quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres, Clarice Lispector




            "De repente Lóri não suportou mais e telefonou para Ulisses:
- Que é que eu faço, é de noite e eu estou viva. Estar viva está me matando aos poucos, e eu estou toda alerta no escuro.
Houve uma pausa, ela chegou a pensar que Ulisses não ouvira. Então ele disse com voz calma e apaziguante:
- Aguente.
Quando desligou o telefone, a noite estava húmida e a escuridão suave, e viver era ter um véu cobrindo os cabelos. Então com ternura aceitou estar no mistério de ser viva.
Antes de se deitar foi ao terraço: uma lua cheia estava sinistra no céu. Então ela se banhou toda nos raios lunares e se sentiu profundamente límpida e tranquila.
Pouco a pouco foi adormecendo de doçura, e a noite era bem dentro. Quando a noite amadurecesse viria o véu mais cheio de brisa da madrugada. Por enquanto ela estava delicadamente viva, dormindo."

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