quinta-feira, 29 de novembro de 2012

       
        Da propaganda soviética fez parte o apelo à leitura. No primeiro cartaz lê-se “Estima os livros, amigos fiéis em viagem e no trabalho” (vi a tradução em inglês, não falo russo). Claro que não eram quaisquer livros. Apenas aqueles que permitissem a quem os lia compreender e contribuir para a “vitória do proletariado”. Basta olhar para os cartazes para perceber que não havia ali espaço para expansões individuais. A alma era um luxo e poesia um crime contra o proletariado.
        Foram muitos os escritores que se viram confrontados com a impossibilidade de escrever, porque nada queriam dizer sobre a revolução (ou se calhar queriam, mas não usando palavras aprovadas pelo PCUS). Entre tantas obras literárias sobre esse tema, lembrei-me há dias do Doutor Jivago, de Boris Pasternak. A esse nem o facto de ser médico o salvou de também ser poeta. Como a sua conversa com Pasha Antipov deixa claro: "A vida pessoal está morta na Rússia. A História matou-a". Estava enganado, claro. Mas o erro saíu caro a muitos.








terça-feira, 27 de novembro de 2012

A minha história com Bob, James Bowen



        Quando James Bowen e Bob se encontraram, o primeiro era um músico de rua em Londres a lutar contra a toxicodependência. Bob é um gato e este livro conta a história da amizade entre os dois que ainda hoje se mantém.
Não uso o termo amizade por iniciativa própria. Na verdade, é o próprio Bowen quem descreve a sua relação com Bob nesses termos. Pode parecer, tendo em atenção ser o foco principal da história a relação entre os dois, que este é um livro de memórias que interessa sobretudo quem tem animais de estimação. E é verdade que há determinados aspectos a que quem convive ou conviveu com animais de quatro patas, vai ser mais sensível: o orgulho de Bowen na facilidade com que Bob cativa as pessoas que com eles se vão encontrando, a convicção nas suas capacidades e a certeza de que se entendem um ao outro sem necessidade de palavras. Este aspecto do livro é muito engraçado (embora um pouco assustador, quando revemos em Bowen algumas das nossas crenças em relação ao nosso amigo felino).
Mas o interesse do livro não se esgota aí. Bowen viveu numa situação de grande fragilidade pessoal e social, relatando-a sem discursos de auto-desculpabilização ou sentimentalismos gratuitos. E, no entanto, a forma como o faz chega a ser tocante. O afastamento da família, a desestruturação da sua vida, o sentimento de invisibilidade vivido ao percorrer as ruas londrinas são algumas as experiências que partilha connosco. Não surpreende, pois, que se tenha ligado de forma tão intensa a Bob, descrevendo a relação entre ambos como sendo de “amizade” e manifestando a preocupação de não o desiludir. A descrição que faz do primeiro Natal que passam juntos é, de facto, elucidativa da importância do gato na vida de Bowen. E mostra bem como, às vezes, o que é preciso é encontrar o incentivo certo para começar a mudar de vida.
Este livro foi-me oferecido pelo meu Pai. De outro modo, quase de certeza que não o teria lido. O que seria uma pena, porque, sendo de um estilo totalmente diverso daquilo que por regra leio, gostei genuinamente dele. E não há dúvidas que desenvolvi uma maior tolerância para com as travessuras do inquilino que agora tenho lá por casa.

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

A poem a day keeps the doctor away



Escrever poemas à amada é, parafraseando o nosso Dâmaso, muito chique. Mas, como ele mesmo sentiu na pele em A Tragédia da Rua das Flores não é tarefa ao nível de qualquer um. Por isso, é sempre de admirar quem conjuga o amor com o talento poético, como foi o caso de Catulo, poeta romano apaixonado por Lésbia.
Aos demais, resta pedir emprestado um poema, de preferência indicando a autoria, para não haver mal-entendidos, nem desilusões.



Vivamos, minha Lésbia, e amemos
e os murmúrios dos velhos mais severos
dêmos-lhes a todos o valor de um centavo!
Os sóis podem extinguir-se e voltar:
mas nós, uma vez que se extingue a breve luz do dia,
temos de dormir uma só noite, para sempre.
Dá-me mil beijos, depois um cento
e mais mil, depois outro cento.
depois outros mil, e mais cem.
Em seguida, quando juntarmos muitos milhares,
misturamo-los, para que não saibamos
ou nenhum malvado possa invejar-nos,
quando souber que os beijos foram tantos.

trad. Maria Helena da Rocha Pereira, Romana, págs. 93/94, Coimbra, 2000



sábado, 24 de novembro de 2012

Andy


         Andy Warhol disse um dia "I never read, I just look at pictures". Mas eu não acredito! 



quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Utz, Bruce Chatwin


Bruce Chatwin

Utz é um pequeno romance que tem como protagonista um intelectual da pequena nobreza da antiga Checoslováquia, cujo nome dá o título ao livro.
Karl Utz é-nos retratado como um cavalheiro, esteta e apaixonado por porcelana. Vive num pequeno apartamento em Praga, perfeitamente conformado com a perda do castelo e demais riquezas da sua família, cuidando da sua preciosa colecção de porcelanas. Esta colecção é, aliás, o único interesse da sua vida, sendo à volta dela que tudo o demais gravita.
            Quando Chatwin escreveu este livro estava já muito doente (faleceu com apenas 49 anos). Ao New York Times disse ter escrito o livro debilitado em consequência de uma infecção que apanhou durante uma viagem à China. O que estava longe da verdade, pois faleceu vítima de SIDA.  
            Chatwin foi ele próprio uma personagem digna de um romance. Disso indicativo é o facto da sua biografia, escrita por Nicholas Shakespeare, ter demorado oito anos a escrever e ter mais de quinhentas páginas. Apaixonado por obras de arte e viajante inveterado, contam-se sobre ele vários episódios curiosos. Um deles é o da sua partida inesperada em viagem deixando ao seu empregador um singelo bilhete onde se lia “Fui para a Patagónia.”
            Dessa viagem nasceu Na Patagónia, o seu primeiro livro. A sua obra não é vasta, tendo no conjunto de textos reunidos sob o título Anatomia da Errância o seu mais alto exemplo.
           Chatwin é um nome maior da literatura de viagens, mas claramente transcendeu esse género. Utz é disso exemplo. A meu ver, não estamos perante um romance sobre viagens, mas antes sobre os muros que construímos à nossa volta para evitar a realidade com que não queremos lidar.
            Escrito de uma forma leve e recheada de detalhes eruditos, o livro foca um tema bem pesado - o que vale o gosto pelo belo perante uma sociedade marcada pelo totalitarismo?
            O próprio Utz é um anti-herói. Aproveita momentos de tensão (a queda da Bolsa em 1929, a noite de cristal em Berlim e a ascensão do partido comunista na URSS) para comprar peças de arte a um preço para si mais agradável e é, de algum modo conivente com o regime checoslovaco (o preço a pagar para manter a sua colecção de porcelanas). Alguns episódios esporádicos de boa consciência não afastam esta impressão geral e são mesmo algo incoerentes na construção da personagem.
A dúvida persiste no fim do livro: Utz é um perfeito cavalheiro resistindo de forma passiva mas convicta ao regime do seu país ou é antes um exemplo de alienação através da arte, apenas preocupado com o seu conforto pessoal?
            Cada leitor terá a sua resposta. Mas qualquer que ela seja não belisca o mérito de Chatwin, não só quanto ao tom que imprimiu ao livro, mas também na construção desta personagem enigmática e inesquecível.

quarta-feira, 21 de novembro de 2012







             Há outras coisas, felizmente. Mas esta combinação também ajuda!

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Divergências Irreconciliáveis

        

Pinterest

       A semana passada soube-se que uma mulher inglesa pediu o divórcio, depois de ter lido As cinquenta sombras de Grey. Antes, inspirada por tal leitura, tentara introduzir mudanças no panorama sexual do seu casamento, iniciativa sem sucesso, por falta de interesse do marido.
            Num mundo com tantos divórcios, este ganhou destaque na Imprensa por ter na sua base um livro.
            A notícia toca numa questão com que todos os que têm alguma imaginação e gosto pelos livros (uma combinação explosiva, reconheça-se) se deparam. Como não comparar os relacionamento que nos são dados a viver com os modelos literários que formaram o nosso gosto e sensibilidade?
            A Cinderela e o Príncipe não têm aqui lugar. Mas depois de conhecer Fitzwilliam Darcy como suportar os membros do sexo masculino que se melindram com o mais ténue sinal de ironia nuns lábios femininos? Depois de testemunhar a inevitabilidade da paixão de Ana Karenina como aceitar reconduzir a questão amorosa ao “vamos ver o que isto dá?”. E depois de terminar a leitura da história de Blimunda e Baltazar como aceitar o “mais ou menos” como regra de vida?
            Cada um terá a sua resposta, dependendo da sorte que a vida lhe reservou e das leituras que fez. Para algumas pessoas estas questões nem farão sentido.
            De qualquer modo, a mim, não me surpreende nada que um livro esteja na base de uma separação conjugal. Espanta-me é que esse livro seja As Cinquenta Sombras de Grey. É que pensando bem no assunto o Orgulho e Preconceito ou Os Cadernos de Dom Rigoberto têm muito mais potencial para provocar um divórcio. Por divergências absolutamente irreconciliáveis.

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Alice no País das Maravilhas

        Em 1865 Charles Lutwige Dogson publicou Alice no País das Maravilhas, sob o pseudónimo de Lewis Carroll. O livro foi escrito a pedido de Alice Liddel, filha de amigos do escritor inglês. Conta a história de uma menina, também chamada Alice, que cai pela toca de um coelho e entra num mundo imaginário paralelo, governado pela Rainha de Copas. É aí que conhece personagens enigmáticas como o Chapeleiro Louco ou o Coelho Branco.      
      Apesar de ter sido escrito como um livro para crianças, Alice no País das Maravilhas tem vários níveis de leitura, estando carregado de simbolismo. Não é, pois, uma obra de apreensão fácil. Tal como sucedeu anos mais tarde com o criador de O Feiticeiro de Oz, há quem defenda que C.S.Lewis, escolheu uma criança para protagonista e usou o artifício de um sonho da mesma, para construir uma crítica à sociedade em que vivia. Poderá ser. Mas qualquer que fosse o sentido que pretendeu à sua obra, o certo é que a mesma tem encantado crianças e adultos e inspirados outros criadores.
     As imagens que apresento são de desenhos Salvador Dali que, no final dos anos sessenta do século passado, ilustrou uma versão de Alice no País das Maravilhas (podem vê-las aqui). Mas muitos outros artistas plásticos se deixaram tentar. Isso mesmo pode ver-se na exposição da Calouste Gulbenkian patente ao público desde 1 de Novembro, Um chá para Alice, para ver até 10 de Fevereiro de 2013.

Um chá de loucos


O depoimento de Alice

      

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

A estante dos outros (II)

Uma das estantes de Paulo, fotografada por ele próprio

          
             Bibliófilo convicto, que vasculha com igual empenho velhas livrarias esquecidas e catálogos on-line, com uma biblioteca espalhada pelos quatro cantos do Mundo, o meu amigo Paulo, reserva algumas surpresas. Como a escolha das três obras que mais o marcaram, onde aparece Gabriel Garcia Marquez ou a sua actual escolha literária. Só se lhe pode desejar tempo e disposição para ler os milhares de volumes que já adquiriu e os que ainda hão-de vir, pois o Paulo tem no tsundoku o seu desporto de eleição…

        
    Qual a tua primeira recordação literária?
           A minha primeira recordação literária data da época em que lia livros escritos sobre Os cinco, pela Eny Blyton. Devia ter sete/oito anos.
          Indica três livros que te tenham marcado e porquê.
            a) O processo, da autoria do Kafka
Creio que este livro – longe de ser uma auto-biografia – demonstra bem os meandros que marcaram a vida psíquica de Kafka. Arrisco uma opinião, segundo a qual ter-se-á tratado igualmente da história de uma época conturbada para quem, como Kafka, estava dividido entre duas culturas (não nos esqueçamos que ele era judeu e escreveu em alemão). Uma obra de difícil interpretação. Uma obra que devia ser relida com um intervalo de dez anos, na medida em que penso que o respectivo leitor teria a possibilidade de perceber melhor o significado.
         b) Os miseráveis de Vitor Hugo
Não se trata de um simples romance.
A batalha de Waterloo está brilhantemente relatada.
A pobreza está muito bem caracterizada.
É igualmente a França e a sua história que Vítor Hugo pinta.
Trata-se de um romance que valeria a pena ler duas vezes antes de morrer.
      c) Crónica de uma morte anunciada, escrito pelo Gabriel Garcia Marquez
     Na minha perspectiva esta obra terá sido a mais bem escrito de garcia Márquez. A obra retrata a fatalidade humana, bem como a impossibilidade de travar um destino que nos aguarda. O autor procura demonstrar que esse destino já estava à partida definido. 
         Tens hábitos ou rituais de leitura?
         Tenho hábitos de leitura, ainda que seja uma pessoa dispersa.
       Existe algum livro que te recusasses a ler, mesmo que te pagassem o teu peso em ouro?
Não guardo em memória nenhum livro que me recusaria a ler, mesmo a troco de uma elevada recompensa ou gratificação.
No entanto, tenho preferência por autores clássicos ou conhecidos. Em matéria de autores não conhecidos, aceito ler as respectivas obras, caso me sejam recomendadas por pessoas que já as leram e as apreciaram.
Se tivesses três meses de férias sem limitações ou problemas de qualquer espécie que livros escolherias para ler?
     Caso dispusesse de três meses para me dedicar à leitura, render-me-ia à leitura do “roman fleuve” (vinte volumes) escrito por Emile Zola, isto é, os Rougon Macquart. Estamos perante uma lição de história que versa sobre o segundo Império francês e que analisa a sociedade francesa.
           O que estás a ler agora?
     Neste momento estou a ler “A terapia” de David Lodge. Trata-se de um livro divertido, caracterizado por uma escrita simples. Contudo, apesar de ser uma leitura leve, é profundo o conteúdo e as ideias que o autor transmite.