quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Aventuras livrescas


Fresh Mind Matters
      O que conduz a que alguns escritores sejam publicados e promovidos e outros não?
      Eis uma boa questão para a qual já se sabe a resposta.
     Alguns escritores são publicados e promovidos porque têm talento. Outros porque estão no local certo na hora certa, conhecem as pessoas que vale a pena conhecer e têm “um bom produto” (o que não é mesmo, como bem sabemos, de se dizer que escreveram um bom livro).
Mas há um imenso mar de escritores que são publicados e que não têm qualquer tipo de promoção. Aliás, uma boa parte deles nem vê as suas obras serem distribuídas, por incapacidade da sua editora.
        Uma das poucas excepções à minha natureza cautelosa está no domínio livreiro. Aqui não tenho contemplações e enfrento o desconhecido com um sorriso nos lábios.

Talvez por isso ao longo dos anos fui recolhendo diversos livros de escritores que por motivos que me ultrapassam são desconhecidos do “grande público”. Não direi que são génios literários, mas o que é certo que é gostei dos seus livros e se apanhasse novas obras não hesitaria em comprá-las. Encontrei estes livros nos sítios mais diversos: em livrarias/papelarias de província, em feiras do livro e mesmo em supermercados.
Dentro de um registo intimista, gostei do livro de Ana Casaca, A vontade de regresso, publicado pela Sopa de Letras. Não conheço esta escritora e nunca mais encontrei qualquer outro exemplar deste livro. Mas a história de Teresa cativou-me e deu-me umas horas agradáveis de leitura. O mesmo se diga de Um animal de pele branca, imaculada de João Camilo, publicado pela ovni. Vi na badana do livro que este autor tem vasta obra publicada, entre prosa, poesia e ensaio. Este conjunto de contos que comprei numa feira do livro na província assenta sobretudo em dois temas essenciais: o amor e a mortalidade. Não é matéria fácil, é certo. Mas estão escritos de uma forma depurada (simples e elaborada, ao mesmo tempo). Em alguns perpassa tristeza e desespero, noutros uma nota humorística. Em todos, a consciência da fragilidade do sentir humano.
Num outro estilo, também gostei de ler A justa medida de Luís Ene, publicado pela Porto Editora na sequência do autor ter sido o vencedor do concurso Novos Talentos. E há uns anos atrás, numa passagem por Coimbra, comprei um relato da viagem pelo Norte do Paquistão e Estrada do Karakorum escrito por Ana Isabel Mineiro. O livro chama-se Onde os rios têm marés (publicado pela via óptima) e para além de uma escrita detalhada tem um conjunto de fotografias lindas tiradas pela autora. Mencionei apenas autores portugueses. Mas o que deixei escrito é válido para tantos escritores estrangeiros, cujos livros acabam por integrar as prateleiras dos saldos, por razões desconhecidas.
Claro que também já tive aventuras mal sucedidas. Em abono da verdade devo dizer que essas infelicidades aconteceram com autores desconhecidos publicados por editoras com alguma capacidade de distribuição. O que me levou a concluir, talvez de forma pouco caridosa, que tinham sido publicados por estarem no local certo na hora certa (felizmente, só uma vez).
       Acima de tudo, o que quero pôr aqui em relevo é que vale a pena arriscar comprando um livro escrito por alguém de quem nunca ouvimos falar e que muitas vezes surge mesmo em edição de autor. Sair do hábito, do best-seller ou mesmo do clássico depurado por séculos. Procurar nas prateleiras mais recônditas ou nos caixotes dos saldos. Como dizem os ingleses, live a little!

 

 

1 comentário:

  1. a sorte protege os audazes. ainda bem que assim tem sido com as leituras.

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