quinta-feira, 6 de setembro de 2012

A vez e a voz das primeiras esposas


Todos os leitores conhecem esta sensação : uma personagem injustiçada, um final que não nos satisfaz quando terminamos a leitura de um livro ... Por exemplo, quando penso no Artur Corvelo, o herói de A Capital de Eça de Queirós entristece-me que o seu livro de poesia apenas tenha vendido o exemplar que ele próprio comprou. E que tenha ficado "enterrado" na província, desiludido com a Lisboa que conheceu. Do mesmo modo, custa-me o final de A casa da felicidade, de Edith Wharton.
Não devo estar sozinha nesta perspectiva. E há mesmo quem tome medidas, dando a conhecer a “outra face” de histórias que obtiveram consagração internacional. Jean Rhys e Ana Teresa Pereira fizeram-no, dando voz às primeiras esposas de Mr. Rochester e Max de Winter, protagonistas masculinos, respectivamente, Jane Eyre e Rebecca.
 Charlotte Bronte e Daphne du Maurier escolheram como heroínas duas mulheres que amaram homens torturados por casamentos infelizes. Mas as semelhanças entre as duas protagonistas terminam aí.
 Charlotte deu-nos Jane Eyre, uma heroína inteligente e fiel aos seus princípios, apaixonada por Mr. Rochester. Sempre com o espectro da primeira mulher dele, louca, encerrada no sótão. Já Daphne du Maurier deixou-nos uma heroína tão apagada que nunca chegamos a saber o seu primeiro nome. O romance tem o nome da primeira mulher de Max de Winter, já falecida quando a história tem o seu início – Rebecca. Tão inofensiva é a segunda esposa de Max que mesmo o segundo volume tem como título o seu nome de casada, Mrs de Winter.
Nem Rochester, nem Winter têm vidas amenas. Apesar de Charlotte Bronte ter sido criticada por quem quis ver na primeira Mrs Rochester (crioula) um sinal do racismo e preconceito dos ingleses contra os estrangeiros, certo é que a escritora não facilitou a vida ao seu herói. É certo que obtém o amor de Jane Eyre, mas não sem antes passar por uma “experiência purificadora” extrema (não vou revelar, para não estragar a leitura a quem ainda não conheça o romance). Para Max de Winter o caminho não é tão sinuoso. Acima de tudo, falhou a Daphne du Maurier a capacidade de lhe atribuir às dificuldades do viúvo de Rebecca o sentido de redenção que Bronte soube incutir no seu livro. Em parte, tal pode ser explicado pelo facto de du Maurier não ter simpatia por Rebecca (alguns críticos afirmam que a personagem teve a sua origem numa prima da escritora, tendo Daphne a suspeita de que ela e o seu marido mantinham uma ligação extra-conjugal). Por outro lado, quando li Rebecca fiquei persuadida de que o segundo casamento de Max de Winter não foi baseado num sentimento de amor, mas sobretudo na necessidade de “encontrar alguém” e, ao mesmo tempo, ajudar uma jovem órfã vista como desprotegida.
De qualquer modo, os sacrifícios dos dois heróis claramente não foram suficientes para os expurgar de eventuais culpas do passado. Para além das interpretações pouco simpáticas que estas obras mereceram a alguns críticos do século XX, surgiram ainda novas versões das histórias, agora contadas pelas primeiras esposas. 
      A Jane Eyre respondeu Jean Rhys com Vasto mar de sargaços, uma prequela, que conta a história de Antoinette, pondo a nu as dificuldades de inserção da mesma, quer no seu meio de origem, que na sociedade inglesa onde se inseriu após o casamento. Quanto a Rebecca foi a personagem principal de O verão selvagem dos teus olhos, escrito por Ana Teresa Pereira. Se du Maurier não teve simpatia por Rebecca, a escritora portuguesa é implacável com Max de Winter, retratando-o como um homem fraco e inseguro, incapaz de ser marido de sua esposa ou de a libertar.
     Independentemente de concordármos ou não com as reintepretações feitas, vale a pena lê-las. Quanto às obras que foram ponto de partida, a maior recomendação à sua leitura está nas reacções que provocaram em leitoras tão experimentadas como as duas escritoras que escolheram defender Antoinette e Rebecca.
     

Sem comentários:

Enviar um comentário