quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres, Clarice Lispector




            "De repente Lóri não suportou mais e telefonou para Ulisses:
- Que é que eu faço, é de noite e eu estou viva. Estar viva está me matando aos poucos, e eu estou toda alerta no escuro.
Houve uma pausa, ela chegou a pensar que Ulisses não ouvira. Então ele disse com voz calma e apaziguante:
- Aguente.
Quando desligou o telefone, a noite estava húmida e a escuridão suave, e viver era ter um véu cobrindo os cabelos. Então com ternura aceitou estar no mistério de ser viva.
Antes de se deitar foi ao terraço: uma lua cheia estava sinistra no céu. Então ela se banhou toda nos raios lunares e se sentiu profundamente límpida e tranquila.
Pouco a pouco foi adormecendo de doçura, e a noite era bem dentro. Quando a noite amadurecesse viria o véu mais cheio de brisa da madrugada. Por enquanto ela estava delicadamente viva, dormindo."

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

História do Sábio Fechado na sua Biblioteca, Manuel António Pina

Manuel António Pina faleceu há poucos dias. Infelizmente não conheço a sua obra com a profundidade de que a mesma é merecedora. Vencedor do Prémio Pessoa de 2011, Manuel António Pina foi jornalista, poeta, ensaísta e dramaturgo. Mas se não conheço ainda a sua obra, houve uma frase dita por ele que não me saiu da memória desde que a li. Em entrevista à revista Ler, o escritor disse: "Mais do que bons poetas, precisamos de boas pessoas”.
É uma frase muito simples, mas cheia de significado. A arte, criada ou fruída, não redime falhas de carácter. O que não falta na História são homens e mulheres que, sob a capa da genialidade, viveram vidas onde pontuaram as maiores canalhices. E um dos grandes mistérios da condição humana é perceber como a sensibilidade artística pode conviver com as formas mais extremas de maldade.
Esta frase de Manuel António Pina veio-me à mente logo que soube da sua morte. E também quando li a História do Sábio Fechado na sua Biblioteca. Trata-se de uma peça de teatro publicada numa colecção infantil, mas que na realidade é adequada a pessoas de todas as idades. São certamente muitas as leituras possíveis do texto. Para mim, é uma representação de duas ideias. Por um lado, o isolamento dos que buscam o saber só para si e não procuram partilhá-lo. Não é por acaso que o sábio está fechado na sua biblioteca, só dele, rodeado de livros que só ele consulta. Esse conhecimento livresco isola-o dos outros. Ele crê que ninguém pode acrescentar nada ao tudo que já sabe. Os outros temem-no por crerem que ele sabe tudo e nada há a adicionar. A segunda ideia é a de esterilidade do conhecimento puramente intelectual, que não é acompanhado de ligação ao próximo e emoção. O sábio leu todos os livros, mas dali não retirou qualquer ligação aos outros. O tédio existencial consome-o e, por não ter verdadeiramente vivido, não consegue morrer. Através de um conjunto de episódios muito simples, o sábio vai ao encontro dos seus semelhantes, numa viagem iniciática. Encontra um Mendigo, um Doente e a Rapariga por quem em tempos se apaixonou. Todos os episódios têm um carácter simbólico, enquanto o Sábio vai ao encontro da compaixão e do amor.
 Aquele carácter simbólico é reforçado pelas ilustrações (muito bonitas) de Ilda David. Os desenhos acabam por remeter para uma ideia de retorno a um paraíso já antes conhecido. Um paraíso de que o Sábio não foi expulso, mas de onde saiu voluntariamente, trilhando o caminho do conhecimento enciclopédico auto-suficiente. 
Terminei a leitura com o eco da frase de Manuel António Pina, a que acima fiz referência. Ainda bem que há bons criadores e bons espectadores da criação artística. Mas o mais importante é que as várias formas de arte não nos alienem, mas antes ecoem em nós e nos levem a ser melhores pessoas.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

O Judeu, Camilo Castelo Branco

Camilo Castelo Branco
Camilo Ferreira Botelho Castelo Branco nasceu em Lisboa, a 16 de Março de 1825 e morreu a 1 de Junho de 1890. Na história da literatura portuguesa é um dos expoentes da romantismo e a sua própria vida foi marcada por momentos dramáticos e intensas paixões. Uma delas o seu amor por Ana Plácido, à época casada, facto que os conduziu a ambos a uma temporada na prisão.
Foi com base nessa experiência que Camilo escreveu as suas Memórias do Cárcere.
Foram muitos os livros escritos por Castelo Branco, sendo a sua qualidade desigual. À semelhança de outros grandes vultos da literatura mundial, escrevia muitas vezes sob a pressão da necessidade de obter dinheiro. O que ganhava em produtividade, perdia, por vezes, em qualidade dos enredos.
Amor de Perdição com o seu infeliz triângulo amoroso (Simão, Teresa e Mariana), é a sua obra mais conhecida. Não sei qual será hoje a ideia dos adolescentes que têm de ler Camilo. Mas a mim, já na altura, toda a história me parecia um pouco excessiva.
Daquilo que já li de Camilo, a obra que me marcou mais foi, contudo, O Judeu, um romance histórico publicado em 1866. A acção decorre entre os séculos XVII e XVIII, passando por Portugal, Inglaterra, Itália e Brasil. A inspiração da obra é a vida do dramaturgo português, António José da Silva, a quem é dedicada. António José nasceu no Rio de Janeiro, tendo vindo para Portugal ainda criança. Estudou Direito em Coimbra, mas foi como comediógrafo que se celebrizou. A sua peça mais conhecida é As guerras de Alecrim e Manjerona.
A sua vida foi marcada pela perseguição e tortura às mãos da Inquisição, tendo morrido num auto de fé em Lisboa a 19 de Outubro de 1739. Para além de Camilo, a sua trágica vida inspirou outros autores, como Bernardo Santareno.
O Judeu é composto por dois volumes. No primeiro conta-se a história de Jorge de Barros, neto Luís Pereira de Barros, contador-mor dos contos do reino. A filha de Jorge, Leonor, casa no segundo volume com António José da Silva. O tema central de ambos os volumes é a actuação da Inquisição em Portugal e o modo como o Santo Ofício foi utilizado para ir ao encontro de outros interesses que não os da fé. Mais ainda, como em quase toda a obra camiliana, o tema é a luta entre o Bem e o Mal.
Na nossa literatura talvez só Camilo consiga descrever com tanta naturalidade quadros tão excessivos: de um lado personagens eivadas de astúcia e maldade, do outro lado, gente de carácter nobre, balizado pelos valores da honra e da amizade. O Judeu é um romance trágico, que apela aos nossos melhores valores na condução da vida quotidiana, mas é também um fresco sobre um período dramático da história de Portugal, ilustrando como agia a Inquisição entre nós.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

O que é um clássico?

           É um livro intemporal. Lê-se hoje como se lia há 50 anos ou como se lerá daqui a um século. Porque toca o âmago do que é o ser humano, independentemente do tempo e do espaço em que vive. A prova dessa perenidade está, não só nas sucessivas reedições em livro, mas também na renovação das versões cinematográficas. Como o Grande Gatsby ou Anna Karenina, cujas novas adaptações estreiam ainda este ano.



Cena de O Grande Gatsby
 
Cena de Anna Karéninna

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

A viagem, Virginia Woolf

             Virginia Woolf era filha de Leslie e Julia Stephen. Em comum, o casal teve ainda outras duas crianças, Vanessa e Thoby, irmãos dilectos de Virginia.   Julia Stephen morreu quando os seus filhos eram ainda crianças. Esse facto, aliado ao carácter distante e egoísta de Leslie e aos abusos sexuais que Virginia sofreu pela acção do seu meio-irmão Cecil, produziram efeitos indeléveis na vida daquela, que nunca recuperou totalmente. Ainda assim, Virgínia conseguiu autonomizar-se do seu meio familiar original. Num primeiro momento, após a morte do pai, mudou-se com Vanessa e Thoby para uma casa no bairro londrino de Bloomsbury, onde deram início a uma comunidade intelectual a que os ingleses não ficaram indiferentes. Anos mais tarde, em 1912, casou com Leonard Woolf, com quem fundou a editora Hogarth Press.
            A Viagem foi o seu primeiro romance, tendo sido publicado em 1915. A protagonista é Rachel Vinrace, uma jovem mulher presa entre a incapacidade de se adaptar ao papel que lhe estava tradicionalmente destinando (esposa) e a impreparação para encontrar um modelo de vida alternativo. Rachel tem vinte e quatro anos e, após a morte da mãe foi educada pelo pai e tias solteiras. O resultado, como constatamos logo no início do livro, é, não só uma total impreparação académica, como um desconhecimento dos factos básicos da vida, designadamente os que ligam os homens e as mulheres.
            A acção decorre entre Londres e a América do Sul, com uma breve escala em Portugal. Mas mais importante do que a deslocação física é o desenvolvimento emocional de Rachel que a sua tia Helen decide tomar a seu cargo.
            O tema principal do livro é a condição feminina no início do século XX. Este aspecto, designadamente as lacunas da educação feminina são por várias vezes salientados nas páginas deste livro, antecipando ensaios de Virginia Woolf como Um quarto que fosse seu e O momento total. Pelo livro perpassa a influência da Jane Austen. No entanto, as mulheres de A Viagem estão num momento histórico muito diverso do de Elisabeth Bennet ou Anne Elliot. Para as heroínas austenianas o casamento era o caminho natural e desejável. A grande questão era encontrar o marido ideal. Não apenas capaz de as sustentar de acordo com o nível económico e social a que estão habituadas (ou ainda melhor), mas que seja um companheiro de vida agradável.
          Virgínia Woolf escreve num mundo muito diferente. Um mundo onde as desvantagens do matrimónio e o seu lado rotineiro e mesmo insatisfatório foram já relevados na literatura em obras tão diversas como Madame Bovary de Flaubert, Despertar de Kate Chopin ou O Primo Basílio do nosso insuspeito Eça de Queirós.Por isso, a questão que aflora neste livro de Virginia Woolf (e que é recuperada pouco tempo depois no romance Noite e Dia) é a de saber se faz sentido casar, para quem não tenha necessidade de dar esse passo para a sua sobrevivência económica. Esta dúvida não assalta apenas Rachel (aliás, esta personagem não teoriza sobre este tema, apenas o intui), mas outra personagem, Evelyn: “Evely não disse nada, mas andara à procura de Susan e de Rachel. Bom … ambas se tinham decidido muito depressa, tinham feito em escassas semanas aquilo que por vezes ela receava nunca ser capaz de fazer. Apesar de serem muito diferentes, julgava ver nas duas o mesmo ar de contentamento e realização, a mesma postura calma e a mesma lentidão de movimentos. Eram essa lentidão, essa confiança e esse contentamento que abominava, pensou para consigo. Movimentavam-se devagar porque não eram únicas mas duplas (…). O amor era muito bonito e aquelas casas familiares e aconchegantes também, com a cozinha por baixo e o quarto das crianças por cima, que eram recolhidas e reservadas, pequenas ilhas nas torrentes do mundo. As coisas genuínas, porém, eram indubitavelmente aquelas que aconteciam, as causas, as guerras, os ideais que aconteciam no grande mundo lá fora e que se desenrolavam independentemente daquelas mulheres, tão formosa e recatadamente viradas para os homens. (…)”
            O mundo em que Woolf escreveu estava em desintegração. Não apenas quanto ao modelo social e económico, mas também no que diz respeito à estrutura familiar e às expectativas individuais. E neste livro tudo isso é questionado, com particular enfoque no conceito do casamento. Há uma ambivalência que a própria escritora não conseguiu solucionar na vida real, pois casou com Leonard sem o amar, facto que nunca lhe escondeu. A solução que encontrou para a personagem principal de A Viagem acaba por ser a possível, perante a sua incapacidade de responder ao desafio que a vida lhe está a fazer.
            Do ponto de vista formal é também neste livro que Virgínia Woolf faz a sua primeira tentativa de abandonar a estrutura narrativa clássica. Perde preponderância a acção, para ganhar terreno a percepção de cada indivíduo da realidade, com a projecção e análise das suas emoções e sensações. Mais tarde Virgínia desenvolveu esta nova estrutura narrativa em obras como O quarto de Jacob ou Orlando. Estas obras tornaram-na uma das mais conhecidas escritoras do século XX, tendo-lhe, porém, causado grandes sofrimentos, agravados pela doença mental de que padecia.
         

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Não há poetas a mais (IV)


Já aqui falei de João Camilo, uma descoberta literária deste Verão. Para além de prosa, escreve também poesia. Do que já li gostei particularmente deste poema. Parece tão simples, mas como todos sabemos, escolher as palavras certas é sempre complicado.

Esquecemos

Responder às questões fundamentais
está fora do nosso alcance. Respondemos à nossa maneira e provavelmente não há outra.
Agir (age-se por necessidade) é já
responder. Esquecemos a perfeição, a lógica,
as teorias. Mais tarde podemos lamentar
as erros cometidos ou corrigir. Não
somos deuses nem nos habita a ambição
se ocupar um lugar de responsabilidade
na História. Deixamos aos outros a ilusão
das doutrinas, as explicações do mundo
due se pretendem inteligentes. Vivemos
como podemos. Não é preciso comer,
dormir, amar? Fazemos o que é possível
por ir cumprindo com o destino. E
quando os problemas são insolúveis
aceitamos esperar até poder tomar
uma decisão (apesar da imperfeição,
que não ignoramos, do conhecimento).
Às vezes, para evitar aprofundar a
questão do tédio, pomos a tocar
Um disco de Vivaldi e ouvimos.
     
               João Camilo, A ignorância e o conhecimento, pág. 56

terça-feira, 9 de outubro de 2012

O Feiticeiro de Oz


Judy Garland em plena leitura de O Feiticeiro de Oz


            Embora existam interpretações que pretendem encontrar um sentido político e económico na aventura de Dorothy e dos seus três amigos (o Homem de Lata, o Leão e o Espantalho) a maior parte do público vê o Feiticeiro de Oz apenas (e já não é pouco) como uma história de encantar.
           Para mim, que li o livro já adulta, para além do seu lado lúdico, o livro é uma metáfora, quanto às virtudes essenciais a cada um de nós e, por reflexo, à sociedade em que vivemos: a capacidade de sentir ternura, a coragem e a inteligência. Enquanto o lia, tive  percepção imediata de que não era uma história apenas para crianças, convicção que se reforçou com o final do livro.
             Enquanto vão ao encontro do Feiticeiro, Dorothy e os seus três amigos enfrentam os clássicos obstáculos e produzem considerações como esta que nos põem a pensar:
 “Ainda assim – disse o Espantalho – quero um cérebro em vez de um coração, porque um tolo não saberia o que fazer com um coração se tivesse um.
Fico com o coração - respondeu o Homem de Lata – porque o cérebro não faz ninguém feliz e a felicidade é a melhor coisa do mundo.”
Miúdo ou graúdo, este é um livro a não perder.

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

A estante dos outros (I)

      

A estante de F. , por ela própria, com a ajuda de J.

      

           Um dos grandes prazeres dos leitores é, não apenas ler, mas também trocar impressões com os que partilham a sua paixão, sobre livros. É essa, aliás, a lógica deste blogue. Por isso mesmo, pedi a alguns amigos que me respondessem a um pequeno inquérito, subordinado precisamente … à leitura e aos livros. Esta rubrica vai chamar-se A estante dos outros.

            A primeira convidada é F.. Minha amiga há vários anos, é uma leitora curiosa, original e sem preconceitos, graças a quem tenho descoberto vários autores.

            Obrigada pela disponibilidade F.!

 

       1.   Qual é a tua primeira recordação literária?

       Os contos dos Irmãos Grimm e de Perrault, em especial o do Capuchinho Vermelho que fez-me, desde muito cedo, suspeitar dos lobos maus.

       2. Indica três livros que te tenham marcado e porquê.

   

   - Crime e Castigo, de  Fiódor Dostoiévski pelas questões suscitadas, particularmente, a da motivação subjacente a toda a actuação; do determinismo "versus" libre arbítrio; da moral e da justiça; e da culpa como derradeira redentora;

 

     - O Último Dia De Um Condenado, de Vítor Hugo. A descrição opressora einsuportável a que o escritor procede do último dia da vida de umhomem condenado à pena capital fez-me reflectir, e ainda hoje faz, na necessidade comunitária das reacções penais e proporcionalidade das mesmas e como equacioná-las, sempre, a uma luz humanista. Por este motivo tornou-se um livro determinante na minha formação humanista e profissional.

 

    - As Memórias de Adriano, de Marguerite Yourcenar: por me ter transportado ao tempo de Adriano que, no fundo, poderá ser qualquer um de nós que facilmente se reverá em pensamentos do protagonista. Estelivro não me marcou, marca-me constantemente pois sempre que o releio descubro novos temas de reflexão e apercebo-me das mutações no meu pensamento pessoal pois a cada leitura relaciono-me de modo distinto com aquilo que leio. As releituras que faço são fruto das experiências que vou vivenciando, por mim própria ou como simples observadora, e espelho delas.

 

  3. Tens um hábito ou ritual de leitura?
             Prefiro ler em silêncio e reclinada e o uso de óculos para ler é imperativo mas não penso que se tratem propriamente de hábitos ou rituais.

           4. Qual o livro que não lerias nem que te pagassem o teu peso em ouro?

           Nenhum.

           5. Se tivesses três meses de folga, sem interrupções ou problemas de qualquer espécie, que livro (s) escolherias para ler?

     A Montanha Mágica e o Doutor Fausto, de Thomas Mann;  Em Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust; e Ulisses, de James Joyce. Essencialmente por se tratarem de leituras começadas e abandonadas e que merecem ser terminadas.

          6. O que estás a ler agora?
          O romancista ingênuo e o sentimental, de Orhan Pamuk