segunda-feira, 15 de outubro de 2012

A viagem, Virginia Woolf

             Virginia Woolf era filha de Leslie e Julia Stephen. Em comum, o casal teve ainda outras duas crianças, Vanessa e Thoby, irmãos dilectos de Virginia.   Julia Stephen morreu quando os seus filhos eram ainda crianças. Esse facto, aliado ao carácter distante e egoísta de Leslie e aos abusos sexuais que Virginia sofreu pela acção do seu meio-irmão Cecil, produziram efeitos indeléveis na vida daquela, que nunca recuperou totalmente. Ainda assim, Virgínia conseguiu autonomizar-se do seu meio familiar original. Num primeiro momento, após a morte do pai, mudou-se com Vanessa e Thoby para uma casa no bairro londrino de Bloomsbury, onde deram início a uma comunidade intelectual a que os ingleses não ficaram indiferentes. Anos mais tarde, em 1912, casou com Leonard Woolf, com quem fundou a editora Hogarth Press.
            A Viagem foi o seu primeiro romance, tendo sido publicado em 1915. A protagonista é Rachel Vinrace, uma jovem mulher presa entre a incapacidade de se adaptar ao papel que lhe estava tradicionalmente destinando (esposa) e a impreparação para encontrar um modelo de vida alternativo. Rachel tem vinte e quatro anos e, após a morte da mãe foi educada pelo pai e tias solteiras. O resultado, como constatamos logo no início do livro, é, não só uma total impreparação académica, como um desconhecimento dos factos básicos da vida, designadamente os que ligam os homens e as mulheres.
            A acção decorre entre Londres e a América do Sul, com uma breve escala em Portugal. Mas mais importante do que a deslocação física é o desenvolvimento emocional de Rachel que a sua tia Helen decide tomar a seu cargo.
            O tema principal do livro é a condição feminina no início do século XX. Este aspecto, designadamente as lacunas da educação feminina são por várias vezes salientados nas páginas deste livro, antecipando ensaios de Virginia Woolf como Um quarto que fosse seu e O momento total. Pelo livro perpassa a influência da Jane Austen. No entanto, as mulheres de A Viagem estão num momento histórico muito diverso do de Elisabeth Bennet ou Anne Elliot. Para as heroínas austenianas o casamento era o caminho natural e desejável. A grande questão era encontrar o marido ideal. Não apenas capaz de as sustentar de acordo com o nível económico e social a que estão habituadas (ou ainda melhor), mas que seja um companheiro de vida agradável.
          Virgínia Woolf escreve num mundo muito diferente. Um mundo onde as desvantagens do matrimónio e o seu lado rotineiro e mesmo insatisfatório foram já relevados na literatura em obras tão diversas como Madame Bovary de Flaubert, Despertar de Kate Chopin ou O Primo Basílio do nosso insuspeito Eça de Queirós.Por isso, a questão que aflora neste livro de Virginia Woolf (e que é recuperada pouco tempo depois no romance Noite e Dia) é a de saber se faz sentido casar, para quem não tenha necessidade de dar esse passo para a sua sobrevivência económica. Esta dúvida não assalta apenas Rachel (aliás, esta personagem não teoriza sobre este tema, apenas o intui), mas outra personagem, Evelyn: “Evely não disse nada, mas andara à procura de Susan e de Rachel. Bom … ambas se tinham decidido muito depressa, tinham feito em escassas semanas aquilo que por vezes ela receava nunca ser capaz de fazer. Apesar de serem muito diferentes, julgava ver nas duas o mesmo ar de contentamento e realização, a mesma postura calma e a mesma lentidão de movimentos. Eram essa lentidão, essa confiança e esse contentamento que abominava, pensou para consigo. Movimentavam-se devagar porque não eram únicas mas duplas (…). O amor era muito bonito e aquelas casas familiares e aconchegantes também, com a cozinha por baixo e o quarto das crianças por cima, que eram recolhidas e reservadas, pequenas ilhas nas torrentes do mundo. As coisas genuínas, porém, eram indubitavelmente aquelas que aconteciam, as causas, as guerras, os ideais que aconteciam no grande mundo lá fora e que se desenrolavam independentemente daquelas mulheres, tão formosa e recatadamente viradas para os homens. (…)”
            O mundo em que Woolf escreveu estava em desintegração. Não apenas quanto ao modelo social e económico, mas também no que diz respeito à estrutura familiar e às expectativas individuais. E neste livro tudo isso é questionado, com particular enfoque no conceito do casamento. Há uma ambivalência que a própria escritora não conseguiu solucionar na vida real, pois casou com Leonard sem o amar, facto que nunca lhe escondeu. A solução que encontrou para a personagem principal de A Viagem acaba por ser a possível, perante a sua incapacidade de responder ao desafio que a vida lhe está a fazer.
            Do ponto de vista formal é também neste livro que Virgínia Woolf faz a sua primeira tentativa de abandonar a estrutura narrativa clássica. Perde preponderância a acção, para ganhar terreno a percepção de cada indivíduo da realidade, com a projecção e análise das suas emoções e sensações. Mais tarde Virgínia desenvolveu esta nova estrutura narrativa em obras como O quarto de Jacob ou Orlando. Estas obras tornaram-na uma das mais conhecidas escritoras do século XX, tendo-lhe, porém, causado grandes sofrimentos, agravados pela doença mental de que padecia.
         

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