quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Não há poetas a mais (IV)


Já aqui falei de João Camilo, uma descoberta literária deste Verão. Para além de prosa, escreve também poesia. Do que já li gostei particularmente deste poema. Parece tão simples, mas como todos sabemos, escolher as palavras certas é sempre complicado.

Esquecemos

Responder às questões fundamentais
está fora do nosso alcance. Respondemos à nossa maneira e provavelmente não há outra.
Agir (age-se por necessidade) é já
responder. Esquecemos a perfeição, a lógica,
as teorias. Mais tarde podemos lamentar
as erros cometidos ou corrigir. Não
somos deuses nem nos habita a ambição
se ocupar um lugar de responsabilidade
na História. Deixamos aos outros a ilusão
das doutrinas, as explicações do mundo
due se pretendem inteligentes. Vivemos
como podemos. Não é preciso comer,
dormir, amar? Fazemos o que é possível
por ir cumprindo com o destino. E
quando os problemas são insolúveis
aceitamos esperar até poder tomar
uma decisão (apesar da imperfeição,
que não ignoramos, do conhecimento).
Às vezes, para evitar aprofundar a
questão do tédio, pomos a tocar
Um disco de Vivaldi e ouvimos.
     
               João Camilo, A ignorância e o conhecimento, pág. 56

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