência. Duras fala de todos, excepto da morte do marido.
Nascida em 1914 na Indochina francesa, Marguerite teve uma infância e adolescência pobres, marcadas ainda pela relação conflituosa com a mãe. Aos 18 anos foi viver para Paris. À sua vida adulta não faltaram momentos dramáticos. Foi membro da resistência na II Guerra Mundial, tendo aderido ao Partido Comunista francês. Assistiu à prisão do seu marido às mãos dos nazis e subsequente envio do mesmo para um campo de concentração. Ela própria durante a ocupação alemã chegou a tomar parte directa na tortura de um colaboracionista, episódio que assumiu publicamente em 1985 e que descreveu de forma viva na sua obra ficcional. Marcaram-na ainda a relação distante com o filho único (desejou ter mais) e o alcoolismo contra o qual lutou.
Mas a sua vida foi também construída com base no seu talento para a escrita, de que estava bem consciente. Os livros trouxeram-lhe riqueza e reconhecimento, de que nunca se envergonhou. Escreveu incessantemente sobre tudo. Ela própria disse a Laure Adler, autora da sua biografia: “Escrevi sobre tudo, mas não contei nada”. Talvez se tenha enganado. Porque quando lemos a obra de Adler (Marguerite Duras – Uma biografia) ou assistimos à sua conversa com Nordlund, recordamos de imediato os seus livros. E está lá tudo: a revolta, o vazio, o amor, o prazer, a liberdade. Na sua vida, como nas suas inúmeras obras: O amante, O marinheiro de Gibraltar, A ausência de Lol. V. Stein, O amor, Os cavalos de Tarquínia e tantos outros.
Em todos os seus livros é de liberdade (ou da falta dela) que se fala. Da recusa em conferir aos outros o direito de viverem a nossa vida por nós. Porque como muito bem anteviu o nosso Fernando Pessoa, nem só quem nos odeia e nos inveja nos limita. E é também a liberdade para além do amor que Duras nos deixa antever. E com ela a pergunta: queremos mesmo ser assim tão livres?
O que é verdadeiramente notável quando ouvimos Duras é a mensagem de esperança, talvez involuntária, que dela emana. A sua alegria, a sua paz de espírito não resultam de não ter tido dificuldades. Ao invés, ela tudo viveu e sobre tudo reflectiu. É talvez daí que vem a sua aparente paz de espírito: percebeu o que havia a perceber e aceitou o que esteve para além disso.


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