sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Um caso tenebroso, Honoré de Balzac

Quase todas as obras de Balzac têm a sua origem num facto real extraído da vida particular ou da vida pública que o escritor utiliza como inspiração. Por regra, os próprios protagonistas dos factos não se aperceberam da apropriação, não se tendo gerado qualquer celeuma a tal propósito. Mas não foi isso que sucedeu com Um caso tenebroso, publicado pela primeira vez em 1843.
Os factos em que o escritor se inspirou tiveram lugar no início do século XIX e diziam respeito ao rapto de Clemente de Gris, imputado a quatro jovens da nobreza, membros do partido realista e antagonistas de Napoleão.
Neste livro a figura de Clemente de Gris surge como Malin, auto-intitulado Conde de Gondroville. À semelhança de outros partidários da Revolução Francesa, Malin viu o seu fervor revolucionário ser compensado ao tomar posse de terras outrora propriedade da antiga nobreza francesa, afastada das mesmas e expatriada.
A história narrada por Balzac inicia-se em 1803 e de entre a galeria de personagens há duas que se assumem como principais: Michu e Laurence, condessa de Cinq-Cygne.
Michu é um anti-herói. Balzac pinta-o primeiro como a sociedade o conhece. Gradualmente, vamos penetrando nas motivações da personagem, descobrindo uma personagem tocante no seu sentido de honra e lealdade. Também a personagem da condessa chama à atenção. Nos romances da época não é habitual ver uma heroína feminina retratada desta forma. Embora Balzac não tenha resistido a defini-la como “bela”, atribuiu-lhe qualidades que raramente se encontram nos romancistas deste período como sendo de uma mulher. Laurence de Cinq-Cygnes surge como uma mulher da nobreza orgulhosa das suas origens, com convicções políticas sólidas e com coragem para as fazer valer.
Personagens como Michu e Laurence mostram como Balzac foi um romancista extraordinário, capaz de descrever caracteres admiráveis ou desprezíveis, independentemente do sexo, classe social ou profissão das mesmas. Este livro é apenas mais um exemplo disso mesmo. Um outro aspecto interessante deste livro é o triângulo amoroso existente entre Laurence e os seus dois primos que, embora platónico, não deixa de surpreender, por ser retratado de forma aberta.
Um caso tenebroso oferece ainda uma descrição e crítica do sistema judicial francês da época, rica em detalhes, dando-nos conta de aspectos tão diversos como a realização de perícia, as dificuldades do sistema de júri ou a importância (ou não) das alegações finais.
A tudo isto junta-se a técnica narrativa de Balzac e a sua capacidade de, em plena fuga pela floresta, se deter em considerações como esta “Na altura em que os dois fugitivos ali chegavam, a lua projectava o seu belo luar de prata no cimo das árvores centenárias da cumeada, e brincava nos magníficos tufos das línguas do bosque caprichosamente recortadas pelos caminhos que ali vinham desembocar, uma arredondadas, outras pontiagudas, esta rematada por uma única árvore, aquela por uma pequena mata.”
A meu ver, uma leitura altamente recomendável!

2 comentários:

  1. parabens pela brilhante explanacao de um texto e de Balzac.
    Tereza

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  2. Muito obrigada Tereza.
    Volte sempre.

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