segunda-feira, 29 de outubro de 2012

História do Sábio Fechado na sua Biblioteca, Manuel António Pina

Manuel António Pina faleceu há poucos dias. Infelizmente não conheço a sua obra com a profundidade de que a mesma é merecedora. Vencedor do Prémio Pessoa de 2011, Manuel António Pina foi jornalista, poeta, ensaísta e dramaturgo. Mas se não conheço ainda a sua obra, houve uma frase dita por ele que não me saiu da memória desde que a li. Em entrevista à revista Ler, o escritor disse: "Mais do que bons poetas, precisamos de boas pessoas”.
É uma frase muito simples, mas cheia de significado. A arte, criada ou fruída, não redime falhas de carácter. O que não falta na História são homens e mulheres que, sob a capa da genialidade, viveram vidas onde pontuaram as maiores canalhices. E um dos grandes mistérios da condição humana é perceber como a sensibilidade artística pode conviver com as formas mais extremas de maldade.
Esta frase de Manuel António Pina veio-me à mente logo que soube da sua morte. E também quando li a História do Sábio Fechado na sua Biblioteca. Trata-se de uma peça de teatro publicada numa colecção infantil, mas que na realidade é adequada a pessoas de todas as idades. São certamente muitas as leituras possíveis do texto. Para mim, é uma representação de duas ideias. Por um lado, o isolamento dos que buscam o saber só para si e não procuram partilhá-lo. Não é por acaso que o sábio está fechado na sua biblioteca, só dele, rodeado de livros que só ele consulta. Esse conhecimento livresco isola-o dos outros. Ele crê que ninguém pode acrescentar nada ao tudo que já sabe. Os outros temem-no por crerem que ele sabe tudo e nada há a adicionar. A segunda ideia é a de esterilidade do conhecimento puramente intelectual, que não é acompanhado de ligação ao próximo e emoção. O sábio leu todos os livros, mas dali não retirou qualquer ligação aos outros. O tédio existencial consome-o e, por não ter verdadeiramente vivido, não consegue morrer. Através de um conjunto de episódios muito simples, o sábio vai ao encontro dos seus semelhantes, numa viagem iniciática. Encontra um Mendigo, um Doente e a Rapariga por quem em tempos se apaixonou. Todos os episódios têm um carácter simbólico, enquanto o Sábio vai ao encontro da compaixão e do amor.
 Aquele carácter simbólico é reforçado pelas ilustrações (muito bonitas) de Ilda David. Os desenhos acabam por remeter para uma ideia de retorno a um paraíso já antes conhecido. Um paraíso de que o Sábio não foi expulso, mas de onde saiu voluntariamente, trilhando o caminho do conhecimento enciclopédico auto-suficiente. 
Terminei a leitura com o eco da frase de Manuel António Pina, a que acima fiz referência. Ainda bem que há bons criadores e bons espectadores da criação artística. Mas o mais importante é que as várias formas de arte não nos alienem, mas antes ecoem em nós e nos levem a ser melhores pessoas.

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